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Educação em saúde e o futuro do respeito

Neurologista com atuação nos transtornos do neurodesenvolvimento no adulto. Mestre em Ciências pela Fiocruz, pós-graduado em Cuidados Paliativos e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Educar é impregnar de sentido a vida – frase do professor e filósofo Moacir Gadotti. Transformar a tecnicidade e frieza da informação em algo prático, passível de utilidade e de “cor” é a importância da educação em sua essência.

Na Medicina, um dos pontos mais importantes da profissão é a chamada “educação em saúde”. Trata-se da transmissão das ferramentas sobre o conhecimento da saúde para empoderamento das populações, facilitando a autonomia das pessoas a organizarem e perpetuarem comportamentos e estruturas para uma vida mais saudável e de qualidade.

O marco para esse processo foi a Carta de Ottawa, redigida após a conferência sobre promoção de saúde realizada na cidade canadense em 1986. Nela se encontra a definição mais precisa de educação em saúde: é o nome dado ao processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo.

Na década de 1980, os recursos de comunicação já eram amplos – através do rádio, da televisão e das mídias impressas. Entretanto, com o surgimento e disseminação da internet, a informação passou a transitar com uma capilaridade e velocidade jamais vista. Então podemos discutir a educação em saúde em um momento histórico único, capaz de atingirmos, praticamente sem exceção, todos os estratos sociais e todas as comunidades no Brasil – de forma imediata. E como estamos, nós, profissionais da saúde, nos saindo como agentes da informação? Trarei alguns cenários.

Em 2026, temos um sem-número de perfis, vídeos e postagens com notícias falsas sobre vacinas – com o recrudescimento de doenças outrora erradicadas ou controlada há décadas, como o sarampo. Na pandemia de COVID, há alguns anos, as redes sociais albergaram (e ainda o fazem) fatos grotescamente errados sobre tratamentos fantasiosos, questionamentos de evidências científicas inequívocas e o uso frequente da condição de profissionais de saúde (principalmente médicos) para viés de autoridade – validando os mais absurdos argumentos sobre as ciências.

Por outro lado, há ainda aqueles que são fiéis ao conhecimento da Ciência, utilizando de forma séria – e cética – as ferramentas para produção científica. E mais: conseguem propagar esse conhecimento pelas mesmas estradas (ou redes sociais) das fakenews, num embate cansativo – mas gratificante, quando se notam os resultados práticos desse esforço.

Um campo particularmente fértil, com o qual gostaria de ilustrar mais uma vez o papel da educação em saúde atualmente, são os chamados transtornos do neurodesenvolvimento. Estes são definidos com características funcionais cognitivas, não progressivas, marcadas por dificuldades ou limitações que podem impactar nas atividades da vida diária do indivíduo – sendo exemplos comuns o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Estamos falando de condições bastante comuns que têm prevalências em torno de 1-5% da população, conforme estudos populacionais. Mas será que a nossa população está educada o suficiente para lidar com pessoas com esses transtornos?

Não é difícil encontrarmos discursos anticientíficos em conversas de elevador ou no Instagram: “isso tudo é invenção”, “no meu tempo não havia isso”, “agora tudo é autismo”.

Mais do que culpabilizar a população, prefiro fazer um mea culpa– quanto ao papel dos médicos. Não estamos cumprindo, de forma suficiente, o nosso papel como educadores. E, claro, não que se trate de uma inação apenas dos profissionais de saúde; o poder público exerce papel fundamental nesse problema. Reflitamos, questionar a existência de condições amplamente estudadas e comuns na população, assim como tratá-las como algo sob vontade de quem é seu portador, é uma evidente falha de como as informações são repassadas.

E como reverter esse processo? Exatamente como se transforma a realidade de forma mais duradoura: através da educação formal, de crianças e adolescentes. Em relatórios da Open Society Institute, viram que os países nórdicos, principalmente a Finlândia, têm disciplinas longitudinais para estudar e aprender a identificar notícias falsas como parte da grade curricular – após reforma educacional em 2016.

Se quisermos formar adultos críticos e racionais, capazes de transformarem a sociedade em um ambiente mais empático e igualitário, precisamos nos voltar às crianças e adolescentes. Como cerne do pensamento filosófico de Paulo Freire, a educação precisa partir da realidade do educando para que ele seja capaz de transformá-la.

Por fim, defendo que ações de educação em saúde ganhem as salas de aula, levando o conhecimento científico para professores, gestores, trabalhadores e, principalmente, crianças e adolescentes, de forma persistente e – mais! – insistente. Afinal, há uma batalha entre o obscurantismo e a luz – da Ciência.

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