Por Fabiane Pita
Falar sobre saúde íntima ainda é um desafio para muitos homens. Dificuldades de ereção, alterações na ejaculação, perda involuntária de urina e dúvidas sobre o prazer sexual estão entre os assuntos que nem sempre são abordados durante a consulta médica. Por trás desse silêncio, podem estar o constrangimento, o medo de um diagnóstico e a dificuldade de lidar com mudanças no próprio corpo.
No Novembro Azul, campanha de conscientização sobre a saúde masculina, a atenção costuma se concentrar no câncer de próstata. Mas os cuidados vão além dos exames e do diagnóstico da doença. Envolvem também a saúde sexual e urinária, a qualidade de vida e os possíveis efeitos dos tratamentos, questões que merecem ser discutidas sem preconceitos.
Nesta entrevista ao Portal ComSaúde, o urologista e uro-oncologista Dr. Bruno Benigno esclarece dúvidas que muitos homens têm dificuldade de levar ao consultório.
O especialista explica quando as alterações na ereção merecem investigação, o que pode mudar na vida sexual após o tratamento do câncer de próstata e quais são as possibilidades de recuperação. Também aborda os riscos da automedicação, a importância do diálogo nos relacionamentos e a necessidade de cuidar da saúde durante todo o ano.
Confira a entrevista completa:
COMSAÚDE – Quais são as perguntas que os homens mais hesitam em fazer ao urologista? O que costuma estar por trás desse silêncio?
Bruno Benigno – As perguntas mais guardadas são quase sempre sobre sexualidade e controle urinário. “É normal a ereção não ser mais como antes?”, “Vou continuar tendo vida sexual depois do tratamento?”, “Esse escape de urina tem solução?”, “Ejacular mais rápido ou com menos volume é sinal de doença?”. Muitas vezes, o paciente só faz a pergunta quando já está com a mão na maçaneta, no fim da consulta.
Por trás desse silêncio, existe uma mistura de vergonha, medo e uma ideia antiga de masculinidade. Muitos homens associam a função sexual à própria identidade e entendem qualquer dificuldade como fracasso pessoal. Há também o medo da resposta: perguntar sobre uma mudança no corpo pode significar ouvir algo que eles preferem não ouvir.
O que eu procuro mostrar no consultório é que esses temas fazem parte da avaliação médica, assim como a pressão arterial ou o colesterol. Muitas dessas queixas têm explicação e tratamento. E algumas delas são justamente o primeiro sinal de outro problema de saúde que precisa ser investigado.
COMSAÚDE – Muitos homens associam a ida ao urologista ao exame de próstata. Essa percepção pode fazer com que deixem de procurar ajuda para outros problemas de saúde?
Bruno Benigno – Pode, e isso acontece com frequência. O exame de próstata é apenas uma parte do trabalho do urologista. Somos os especialistas que cuidam do aparelho urinário de homens e mulheres e da saúde sexual e reprodutiva masculina, em todas as idades.
Quando o homem reduz a consulta ao “exame do toque”, ele tende a adiar a procura por outras queixas. Alguns exemplos que costumam chegar tarde ao consultório:
• Sangue na urina, que nunca deve ser considerado normal e pode ser sinal de tumor de bexiga ou de rim;
• Nódulo ou aumento de volume no testículo, especialmente em homens jovens, entre 15 e 40 anos;
• Jato urinário fraco, urgência ou necessidade de levantar várias vezes à noite para urinar;
• Cálculo renal, infecção urinária de repetição, dor lombar;
• Disfunção erétil, queda da libido, ejaculação precoce, infertilidade.
Vale lembrar também que, hoje, o rastreamento do câncer de próstata não se resume ao toque. Ele combina o PSA, o exame físico e, quando necessário, a ressonância magnética. A consulta é uma conversa sobre a saúde do homem como um todo.
COMSAÚDE – A dificuldade de ereção ainda é motivo de constrangimento? Quando ela deixa de ser uma situação ocasional e passa a merecer investigação médica?
Bruno Benigno- Ainda é, embora menos do que há alguns anos. Muitos homens convivem com o problema durante meses ou anos antes de falar sobre ele, e alguns só tocam no assunto porque a parceira ou o parceiro insistiu.
É importante separar as situações. Uma falha ocasional, em um dia de cansaço ou estresse, após o consumo excessivo de álcool ou em um momento de ansiedade, é comum e não significa doença. A situação merece avaliação médica quando:
• A dificuldade se repete na maior parte das tentativas e persiste por cerca de três meses ou mais;
• Vem piorando de forma progressiva;
• Aparece junto com queda do desejo sexual, cansaço ou alterações de humor, o que pode indicar alteração hormonal;
• Surge com curvatura, dor ou nódulo no pênis;
• Ocorre em homens com diabetes, hipertensão, colesterol alto, obesidade ou tabagismo.
Há um ponto que eu sempre faço questão de destacar. A ereção depende de vasos sanguíneos saudáveis, e as artérias do pênis são mais finas que as do coração. Por isso, a disfunção erétil pode aparecer alguns anos antes de um infarto ou de outro evento cardiovascular. Investigar a ereção é, muitas vezes, investigar o coração.
COMSAÚDE – É possível ter prazer e orgasmo mesmo quando o homem enfrenta dificuldades de ereção?
Bruno Benigno – Sim, e essa é uma das informações que mais aliviam os pacientes. Desejo, ereção, ejaculação e orgasmo são fenômenos diferentes, controlados por mecanismos diferentes. Eles costumam acontecer juntos, mas um pode estar alterado enquanto os outros continuam funcionando.
O orgasmo depende principalmente da sensibilidade e de vias nervosas que, na maioria das vezes, continuam preservadas mesmo quando a ereção está comprometida. Na prática, muitos homens conseguem ter orgasmo com o pênis parcialmente ou até totalmente flácido. Isso vale também para boa parte dos pacientes depois do tratamento do câncer de próstata.
Entender isso muda a forma como o casal encara a intimidade. A vida sexual não se resume à penetração. Toque, carinho e outras formas de estímulo continuam dando prazer aos dois. E, enquanto isso, a dificuldade de ereção pode e deve ser tratada: hoje existem medicamentos orais, injeções aplicadas no pênis, dispositivos a vácuo e, em casos selecionados, a prótese peniana.
COMSAÚDE – O medo de ficar impotente após o tratamento do câncer de próstata tem fundamento? Quais fatores determinam os possíveis efeitos sobre a vida sexual?
Bruno Benigno – O medo tem fundamento, mas precisa ser colocado em perspectiva. A disfunção erétil é um efeito possível dos tratamentos, não uma consequência obrigatória. E o risco não é igual para todos: ele varia conforme o tratamento escolhido e as condições de cada paciente.
Os principais fatores que influenciam o resultado são:
• A função sexual antes do tratamento: quem tinha boas ereções antes tem mais chance de recuperá-las;
• A idade e a saúde geral: diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade e tabagismo pesam contra;
• As características do tumor: em tumores mais localizados, é possível preservar os feixes de nervos responsáveis pela ereção, que passam colados à próstata; em tumores mais agressivos, a prioridade é a cura do câncer;
• O tipo de tratamento: na cirurgia, a recuperação costuma ser gradual, ao longo de um a dois anos; na radioterapia, a perda tende a aparecer de forma lenta, ao longo dos meses e anos; o bloqueio hormonal reduz o desejo e a ereção enquanto é usado; na vigilância ativa e, em casos selecionados, na terapia focal, o impacto tende a ser menor;
• A experiência da equipe e o acompanhamento após o tratamento.
Um ponto que considero essencial é a reabilitação sexual. Ela deve começar cedo e envolve medicamentos, outras terapias e acompanhamento regular. Esse cuidado faz diferença na recuperação. E, quando a ereção espontânea não retorna, há tratamentos eficazes, incluindo a prótese peniana, com alto índice de satisfação.
O mais importante é que essa conversa aconteça antes da decisão sobre o tratamento. O paciente precisa conhecer seus riscos individuais, e não números genéricos.
COMSAÚDE – Depois de uma cirurgia para retirada da próstata, o que pode mudar na ejaculação, no orgasmo e na fertilidade? Essas mudanças são necessariamente definitivas?
Bruno Benigno- Na prostatectomia radical, retiramos a próstata e as vesículas seminais, que produzem a maior parte do líquido da ejaculação, e os canais que trazem os espermatozoides dos testículos são interrompidos. Por isso, algumas mudanças são esperadas, e é importante separar o que é permanente do que pode melhorar.
O que é definitivo:
• Ejaculação: o homem deixa de eliminar sêmen. O orgasmo continua existindo, mas passa a ser um orgasmo “seco”;
• Fertilidade natural: sem a ejaculação, não é mais possível ter filhos pela via natural. Os testículos, porém, continuam produzindo espermatozoides e hormônio. Quem deseja ter filhos pode congelar sêmen antes da cirurgia ou, depois dela, recorrer à retirada de espermatozoides diretamente do testículo, associada à fertilização in vitro. Por isso, esse tema precisa ser discutido antes da operação.
O que pode mudar e, muitas vezes, melhora com o tempo:
• O orgasmo: a maioria dos homens continua tendo orgasmo, embora alguns percebam a sensação como diferente, mais curta ou menos intensa;
• Escape de urina no orgasmo: pode acontecer nos primeiros meses e costuma diminuir com a recuperação da continência e com a fisioterapia do assoalho pélvico;
• Dor no orgasmo: é incomum e geralmente tem tratamento;
• Ereção: como comentei, a recuperação é gradual e pode levar até dois anos.
Qualquer alteração que incomode deve ser relatada no retorno. Quase todas têm alguma forma de manejo.
COMSAÚDE – A perda involuntária de urina também pode ocorrer após o tratamento do câncer de próstata. Por que esse assunto merece ser discutido com mais naturalidade?
Bruno Benigno – Porque o silêncio sobre a incontinência isola o homem. Muitos deixam de sair, de viajar, de praticar esporte ou de encontrar amigos por medo de um escape. Alguns sofrem calados durante anos, sem saber que existe tratamento.
Após a cirurgia, é comum haver perda de urina nas primeiras semanas depois da retirada da sonda, principalmente ao tossir, espirrar, levantar peso ou mudar de posição. Na grande maioria dos casos, o controle volta progressivamente ao longo dos primeiros meses. Em centros com experiência, cerca de nove em cada dez homens estão continentes ou usam, no máximo, um absorvente de segurança ao fim de um ano. A fisioterapia do assoalho pélvico ajuda a acelerar essa recuperação.
A perda merece reavaliação quando:
• Não melhora ao longo dos meses ou volta a piorar;
• Vem acompanhada de jato fraco, dor, ardência ou sangue na urina;
• Continua atrapalhando a rotina depois de seis a doze meses.
Para os casos persistentes, existem soluções eficazes, como o sling masculino e o esfíncter urinário artificial. Falar sobre isso com naturalidade, de preferência antes do tratamento, prepara o paciente, reduz a ansiedade e faz com que ele procure ajuda no momento certo.
COMSAÚDE – Alguns homens recorrem a medicamentos para melhorar o desempenho sexual sem passar por uma avaliação médica. Quais riscos essa prática pode trazer?
Bruno Benigno- Os medicamentos para disfunção erétil são seguros e eficazes quando bem indicados. O problema é o uso sem avaliação, que traz riscos em várias frentes:
• Interações perigosas: associados a nitratos, usados por pacientes cardíacos, esses remédios podem provocar queda grave da pressão arterial. Com alguns medicamentos para pressão e para próstata, também exigem cuidado;
• Doenças que passam despercebidas: a disfunção erétil pode ser o primeiro sinal de diabetes, doença cardiovascular ou queda de testosterona. Quem trata apenas o sintoma perde a chance de diagnosticar a causa;
• Produtos falsificados ou adulterados: comprimidos sem procedência e suplementos vendidos como “naturais” podem conter doses desconhecidas de medicamentos ou outras substâncias;
• Ereção prolongada e dolorosa: chamada de priapismo, é mais associada a injeções e a combinações inadequadas. Uma ereção que dura mais de quatro horas é uma emergência e exige atendimento imediato;
• Uso de testosterona e anabolizantes sem indicação: pode causar infertilidade, alterar o sangue e trazer riscos cardiovasculares.
Há ainda o risco psicológico de criar dependência do comprimido em homens que, às vezes, têm uma causa emocional ou relacionada à ansiedade para a dificuldade. Uma consulta resolve a maior parte dessas questões e permite um tratamento seguro e individualizado.
COMSAÚDE – Quando um homem percebe mudanças na vida sexual, como conversar sobre isso com a parceira ou o parceiro? O apoio no relacionamento pode fazer diferença na adaptação a essas mudanças?
Bruno Benigno – Faz muita diferença. A dificuldade sexual raramente afeta só o homem; ela afeta o casal. Quando ninguém fala sobre o assunto, cada um cria sua própria interpretação. Ele sente vergonha e passa a evitar a intimidade. A parceira ou o parceiro pode achar que ele perdeu o interesse ou que existe outro problema na relação.
Algumas orientações que costumo dar no consultório:
• Escolher um momento tranquilo, fora da cama, para conversar;
• Falar em primeira pessoa, sobre o que está sentindo, sem culpar a si mesmo nem o outro;
• Deixar claro que a mudança não tem relação com falta de desejo ou de afeto;
• Trazer a parceira ou o parceiro para a consulta, quando o casal se sentir à vontade;
• Ampliar a ideia de intimidade, que vai além da penetração.
No contexto do câncer de próstata, o apoio no relacionamento aumenta a adesão à reabilitação, reduz a ansiedade de desempenho e torna a recuperação mais leve. Em alguns casos, o acompanhamento com psicólogo ou terapeuta sexual, individual ou de casal, complementa muito bem o tratamento médico.
COMSAÚDE – No Novembro Azul, fala-se muito sobre exames e prevenção. Mas o que o senhor considera que ainda falta dizer aos homens sobre o cuidado com a própria saúde?
Bruno Benigno – Falta dizer que saúde não é um exame feito uma vez por ano, em novembro. É um acompanhamento contínuo, com um médico que conhece a história do paciente.
O rastreamento do câncer de próstata continua sendo importante. Em geral, a conversa sobre o PSA começa aos 50 anos, ou aos 45 para homens negros e para quem tem pai ou irmão com a doença. Mas também precisamos dizer que nem todo PSA alterado é câncer, que hoje a ressonância magnética ajuda a evitar biópsias desnecessárias e que nem todo câncer de próstata precisa ser tratado de imediato. Muitos tumores de baixo risco podem ser apenas acompanhados de perto. Isso reduz o medo que afasta tantos homens do consultório.
Falta também ampliar o olhar. A saúde do homem inclui o coração, a pressão, o diabetes, o peso, o sono, o consumo de álcool e cigarro e a saúde mental. Inclui a vida sexual e urinária, que são indicadores importantes de bem-estar. E inclui outros tumores urológicos, como os de rim, bexiga e testículo, que têm sinais que não devem ser ignorados.
Para encerrar, deixo uma mensagem simples.
O Novembro Azul é um ótimo lembrete, mas o cuidado precisa durar o ano inteiro. Mudanças na ereção, na urina, no desejo ou na disposição não devem ser escondidas nem normalizadas. Elas merecem uma conversa franca com o médico. Homens que fazem acompanhamento regular descobrem problemas mais cedo, tratam com mais opções e vivem com mais qualidade. Cuidar da própria saúde não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidar também de quem está ao nosso lado.

