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Por que empresas estão usando experiências coletivas para fortalecer saúde mental e pertencimento em tempos de NR-1

Diretora de Gente e Gestão da Studio Z. Com mais de 25 anos de atuação em Recursos Humanos, desenvolve estratégias voltadas à cultura organizacional, liderança, desenvolvimento de pessoas e fortalecimento de ambientes de trabalho saudáveis e sustentáveis.

Por Cristiane da Silva Santos
Durante muitos anos, a discussão sobre saúde mental nas empresas esteve concentrada em um momento específico: quando o problema já havia se instalado. O foco recaía sobre afastamentos, burnout, ansiedade, estresse e esgotamento, quase sempre a partir da pergunta de como lidar com as consequências.

Agora, com a ampliação das discussões sobre riscos psicossociais e a entrada do tema na agenda das lideranças, surge uma oportunidade importante: olhar para a prevenção. A pergunta deixa de ser apenas como apoiar quem está sofrendo e passa a incluir outra reflexão. O que as organizações podem fazer para criar ambientes que favoreçam saúde, pertencimento e relações mais saudáveis antes que o adoecimento aconteça?

Esse debate ganha ainda mais relevância em um contexto em que a solidão e o isolamento passaram a ser tratados como desafios globais. Em 2023, o Surgeon General dos Estados Unidos publicou um relatório classificando a solidão como uma questão de saúde pública. O documento alerta para os impactos da desconexão social sobre a saúde física, mental e emocional das pessoas.

O tema também chegou ao mundo corporativo. Os números ajudam a explicar por que o pertencimento deixou de ser um assunto restrito ao RH. Estudos da Deloitte indicam que colaboradores que experimentam um forte senso de pertencimento apresentam melhor desempenho, menor intenção de desligamento e menos afastamentos relacionados à saúde. A Gallup, por sua vez, mostra que vínculos positivos no ambiente de trabalho estão associados a níveis mais elevados de engajamento e permanência nas organizações.

Esses dados ajudam a explicar um movimento que vem ganhando força em empresas de diferentes setores. Experiências coletivas, atividades colaborativas, programas de integração, ações de voluntariado, iniciativas ao ar livre e momentos de convivência passaram a ocupar um espaço cada vez mais estratégico dentro das organizações.

Não porque substituam políticas estruturadas de saúde mental. Mas porque ajudam a fortalecer algo que muitas vezes é negligenciado: a qualidade das relações humanas.

Na minha experiência, empresas são construídas por processos, indicadores e metas. Mas são sustentadas por relações. São elas que determinam a qualidade da colaboração, a velocidade das decisões, a capacidade de enfrentar momentos difíceis e o nível de confiança que existe dentro das equipes.

É difícil falar de segurança psicológica quando as pessoas não se conhecem, assim como construir confiança quando não existem espaços para interação. Da mesma forma, fortalecer uma cultura organizacional se torna um desafio quando cada profissional vive sua rotina de forma isolada.

Por isso, vejo com muito interesse o crescimento de iniciativas que criam oportunidades reais de convivência. Pode ser uma caminhada em grupo, uma ação de voluntariado, um projeto colaborativo ou qualquer experiência capaz de reunir pessoas fora da lógica tradicional das reuniões e dos organogramas.

À primeira vista, essas ações podem parecer simples. Mas frequentemente criam algo muito valioso: oportunidades para que as pessoas se encontrem além dos cargos, das metas e das estruturas formais. E quando isso acontece, surgem conversas diferentes, mais empatia, mais confiança e um senso de pertencimento que dificilmente se constrói apenas por meio de processos.

Nenhuma dessas características aparece diretamente em um relatório financeiro. Ainda assim, todas influenciam a capacidade de uma organização enfrentar desafios, atravessar mudanças e sustentar resultados ao longo do tempo.

A chegada dos riscos psicossociais à agenda corporativa representa um avanço importante. No entanto, acredito que o maior desafio não está apenas em cumprir uma norma. Está em compreender que saúde mental não é um tema isolado. Ela é resultado da cultura que construímos, da forma como lideramos, das relações que estimulamos e dos ambientes que criamos todos os dias.

Nos próximos anos, acredito que as empresas mais preparadas não serão necessariamente aquelas com mais ferramentas, mais processos ou mais tecnologia. Serão aquelas capazes de construir ambientes onde as pessoas encontrem confiança, propósito e relações consistentes.

Porque resultados sustentáveis continuam sendo produzidos por pessoas. E as pessoas funcionam melhor quando se sentem conectadas umas às outras.

 

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