O Brasil registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano, segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA/Ministério da Saúde) para o triênio 2023–2025. Esse volume, por si só, mantém o câncer entre os maiores desafios de saúde pública no país.
No entanto, um dado relevante ajuda a reposicionar o debate. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 30% e 50% dos casos podem ser prevenidos por meio de medidas como a redução do tabagismo e do consumo de álcool, além da adoção de alimentação mais saudável, prática regular de atividade física e vacinação.
“Quando falamos em câncer, muita gente pensa que é sempre genética. Não é. Uma parte importante tem relação direta com fatores modificáveis: tabagismo, álcool, excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada e exposição solar sem proteção”, afirma a Dra. Laísa Silva, oncologista do Hospital Regional de Assis, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) e gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas ‘Dr. João Amorim’.

Tipos de câncer mais incidentes no Brasil
De acordo com o INCA, entre os cânceres mais frequentes no país estão os de pele não melanoma, mama, próstata, cólon e reto, pulmão e estômago.
“Nas mulheres, o câncer de mama segue como o mais comum; nos homens, o de próstata. Mas é importante olhar também para os tumores fortemente associados a hábitos, como pulmão, por exemplo, muito ligado ao tabaco”, explica Dra. Laísa.
Tabagismo e álcool: fatores de risco evitáveis
Entre os fatores de risco, o tabagismo se destaca como o fator isolado mais prevenível. No mundo, ele está relacionado a uma parcela expressiva das mortes por câncer e, por isso, segue como prioridade de saúde pública.
“Parar de fumar é a medida com maior impacto na redução de risco oncológico. E vale também para quem já fumou: o corpo se beneficia com o tempo”, afirma a médica.

Além disso, o consumo de álcool também é reconhecido como um fator de risco estabelecido para diversos tipos de câncer. “É um tema que ainda surpreende: do ponto de vista oncológico, não há consumo totalmente isento de risco. Reduzir já ajuda. E evitar é melhor.”
Excesso de peso, sedentarismo e exposição solar
Da mesma forma, o excesso de peso e o sedentarismo aumentam o risco para múltiplos tipos de câncer e exigem atenção contínua.
“Não se trata de dieta da moda. É necessário apenas ter uma rotina que inclui comida de verdade, com menos ultraprocessados, movimento regular e sono melhor”, resume.
Além disso, o câncer de pele, o mais frequente no Brasil, pode ser evitado com medidas simples, como o uso de proteção solar, roupas adequadas e a não exposição nos horários de maior radiação. “São atitudes simples que mudam o risco ao longo da vida”, orienta.

Vacinação como estratégia de prevenção
Nesse contexto, a vacinação ocupa papel central na prevenção do câncer. Alguns tumores, inclusive, estão diretamente associados a infecções evitáveis por meio da imunização.
“Quando se fala em tumores de colo de útero, orofaringe, ânus, pênis, vagina e vulva, um dos principais vilões é o HPV, que possui vacina. Assim como a imunização contra a hepatite B, que previne a infecção pelo HBV, principal fator de risco para o câncer de fígado”, afirma.

Importância do diagnóstico precoce
Além das medidas preventivas, a detecção precoce é um dos principais determinantes da sobrevida. Segundo a oncologista, identificar o câncer em fases iniciais muda completamente a trajetória da doença.
Isso porque o diagnóstico precoce possibilita tratamentos com intenção curativa, menos agressivos, com menos efeitos colaterais e melhor qualidade de vida. Nesse sentido, a realização regular de consultas e exames de rotina, conforme orientação médica, é fundamental.
Avanços no tratamento oncológico
Paralelamente, nos últimos anos, a oncologia avançou de forma significativa com a incorporação da medicina de precisão, dos testes moleculares, da imunoterapia e das terapias-alvo.
Essas abordagens, portanto, tornaram o cuidado mais individualizado e humanizado e, em alguns tumores, ampliaram as chances de cura em cenários antes considerados improváveis.
Prevenção, informação e cuidado contínuo
Diante desse cenário, no Dia Mundial do Câncer, celebrado em 4 de fevereiro, a médica reforça que a combinação entre prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao cuidado segue sendo a principal estratégia para reduzir o impacto da doença no país.
“O câncer ainda assusta, mas hoje sabemos que muitos casos podem ser prevenidos e muitos outros podem ser curados quando diagnosticados precocemente. A informação e o cuidado contínuo fazem diferença real na vida das pessoas”, conclui.
