Um nariz escorrendo, tosse leve e irritação podem parecer apenas sintomas de um resfriado comum. No entanto, em alguns bebês, o quadro evolui rapidamente para dificuldade respiratória, chiado no peito e recusa das mamadas. É nesse momento que muitos pais se deparam com a bronquiolite, uma das doenças respiratórias que mais preocupam pediatras durante os meses mais frios do ano.
A bronquiolite viral aguda é uma inflamação dos bronquíolos, pequenas vias aéreas dos pulmões, que afeta principalmente crianças menores de dois anos, especialmente bebês com menos de seis meses. O principal causador da doença é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), responsável por até 80% dos casos, segundo o Ministério da Saúde.
Com a chegada do inverno e o aumento da circulação de vírus respiratórios, hospitais e emergências pediátricas registram crescimento significativo na procura por atendimento. A enfermidade atinge mais de um terço dos bebês nos dois primeiros anos de vida e pode levar até 10% deles à hospitalização.
Vírus respiratórios aumentam circulação no inverno
De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 120.176 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por vírus respiratórios em 2025. Desse total, 43.946 tiveram relação com o VSR. Além disso, mais de 36 mil hospitalizações ocorreram entre crianças menores de dois anos, faixa etária considerada a mais vulnerável às complicações da bronquiolite.
Segundo a pediatra neonatologista Mirla Amorim, do Hospital Mater Dei Emec, em Feira de Santana, a anatomia das vias respiratórias dos bebês favorece a rápida evolução da doença.
“A maior preocupação é que os bronquíolos dos bebês são muito estreitos. Quando ocorre inflamação e aumento da produção de secreção, a passagem do ar fica comprometida com muita rapidez”, explica.
A especialista destaca ainda que a progressão do quadro costuma surpreender muitas famílias.
“Muitas vezes o bebê inicia apenas com sintomas parecidos com os de um resfriado comum. Em 24 ou 48 horas pode surgir desconforto respiratório importante, exigindo avaliação médica imediata”, alerta.

Grupos mais vulneráveis exigem atenção redobrada
Embora qualquer bebê possa desenvolver bronquiolite, algumas crianças apresentam maior risco de complicações. Entre elas estão prematuros, recém-nascidos, pacientes com cardiopatias congênitas, doenças pulmonares crônicas ou imunidade comprometida.
“Esse público possui uma reserva respiratória menor e pode apresentar piora clínica de forma mais rápida. Por isso, qualquer sinal de dificuldade respiratória deve ser valorizado pelos pais e avaliado por um profissional de saúde”, orienta Mirla Amorim.
Dificuldade para respirar é principal sinal de alerta
Os especialistas orientam os pais a observar atentamente o padrão respiratório da criança. Respiração acelerada, afundamento das costelas, gemência, chiado no peito, lábios arroxeados e dificuldade para se alimentar são sinais que exigem avaliação médica.
“A recusa das mamadas costuma ser um dos primeiros indícios de que o bebê não está conseguindo respirar adequadamente. Ele fica cansado para sugar e respirar ao mesmo tempo”, destaca a médica.
Outro fator que preocupa é a desidratação. Como o bebê respira mais rápido e reduz a ingestão de líquidos, pode ocorrer perda de peso e necessidade de suporte hospitalar.
Tratamento é baseado em suporte clínico
Ao contrário do que muitos pais imaginam, antibióticos não costumam fazer parte do tratamento da bronquiolite, já que a doença tem origem viral.
O manejo inclui hidratação adequada, lavagem nasal frequente e monitoramento da oxigenação. Nos casos mais graves, a criança pode precisar de internação e suporte com oxigênio.
“O principal tratamento é garantir que o bebê consiga respirar e se hidratar adequadamente. Por isso, a avaliação médica é fundamental para definir se o acompanhamento pode ser feito em casa ou se há necessidade de internação”, explica Mirla.
Novas estratégias ajudam a reduzir internações
Além das medidas preventivas tradicionais, como higienização frequente das mãos, evitar contato de recém-nascidos com pessoas gripadas e reduzir a exposição a ambientes fechados e aglomerados, o Brasil ampliou recentemente as estratégias de proteção contra o VSR.
Os resultados já começam a aparecer. Dados do Ministério da Saúde apontam queda de 52% nas internações por SRAG associada ao VSR entre crianças menores de dois anos, na comparação com 2023. Os óbitos relacionados ao vírus também apresentaram redução de 63% no período.
Para Mirla Amorim, a principal recomendação continua sendo a observação cuidadosa dos sintomas respiratórios.
“Quando falamos de bebês menores de um ano, especialmente nos primeiros seis meses de vida, observar a qualidade da respiração é tão importante quanto medir a temperatura. Em caso de dúvida, a avaliação médica precoce pode fazer toda a diferença.”
Por isso, reconhecer rapidamente os sinais de alerta é fundamental para evitar complicações e garantir uma recuperação mais segura durante a temporada de maior circulação dos vírus respiratórios.


