O uso de antibióticos, essencial no tratamento de infecções bacterianas, pode ser associado a impactos duradouros na saúde intestinal. De acordo com estudos científicos, entre 6% e 15% da população apresentam algum tipo de desequilíbrio na microbiota ao longo da vida, condição conhecida como disbiose. Além disso, tem sido demonstrado que alterações provocadas por antibióticos podem persistir por meses e, em alguns casos, por anos, afetando a digestão, a imunidade e o metabolismo.
Nesse contexto, dados publicados em pesquisas disponíveis na base do National Center for Biotechnology Information (NCBI) indicam que a microbiota intestinal, composta por trilhões de microrganismos, é considerada essencial para o funcionamento do organismo. Entre suas funções, destacam-se a digestão de alimentos, a produção de vitaminas, a regulação do sistema imunológico e o controle de processos inflamatórios.
Impactos dos antibióticos no intestino
Segundo o médico nutrólogo Arthur Rocha, o uso de antibióticos pode ser diretamente relacionado à alteração desse equilíbrio.
“Dentro do nosso intestino vivem trilhões de bactérias boas, que ajudam na digestão, na produção de vitaminas, na imunidade e até no controle do metabolismo. O problema é que o antibiótico não consegue escolher quais bactérias matar. Ele elimina as bactérias que causam infecção, mas também acaba atingindo parte das bactérias benéficas do intestino”.
Dessa forma, esse desequilíbrio é conhecido como disbiose intestinal e pode ser acompanhado por sintomas como alteração da digestão, gases, distensão abdominal, diarreia e prejuízo na absorção de nutrientes. Além disso, o sistema imunológico pode ser impactado, enquanto processos inflamatórios no organismo podem ser favorecidos.

Dr. Arthur Rocha alerta que o efeito dos antibióticos nem sempre é temporário. “Em muitos casos, a microbiota consegue se recuperar ao longo de semanas ou meses após o uso do antibiótico. Mas alguns estudos recentes mostram que certas alterações podem durar anos”.
Corroborando esse cenário, um estudo conduzido pela Uppsala University identificou que mudanças na microbiota intestinal ainda eram detectáveis até oito anos após o uso de antibióticos em alguns indivíduos. Assim, o impacto prolongado pode ser observado, especialmente quando fatores individuais são considerados.
Recuperação da microbiota intestinal
A recuperação da microbiota intestinal pode ser influenciada por diversos fatores, como o tipo de antibiótico utilizado, o tempo de uso, a alimentação e o estado geral de saúde. “Pessoas com uma microbiota mais pobre ou com alimentação muito industrializada tendem a ter recuperação mais lenta”, explica o nutrólogo.
Nesse sentido, é destacado pelo médico que o organismo pode ser recuperado após o uso da medicação. “Depois de um tratamento com antibióticos, o intestino precisa de um ambiente que favoreça novamente o crescimento das bactérias benéficas. A alimentação e o estilo de vida têm papel fundamental nesse processo”, destaca o médico.
O consumo de antibióticos deve ser realizado apenas com orientação médica. Isso porque o uso inadequado, além de contribuir para a resistência bacteriana, considerada pela Organização Mundial da Saúde uma das maiores ameaças à saúde global, também pode comprometer o equilíbrio da microbiota intestinal.
Artur Rocha reforça que o acompanhamento profissional e a adoção de hábitos saudáveis devem ser priorizados, a fim de que a saúde do intestino seja preservada e complicações a longo prazo sejam evitadas.
Como recuperar a microbiota intestinal
Após o uso de antibióticos, algumas estratégias podem ser adotadas para que o equilíbrio intestinal seja restabelecido. De modo geral, estudos de instituições internacionais de saúde reforçam que a alimentação e o estilo de vida devem ser considerados pilares nesse processo.
Entre as principais recomendações, destacam-se:
• Alimentação rica em fibras: vegetais, frutas, legumes e grãos integrais devem ser consumidos, pois ajudam a nutrir as bactérias benéficas.
• Alimentos fermentados: iogurte natural, kefir e kombucha podem ser incluídos na rotina alimentar, contribuindo para a reposição de microrganismos.
• Prebióticos: presentes em alimentos como banana, aveia, alho e cebola, podem ser utilizados como fonte de energia para as bactérias boas.
• Probióticos: em alguns casos, podem ser indicados para auxiliar na recuperação da microbiota.
• Estilo de vida saudável: hábitos como sono adequado, prática de atividade física e controle do estresse devem ser mantidos, uma vez que influenciam diretamente a saúde intestinal.
