As medicações injetáveis transformaram o tratamento da obesidade e passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasileiros. No entanto, o debate ainda se concentra na perda de peso e nos efeitos físicos. Enquanto isso, especialistas alertam para um tema que merece a mesma atenção: a saúde mental durante todo o processo de emagrecimento.
O início do tratamento pode provocar indisposição, náuseas, redução da energia e outros desconfortos. Esses sintomas costumam surgir durante a adaptação do organismo à medicação. Na maioria dos casos, porém, eles não indicam um transtorno psicológico. Ainda assim, médicos e psicólogos recomendam acompanhamento multiprofissional desde o início do tratamento.

Nem todo desânimo significa depressão
De acordo com a psicóloga Andrea Levy, cofundadora da ONG Obesidade Brasil, muitos pacientes relatam mudanças no humor nas primeiras semanas de uso das medicações. Entretanto, esse cenário nem sempre representa um problema de saúde mental.
“Nem todo desânimo significa depressão. Os efeitos colaterais iniciais podem causar desconforto e impactar o humor temporariamente, mas isso não quer dizer que o paciente tenha desenvolvido um transtorno mental. É importante que a avaliação seja individualizada para diferenciar uma situação da outra.”
Segundo a especialista, os efeitos gastrointestinais e a adaptação do organismo podem reduzir temporariamente o bem-estar e a disposição. Por isso, profissionais de saúde precisam avaliar cada paciente de forma individual antes de relacionar esses sintomas a um transtorno mental.
Por outro lado, tristeza intensa, isolamento, perda de interesse pelas atividades diárias e sofrimento emocional persistente exigem atenção. Nesses casos, a avaliação de um psicólogo ou psiquiatra ajuda a identificar a causa dos sintomas e definir o tratamento mais adequado.
Emagrecer não resolve todos os desafios emocionais
Outro ponto destacado pelos especialistas envolve as expectativas criadas em torno das medicações. Muitas pessoas acreditam que a perda de peso resolverá automaticamente problemas relacionados à autoestima, à ansiedade ou à compulsão alimentar.
No entanto, a realidade costuma ser diferente. Embora o emagrecimento contribua para melhorar diversos aspectos da qualidade de vida, ele não elimina sozinho questões emocionais construídas ao longo dos anos.
“O emagrecimento pode melhorar diversos aspectos da qualidade de vida, mas não resolve automaticamente questões como ansiedade, autoestima ou compulsão alimentar. O cuidado psicológico continua sendo fundamental.”
Andrea Levy explica que o acompanhamento psicológico ajuda o paciente a compreender sua relação com a alimentação, fortalecer a autoestima e desenvolver estratégias para lidar com as mudanças físicas e emocionais que surgem durante o tratamento.
Tratamento vai muito além da medicação
Para a médica nutróloga Dra. Andrea Pereira, presidente da ONG Obesidade Brasil, a obesidade deve ser tratada como uma doença crônica e multifatorial. Por esse motivo, o tratamento não depende apenas da medicação.
“As medicações representam um grande avanço, mas fazem parte de um cuidado mais amplo, que inclui mudanças de hábitos e acompanhamento multiprofissional. Em muitos casos, o uso poderá ser prolongado, assim como acontece no tratamento de outras doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Isso não significa dependência, mas controle adequado da doença.”
Segundo a nutróloga, uma alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física, o acompanhamento nutricional e o suporte psicológico formam a base do tratamento. Além disso, o monitoramento médico permite ajustar a estratégia sempre que necessário.
A especialista também lembra que o uso prolongado desses medicamentos pode fazer parte do controle da obesidade. O mesmo acontece com doenças crônicas como hipertensão e diabetes. Portanto, essa continuidade não caracteriza dependência, mas sim uma forma de manter a doença sob controle.

Preconceito ainda prejudica pacientes
Além dos desafios clínicos, pessoas com obesidade ainda enfrentam preconceitos relacionados ao uso das medicações injetáveis. Muitas vezes, parte da sociedade encara esses medicamentos como um “atalho” para emagrecer, ignorando que a obesidade é uma doença reconhecida pelas principais entidades médicas.
Segundo o cirurgião bariátrico Dr. Carlos Schiavon, também cofundador da ONG Obesidade Brasil, esse julgamento provoca impactos importantes na saúde emocional dos pacientes.
“Ainda existe muito julgamento em relação ao uso dessas medicações, como se fossem um atalho para emagrecer. Esse estigma gera culpa, vergonha e pode até comprometer a adesão ao tratamento. A obesidade é uma doença e deve ser tratada com base em evidências científicas, sem estigmas.”
Para os especialistas, esse preconceito aumenta sentimentos de culpa, vergonha e isolamento. Como consequência, algumas pessoas interrompem o tratamento ou deixam de procurar ajuda especializada por medo de críticas.
Saúde mental fortalece os resultados do tratamento
Especialistas reforçam que o sucesso das medicações injetáveis não depende apenas da perda de peso. O equilíbrio emocional também influencia diretamente a adesão ao tratamento e a manutenção dos resultados.
Por isso, médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos desempenham papéis complementares durante o processo de emagrecimento. Essa atuação integrada permite cuidar não apenas do peso corporal, mas também da autoestima, da relação com a alimentação e da qualidade de vida.
“O sucesso do tratamento depende de uma abordagem integrada. Não basta olhar apenas para a balança. É preciso cuidar também das expectativas, da autoestima, da relação com a alimentação e da saúde mental para que os resultados sejam sustentáveis e tragam qualidade de vida”, conclui Andrea Levy.

Cuidado integral aumenta as chances de sucesso
Os especialistas reforçam que as medicações injetáveis representam um avanço importante no tratamento da obesidade, mas não funcionam de forma isolada. Para alcançar resultados duradouros, é necessário adotar uma abordagem que considere tanto a saúde física quanto a emocional.
Além do acompanhamento médico, o suporte de psicólogos, nutricionistas e outros profissionais ajuda o paciente a construir hábitos saudáveis, lidar com expectativas e enfrentar os desafios que podem surgir durante o processo de emagrecimento.
Ao mesmo tempo, reconhecer que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial contribui para reduzir estigmas e fortalecer a adesão ao tratamento. Dessa forma, o cuidado deixa de focar apenas na balança e passa a priorizar também a qualidade de vida, o bem-estar emocional e a manutenção dos resultados ao longo do tempo.
“O sucesso do tratamento depende de uma abordagem integrada. Não basta olhar apenas para a balança. É preciso cuidar também das expectativas, da autoestima, da relação com a alimentação e da saúde mental para que os resultados sejam sustentáveis e tragam qualidade de vida”, conclui a psicóloga Andrea Levy.

