O uso crescente de medicamentos para emagrecimento tem mudado o perfil de pacientes na cirurgia plástica e acende alerta entre especialistas. Fármacos como o Mounjaro (tirzepatida), embora eficazes no controle metabólico, podem interferir na segurança anestésica, no estado nutricional e na recuperação cirúrgica.
De acordo com o cirurgião plástico Dr. Gerson Julio, com mais de 30 anos de carreira e mais de 9 mil cirurgias realizadas, a principal preocupação envolve os efeitos no metabolismo e no sistema gastrointestinal.
“Medicamentos como o Mounjaro atuam diretamente no organismo, retardando o esvaziamento do estômago e promovendo perda de peso significativa. No contexto cirúrgico, isso pode interferir tanto na segurança anestésica quanto na avaliação do estado nutricional do paciente”, explica.
Mudança no perfil dos pacientes
Nos últimos anos, a procura global por medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1 cresceu de forma acelerada, segundo dados da IQVIA. Como resultado, mais pacientes chegam aos consultórios após perda de peso significativa.
Nesse cenário, muitos buscam procedimentos para tratar flacidez de pele e redefinir o contorno corporal. Além disso, a rápida redução de peso exige uma análise mais cuidadosa antes da cirurgia.

Estado nutricional exige atenção redobrada
Um dos principais pontos de alerta envolve o estado nutricional. Como o medicamento reduz o apetite e pode levar a um emagrecimento mais rápido, alguns pacientes podem apresentar deficiências de nutrientes essenciais para o processo de cicatrização.
“Quando a perda de peso acontece de forma acelerada, pode haver impacto na qualidade da pele, na massa muscular e no equilíbrio nutricional. Esses fatores são fundamentais para uma boa recuperação pós-operatória”, afirma o Dr. Gerson.
Por isso, exames laboratoriais e avaliação clínica detalhada tornam-se ainda mais importantes antes da indicação de qualquer cirurgia. Hemograma completo, análise de proteínas, vitaminas e avaliação metabólica costumam fazer parte do preparo cirúrgico.
Risco anestésico e esvaziamento gástrico
Outro fator que exige atenção é o efeito do medicamento no esvaziamento gástrico. Mesmo após o período tradicional de jejum pré-operatório, o estômago pode ainda conter resíduos alimentares.
“Esse atraso no esvaziamento gástrico pode aumentar o risco de aspiração durante a anestesia, que é uma complicação potencialmente grave. Por isso, a equipe anestésica precisa ser informada sobre o uso do medicamento para adotar protocolos de segurança adequados”, explica o cirurgião.

Suspensão do medicamento antes da cirurgia
Além da avaliação clínica, o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” deve ser interrompido antes da cirurgia. A recomendação é suspender o medicamento entre 15 e 21 dias antes do procedimento.Com o aumento do uso desses medicamentos, os consultórios têm recebido um novo perfil de pacientes.
“Observamos cada vez mais pessoas que perderam peso rapidamente e buscam a cirurgia plástica para tratar a flacidez da pele ou aprimorar o contorno corporal. Isso exige uma avaliação ainda mais criteriosa e individualizada”, explica o Dr. Gerson.
Nesses casos, além da estabilidade do peso, fatores como a qualidade da pele, o grau de flacidez e o estado nutricional tornam-se determinantes para definir o momento ideal de realizar o procedimento.
Planejamento é essencial para segurança
Especialistas reforçam que o planejamento cirúrgico deve considerar diversos fatores. Entre eles, destacam-se a estabilidade do peso, a qualidade da pele e as condições clínicas gerais do paciente.No entanto, um erro comum ainda preocupa os médicos: a omissão do uso do medicamento durante a consulta.
“Muitos acreditam que, por se tratar de um remédio para emagrecimento, ele não interfere no contexto cirúrgico. Na realidade, pode impactar diretamente na anestesia, na avaliação nutricional e no planejamento da cirurgia”, alerta o Dr. Gerson.
Por fim, a recomendação é que o uso do medicamento seja informado desde a primeira consulta médica. “A cirurgia plástica exige planejamento. O mais importante é garantir que o paciente esteja saudável, com peso relativamente estável e com o organismo preparado para o procedimento. Segurança sempre deve vir em primeiro lugar”, finaliza o especialista.
