O número de novos casos de câncer no mundo pode passar de 20,6 milhões em 2024 para 34,4 milhões em 2050, segundo estimativa da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC). O aumento projetado chega a 66,7%. A entidade, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), calculou os números a partir das estimativas do GLOBOCAN 2024.
A projeção considera principalmente as mudanças demográficas. O crescimento e o envelhecimento da população devem ampliar a quantidade de pessoas em faixas etárias nas quais o câncer ocorre com maior frequência. Além disso, fatores relacionados ao estilo de vida e algumas infecções também contribuem para a carga da doença.
O cenário também integra o debate apresentado no Global Status Report on Cancer 2026, da OMS. O relatório reúne informações sobre a carga global do câncer, a capacidade dos sistemas de saúde e as desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
A estimativa de 2050 não significa que o mundo necessariamente chegará a esse número de casos. Trata-se de uma projeção baseada nas tendências demográficas e epidemiológicas atuais. Portanto, mudanças na população, nos fatores de risco e nas políticas de prevenção podem alterar esse cenário.

Envelhecimento da população amplia o número de casos
O envelhecimento populacional aparece entre os principais fatores relacionados ao crescimento projetado da incidência de câncer. Isso ocorre porque o desenvolvimento da doença envolve o acúmulo de alterações nas células ao longo da vida.
Quanto maior a expectativa de vida, maior também o período de exposição a processos que podem contribuir para o surgimento de tumores.
Para o professor doutor em Saúde Pública da Estácio Sergipe, Bruno Araujo, o envelhecimento ocupa papel central nessa tendência.
“O câncer é uma doença relacionada ao acúmulo de alterações nas células ao longo da vida. Quanto maior a expectativa de vida, maior também a probabilidade de surgirem essas alterações que podem dar origem aos tumores”, explica.
No Brasil, o envelhecimento da população também avança nas próximas décadas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram o crescimento da população com 60 anos ou mais. A tendência acompanha a transição demográfica observada no país.
Por isso, o aumento do número absoluto de casos não significa, necessariamente, que cada pessoa esteja mais propensa a desenvolver câncer. Em parte, o crescimento ocorre porque mais pessoas estão vivendo por mais tempo.
Brasil deve registrar 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028
No Brasil, a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o instituto estima cerca de 518 mil casos anuais.
O INCA apresenta o câncer de pele não melanoma separadamente por causa da elevada frequência desses tumores e de suas características de evolução e mortalidade. Assim, números de diferentes edições das estimativas do instituto exigem atenção ao período e à metodologia antes de qualquer comparação.
Entre os homens, os tumores mais incidentes, sem considerar o câncer de pele não melanoma, são os de próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral. Já entre as mulheres, os principais são os de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide.
Esses dados mostram como o cenário brasileiro acompanha parte das tendências observadas internacionalmente. No entanto, a distribuição dos casos varia conforme idade, sexo, localização do tumor, fatores de risco e acesso aos serviços de saúde.
Fatores que podem ser prevenidos
Embora a mudança demográfica tenha grande peso na projeção para 2050, uma parcela dos casos de câncer está relacionada a fatores de risco que podem ser evitados ou reduzidos.
Uma análise global divulgada pela OMS e pela IARC em 2026 estimou que 37% dos novos casos de câncer registrados em 2022 estavam relacionados a causas potencialmente preveníveis. O percentual corresponde a cerca de 7,1 milhões de casos. O levantamento avaliou 185 países e 36 tipos de câncer.
Entre os principais fatores aparecem o tabagismo, determinadas infecções e o consumo de álcool. A OMS também inclui excesso de peso, alimentação inadequada, inatividade física e poluição do ar entre os fatores relacionados ao risco de câncer.
Nesse contexto, o tabagismo continua entre os fatores de maior impacto. Ao mesmo tempo, mudanças em outros comportamentos podem alterar o perfil da doença nas próximas décadas.
“O tabagismo vem diminuindo nas últimas décadas, o que representa uma importante conquista da saúde pública. No entanto, o aumento da obesidade e do consumo de álcool pode reduzir parte desse benefício e contribuir para o crescimento dos casos de câncer no futuro”, alerta Bruno Araújo.
Excesso de peso e risco de câncer
O excesso de gordura corporal e o ganho de peso na vida adulta estão associados a diferentes tipos de câncer. Segundo o INCA, a relação inclui tumores de esôfago, estômago, pâncreas, vesícula biliar, fígado, intestino, rim, mama após a menopausa e endométrio, entre outros.
A relação envolve diferentes mecanismos. Alterações hormonais e metabólicas, resistência à insulina, mudanças em fatores de crescimento e inflamação crônica podem participar do desenvolvimento e da progressão de alguns tumores.
Por isso, o excesso de peso deve ser tratado como um fator de risco associado a diferentes tipos de câncer. Ele não explica, sozinho, a projeção global de aumento dos casos até 2050.
Álcool também está relacionado a diferentes tumores
O consumo de bebidas alcoólicas também está associado a diferentes tipos de câncer. Segundo o INCA, o álcool aumenta o risco de tumores da boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, fígado, intestino e mama.
Durante o metabolismo do álcool, o organismo produz acetaldeído, uma substância reconhecida como carcinogênica. Além disso, a combinação entre álcool e tabagismo pode elevar ainda mais o risco de alguns tumores.
Dessa forma, reduzir o consumo de álcool representa uma das estratégias que podem contribuir para a prevenção de parte dos casos.
Casos de câncer de início precoce também preocupam pesquisadores
Além do crescimento relacionado ao envelhecimento populacional, pesquisadores acompanham outro fenômeno: o aumento dos casos de câncer de início precoce.
O termo se refere, no estudo utilizado nesta reportagem, aos diagnósticos em pessoas de 14 a 49 anos. Um trabalho publicado na revista BMJ Oncology analisou dados de 204 países e regiões e identificou um aumento de 79,1% na incidência de câncer de início precoce entre 1990 e 2019.
Em 2019, o estudo estimou cerca de 3,26 milhões de novos casos nessa faixa etária. Entre os tumores com maior carga estavam os de mama, traqueia, brônquios e pulmão, estômago e intestino.
Além desses tipos, os pesquisadores observaram aumento em tumores como os de colorretal, pâncreas, rim, endométrio, fígado e estômago.
O estudo também analisa possíveis relações com mudanças nos padrões alimentares, consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade desde a infância e alterações no microbioma. No entanto, esses fatores ainda integram linhas de investigação. Eles não explicam, isoladamente, o aumento observado.
Por isso, os pesquisadores defendem estudos que acompanhem as pessoas ao longo da vida. O objetivo é entender melhor os mecanismos relacionados ao crescimento dos casos em idades mais jovens.
Para Bruno Araújo, o comportamento observado ao longo das últimas décadas reforça a necessidade de acompanhamento científico.
“Esse aumento não aconteceu de forma repentina, mas vem sendo observado ao longo das últimas décadas. Isso reforça a necessidade de monitoramento constante e de pesquisas que permitam entender melhor as mudanças no perfil da doença entre as novas gerações”, destaca o professor.
O aumento entre adultos mais jovens chama atenção porque muitos tipos de câncer apresentam maior incidência em idades avançadas. Assim, a mudança no perfil etário da doença pode exigir novas pesquisas e estratégias de prevenção e diagnóstico.

Prevenção continua sendo uma das principais estratégias
Embora nem todos os casos de câncer possam ser evitados, medidas de prevenção podem reduzir o risco de diversos tumores.
Entre as principais recomendações estão não fumar, evitar o tabaco, manter um peso adequado, praticar atividade física regularmente, adotar uma alimentação equilibrada e reduzir ou evitar o consumo de bebidas alcoólicas. O INCA também orienta priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e reduzir o consumo de produtos ultraprocessados.
A vacinação também tem papel importante. A imunização contra o papilomavírus humano (HPV) ajuda a prevenir infecções relacionadas a diferentes tipos de câncer. Já a vacina contra a hepatite B ajuda a prevenir a infecção pelo vírus associado ao câncer de fígado.
Além disso, o diagnóstico precoce pode melhorar as possibilidades de tratamento. Exames de rastreamento podem identificar alterações ou tumores em fases iniciais para determinados grupos. A indicação, porém, varia conforme o tipo de câncer, idade, histórico familiar e outros fatores de risco.
Portanto, as projeções para 2050 não representam apenas um alerta sobre o crescimento do número de casos. Elas também reforçam a necessidade de ampliar ações de prevenção, vacinação, diagnóstico precoce, tratamento e acesso aos serviços de saúde.
“Envelhecer é inevitável. O desafio é chegar à velhice com hábitos que reduzam o risco de desenvolver câncer. A prevenção continua sendo a ferramenta mais eficaz para mudar esse cenário nas próximas décadas”, conclui Bruno Araujo.


