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Foto: Arquivo/Instagram pessoal

Cardiomiopatia hipertrófica acende alerta após morte de atleta

DOENÇA CARDÍACA

Conheça mais sobre a doença cardíaca grave, silenciosa e frequentemente associada à morte súbita em jovens atletas.

Tempo de Leitura: 4 minutos

A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, cujo diagnóstico inicial aponta para cardiomiopatia hipertrófica, voltou a chamar atenção para uma doença cardíaca grave, silenciosa e frequentemente associada à morte súbita em jovens atletas.

De origem genética, a cardiomiopatia hipertrófica é caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco. A condição pode dificultar o bombeamento do sangue e favorecer arritmias potencialmente fatais.

Segundo dados da Diretriz Sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica de 2024, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a doença atinge atualmente cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo. Além disso, aproximadamente 70% dos casos ocorrem em homens.

O cardiologista Dr. Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da SBC, explica que a condição não é rara.

“A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética e não é tão rara assim. Hoje, a prevalência é de aproximadamente um caso para cada 500 pessoas”, afirma.

Além disso, a condição é considerada uma das principais causas de morte súbita em atletas. Estimativas apontam que entre 30% e 40% dos pacientes apresentam risco aumentado para eventos cardíacos graves, especialmente indivíduos mais jovens, geralmente com menos de 40 anos.

Ela é uma das principais causas de morte súbita em atletas e em pessoas com menos de 35 anos”, reforça Avanza.

Alteração no coração pode favorecer arritmias graves

A doença provoca aumento do espessamento do músculo cardíaco, principalmente na região do septo, estrutura que separa as cavidades do coração. Com isso, o fluxo sanguíneo pode ser comprometido, aumentando o risco de arritmias graves.

Geralmente, o septo cresce mais do que a parede posterior do coração, podendo obstruir o fluxo sanguíneo e favorecer arritmias e morte súbita”, explica o especialista.

Embora ainda não exista confirmação de que Gabriel fazia uso de anabolizantes, especialistas alertam que essas substâncias podem agravar quadros cardíacos preexistentes.

O uso de esteroides anabolizantes pode piorar a hipertrofia do coração e agravar ainda mais a cardiomiopatia hipertrófica”, alerta Avanza.

Desde 2023, uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de ganho de performance. A medida foi baseada em estudos que demonstraram os riscos cardiovasculares e metabólicos associados ao uso indiscriminado dessas substâncias.

Doença silenciosa dificulta diagnóstico precoce

Apesar da gravidade, a cardiomiopatia hipertrófica costuma evoluir sem sintomas aparentes. Segundo a diretriz, cerca de 90% dos casos podem ser assintomáticos, fator que contribui para diagnósticos tardios.

Na maioria das vezes, a doença é assintomática ou oligossintomática. O paciente pode não sentir praticamente nada”, destaca o cardiologista.

Quando os sintomas aparecem, eles frequentemente são confundidos com outras doenças cardiovasculares ou até mesmo associados ao desgaste provocado por exercícios intensos. Entre os sinais mais comuns estão:

• Falta de ar;
• Dor no peito;
• Palpitações;
• Tonturas;
• Desmaios;
• Cansaço excessivo durante esforço físico.

Os principais sinais de alerta são desmaio, palpitação e falta de ar durante atividade física”, afirma Avanza.

Ainda segundo a diretriz, aproximadamente 43% dos pacientes apresentam sintomas semelhantes aos da insuficiência cardíaca. Em outros casos, a doença pode apresentar forma obstrutiva, com presença de sopro cardíaco. Isso aumenta as chances de falsos diagnósticos e eleva o risco de morte súbita.

Imagem: Magnific

Jovens saudáveis também podem ser afetados

A repercussão do caso reforça um alerta importante feito por cardiologistas: doenças cardíacas graves não atingem apenas idosos ou pessoas sedentárias.

Por possuir forte componente hereditário, a cardiomiopatia hipertrófica pode atingir jovens aparentemente saudáveis, incluindo atletas de alta performance e praticantes frequentes de musculação.

Para o especialista, a investigação cardiológica antes da prática esportiva intensa é fundamental. “Antes de iniciar atividade física intensa, esse é um diagnóstico que precisa ser investigado e excluído”, pontua. Segundo ele, exames simples podem ajudar na detecção precoce da doença.

O indivíduo deve passar, pelo menos, por anamnese, exame físico e eletrocardiograma. O eletrocardiograma pode detectar a expressão fenotípica da cardiomiopatia hipertrófica”, explica.

Especialistas defendem que avaliações cardiológicas periódicas sejam incorporadas à rotina de quem pratica atividade física intensa, principalmente quando há histórico familiar de morte súbita, arritmias, desmaios inexplicados ou doenças cardíacas. Exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e ressonância magnética cardíaca estão entre os principais métodos utilizados na investigação da condição.

Discussão vai além do esporte

Além do impacto causado pela morte precoce do jovem fisiculturista, o caso reacende discussões sobre conscientização cardiovascular entre adultos jovens e sobre a importância da prevenção, mesmo na ausência de sintomas.

Em um cenário de crescente busca por desempenho físico e estética corporal, especialistas alertam que o acompanhamento médico não deve ser negligenciado. “Se houver desmaio, palpitação ou falta de ar, é fundamental procurar avaliação médica”, reforça Avanza.

Embora a cardiomiopatia hipertrófica não tenha cura, o diagnóstico precoce permite controle clínico, monitoramento adequado e redução significativa dos riscos relacionados à doença.

O caso segue sob investigação. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo aguarda os resultados do Instituto Médico Legal (IML) para esclarecimentos adicionais.

Uso indiscriminado de hormônios e anabolizantes preocupa especialistas

Além da discussão sobre morte súbita e doenças cardíacas em atletas, especialistas também alertam para os riscos associados ao uso indiscriminado de anabolizantes, esteroides e terapias hormonais sem acompanhamento médico.

A chamada “modulação hormonal”, frequentemente divulgada com promessas relacionadas ao envelhecimento, ganho estético e desempenho físico, tem gerado preocupação entre especialistas. Isso porque o termo vem sendo utilizado de forma promocional e, muitas vezes, sem respaldo científico adequado.

Estudos reforçam os riscos. Uma revisão publicada em 2020 no “Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism” apontou que o uso inadequado e não supervisionado de hormônios pode aumentar o risco cardiovascular e provocar distúrbios metabólicos.

Além disso, pesquisa publicada em 2018 na revista “Drug and Alcohol Dependence”, com 1.057 usuários de esteroides anabolizantes, identificou maior risco de doenças cardiovasculares, disfunção hepática, alterações psicológicas e dependência.

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