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O infantil nas dobras do tempo

Psicóloga graduada pela UFBA. Psicanalista. Mestre em Família na Sociedade Contemporânea. Especialista em Psicologia Hospitalar e Psicopatologia da Infância e Adolescência. Docente e coordenadora de pós-graduação em psicologia. Atendo em Consultório particular.

Lembro-me de uma paciente que, aos 90 anos, ao descobrir um câncer de estômago, sentou-se diante de mim e disse: “Eu sei por que estou com essa doença. É porque minha mãe me abandonou.”

Movida por um sentimento de abandono, de rejeição, que remontava aos seus quatro anos de idade, ela me trazia essa construção, essa relação entre o adoecimento e um abandono. Não se tratava de falar sobre a causalidade da doença. O pano de fundo era a origem de um sofrimento datado, atemporal, que foi desenhando sua relação com a vida ao longo do tempo.

Aos quatro anos de idade, a mãe pediu a ela que lhe trouxesse um pedaço de papel e caneta. Seria a carta de despedida para ela e os irmãos e a justificativa desse “abandono”. Essa carta ficou guardada por essa senhora/criança por 86 anos.

Pedi que ela trouxesse a carta. Pedi que ela lesse para mim. Estava ali, condensado naquele papel envelhecido, marcado pelas dobras do tempo, um sentimento que ela carregava por toda uma vida.

A pergunta “por que ela me abandonou?” colocava no centro a questão do seu valor para a mãe. E, embutida nela, a questão do seu próprio valor.

Uma carta recebida sem direito a resposta. Pedi então que ela me falasse o que queria dizer para a mãe.
Ela falou: “Mas ela morreu”.

Eu sabia que, endereçando esse conteúdo a alguém interessado na sua história, isso metabolizaria tanto afeto condensado. Ela podia dizer, agora olhando para os retalhos de lembranças com lacunas que eu a convidava a preencher

Ela acreditou na aposta e pôde falar muitas e muitas vezes sobre todos os afetos que sentiu naquela criança de quatro anos que foi um dia. Sobre o que nem sabia dizer naquela época.

Do silêncio que se instalou porque a mãe largou o pai pela paixão por outro homem, com quem fugiu. Era um assunto velado. E também, naquela época, a criança não era escutada como as de hoje.

Durante os atendimentos, esse afeto se deslocava em sua fala. Foi se dando conta de que ela mesma havia se abandonado pela vida. Uma tentativa de ser aceita pelo outro. De recuperar algo daquela mãe.

Naquela despedida, mal dita, ficou um resto. Um endurecido: “fui abandonada”.
Fazia tudo regida pelo medo de um novo abandono. Foi se perdendo nessa ansiedade de separação. Não conseguia se olhar como alguém de valor. Uma tatuagem que resistiu ao tempo.

E, tratando-se da doença e narrando suas histórias, algo foi se modificando. E foi nesse percurso, cuidando de si, olhando para si, enfrentando o tratamento, que ela pôde escrever uma carta-resposta “para a mãe”, que, na verdade, era uma resposta para ela mesma. E, nesse ponto, tem algo especialmente marcante que quero sublinhar. Muitas vezes, uma angústia, uma culpa ou qualquer sentimento não se desfaz numa suposta conversa com o outro.

Ela pode até se agravar quando esse outro não corresponde à expectativa de uma fala que curasse o passado. Mas, quando se escreve para “o outro”, sem enviar a carta, ela acaba chegando ao endereço. A própria pessoa.

A carta preenche uma falta de sentido da época. Produz respostas onde existia a solidão.

Essa história fala do infantil que nos acompanha toda uma vida. Que atravessa nossas escolhas e repetições de forma inconsciente.

Infantil e infância são coisas diferentes.

A infância tem um tempo marcado pelo desenvolvimento biológico. O infantil é isso de singular que vai criando modos de ser ao longo da vida.

Outro dia, olhando a fotografia dos meus filhos pequenos, me peguei nesse raciocínio.
Olhei a infância deles como bem melhor que a minha. Foram desejados, amados e escutados em suas diferenças. Tiveram um grande pai, coisa que não tive. Tiveram mais condições de esteio emocional e estrutural, até mesmo para sofrer.

Me lembro de quando fomos levá-los à Disney e eu chorava duplamente. Pela criança/adulto que ia ali na sua primeira vez, uma realidade impossível para mim, criança, e pela emoção de vê-los nessa experiência. Lembro-me de criança que eu era louca por parques de diversão.

Os pais tentam que seus filhos tenham condições melhores de vida. Como se quiséssemos que eles tivessem “um infantil” melhor.

Sobre a infância deles temos alguma autoria. Mas sobre o infantil não sabemos.
Sobre a infância, podemos prover as condições matérias e familiares que sustentam suas primeiras incursões na vida. Suas primeiras perguntas.

Sobre o infantil, é uma incógnita como cada um vai acolher (ler e sentir) o berço em que nasceu. Que lembranças ou memórias vão desenhar no psiquismo essa experiência.
O infantil é isso que resiste ao tempo.

Porque o tempo, no caso do infantil, não é o tempo do calendário. Ele parece estar sempre aí, presente, nos constituindo, nos movendo, nos fazendo existir.

São as dobras do tempo infantil de cada um que nos revisitam todo o tempo.

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