A polilaminina, molécula experimental estudada como estratégia para estimular a regeneração do sistema nervoso central, ganhou repercussão nacional após pacientes relatarem possíveis melhora clínica, retorno de sensibilidade e movimentos voluntários semanas após a aplicação. A pesquisa está sendo desenvolvida por uma equipe da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), liderada pela pesquisadora Tatiana Sampaio.
A advogada e bióloga especialista em Fisiologia Humana e Bioquímica e professora de Biomedicina e Enfermagem do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Lélia Leoi Romeiro, explica que a regeneração do sistema nervoso central é um dos maiores desafios da medicina, já que há poucas alternativas terapêuticas eficazes para pessoas com lesões medulares.
Atualmente, os estudos com a substância são desenvolvidos no Brasil e estão em fase de avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a especialista, embora o potencial científico seja relevante, a análise precisa seguir critérios técnicos rigorosos.
“A polilaminina é promissora porque tenta reproduzir, de forma organizada, o ambiente necessário para que as células nervosas voltem a crescer. No entanto, segurança e eficácia precisam ser confirmadas em estudos clínicos amplos e controlados”, afirma.
O acesso à polilaminina pode acontecer por três caminhos: participação em estudo clínico autorizado, uso compassivo ou por meio de decisão judicial. Em janeiro, a Anvisa autorizou um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do medicamento em cinco pacientes com lesão aguda completa da medula torácica. Nesta etapa, o foco é acompanhar possíveis efeitos adversos e verificar a segurança da substância. A análise de eficácia terapêutica está prevista para a fase 2 do estudo.

Confira seis curiosidades sobre a polilaminina
1. O que é a polilaminina?
A polilaminina é derivada da laminina, proteína presente no organismo que ajuda na sustentação e organização dos tecidos. A proposta da pesquisa é utilizá-la como um “andaime biológico”, oferecendo suporte para os neurônios lesionados voltarem a crescer e restabelecer conexões.
“A regeneração neural é extremamente complexa. Qualquer molécula que demonstre potencial em estimular a reconexão de neurônios ou a recuperação funcional já possui relevância científica imediata”, explica a professora do CEUB.
2. Por que o tema chama tanta atenção?
Do ponto de vista biomédico, a possibilidade de regenerar fibras nervosas danificadas representa um avanço significativo. Isso porque, como explica Lélia Romeiro, lesões medulares e danos neurológicos impactam profundamente a qualidade de vida e são uma área que ainda dispõe de recursos terapêuticos limitados.
Além disso, o interesse público cresce à medida que relatos individuais ganham visibilidade. No entanto, a especialista faz um alerta.
“Estudos iniciais indicam que a substância pode favorecer o crescimento neuronal. No entanto, resultados preliminares, especialmente relatos individuais, não são suficientes para comprovar eficácia clínica definitiva”, destaca.
3. O que ainda precisa ser comprovado?
Para que um medicamento seja aprovado no Brasil, a Anvisa exige documentação técnica detalhada, dados estatísticos robustos e comprovação de boas práticas de fabricação e biossegurança.
“Até que essas etapas sejam concluídas e analisadas por especialistas independentes, a polilaminina segue como uma substância em investigação”.
Nesse sentido, a bióloga reforça que o caminho entre resultados promissores em laboratório e a aplicação clínica é longo.
“Muitas moléculas apresentam excelente desempenho em modelos experimentais, mas podem enfrentar dificuldades quando testadas em humanos. Em alguns casos, a eficácia observada inicialmente não se confirma; em outros, surgem efeitos adversos inesperados”, explica.
4. Expectativa e responsabilidade científica
A repercussão nas redes sociais ampliou a expectativa de pacientes e familiares. Por outro lado, especialistas alertam para a importância de manter a responsabilidade científica e o rigor metodológico.
“Criar expectativa é natural quando falamos de algo que pode impactar profundamente a qualidade de vida. Mas a ciência exige etapas rigorosas e nem todo candidato a medicamento chega ao registro final”, esclarece a professora.
5. Como funciona a questão da patente?
Outro ponto envolve a proteção internacional da tecnologia. No Brasil, o registro de patentes é um direito obtido por meio de um processo administrativo jurídico, conduzido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Como a validade é territorial, é necessário manter a proteção em cada país estratégico. Caso contrário, a tecnologia pode cair em domínio público no exterior, permitindo exploração comercial sem pagamento de royalties. “A patente não é apenas um instrumento econômico. Ela impulsiona o desenvolvimento científico e pode garantir retorno financeiro para novas pesquisas”, explica Lélia.
6. O que representa a pesquisa neste momento?
Independentemente do desfecho clínico, a pesquisa já contribui para o fortalecimento da ciência brasileira. Além disso, amplia o debate sobre terapias regenerativas e estimula novos estudos na área.
A polilaminina, neste momento, não representa uma solução definitiva, mas uma possibilidade científica em construção.
“Na saúde, só se torna consenso aquilo que é comprovado com segurança e resultados consistentes. Enquanto os estudos avançam, a orientação é acompanhar o tema com interesse e cautela”, destaca a bióloga do CEUB.
