O Brasil vive um momento crítico na área da saúde mental. A decisão do Ministério da Saúde de ofertar um curso de 20 horas para capacitar equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) no manejo de casos leves de depressão e ansiedade evidencia a pressão crescente sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
Ao mesmo tempo, o avanço das exigências da NR-1, que passa a cobrar das empresas o mapeamento e a mitigação de riscos psicossociais, amplia o debate para além do setor público e acende o alerta no ambiente corporativo.
Para o psicanalista e especialista em neurociência aplicada Mario Lopes, o cenário atual vai muito além de um aumento de diagnósticos. Ele afirma que o país enfrenta uma verdadeira “pandemia de exaustão”, com impactos diretos na produtividade, nas relações de trabalho e na sustentabilidade do sistema de saúde.
A seguir, confira a entrevista na íntegra com o especialista.
COMSAÚDE: A recente decisão do Ministério da Saúde de implementar um curso de 20 horas para capacitar equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) no manejo de casos leves de depressão e ansiedade indica o quê, na prática?
Mario Lopes – Representa, na prática, o reconhecimento oficial de um estado de emergência nacional em saúde mental.
COMSAÚDE: O Brasil enfrenta apenas um aumento pontual de diagnósticos?
Mario Lopes – O Brasil não enfrenta apenas um aumento pontual de diagnósticos, mas vive uma verdadeira “pandemia de exaustão”, que exige intervenção imediata tanto do setor público quanto do privado.
COMSAÚDE: O que os dados da Organização Mundial da Saúde revelam sobre o cenário brasileiro?
Mario Lopes – Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontavam o Brasil como o país mais ansioso do mundo, com cerca de 9,3% da população, mais de 18,6 milhões de pessoas, sofrendo de transtornos de ansiedade. O país também lidera os índices de depressão na América Latina, com 546 mil afastamentos do trabalho. As informações são referentes aos anos de 2023 e 2025, respectivamente.
COMSAÚDE: O que significa, na sua avaliação, o fato de o SUS precisar capacitar profissionais da Atenção Primária para casos considerados leves?
Mario Lopes – O fato de o SUS precisar capacitar médicos de família e enfermeiros para o que chamam de ‘casos leves’ prova que o sistema especializado colapsou. Mas não existe ‘ansiedade leve’ para quem está perdendo o sono e a produtividade. O que o governo está fazendo é tentar conter a base de uma pirâmide que está prestes a ruir.
COMSAÚDE: Como a crise em saúde mental impactará as empresas?
Mario Lopes – Essa crise tem data para impactar diretamente as empresas. Em maio de 2026, entram em vigor as penalidades pelo descumprimento da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que exige o levantamento e a mitigação de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
COMSAÚDE: O que muda para os gestores com esse novo cenário regulatório?
Mario Lopes – Uma reportagem publicada recentemente na Folha de S. Paulo é o validador que faltava para os gestores. A saúde mental deixou de ser ‘benefício e passou a ser compliance e sobrevivência operacional. Quem não cuidar da saúde mental dos colaboradores agora terá de lidar, amanhã, com passivos trabalhistas e altos índices de absenteísmo.
COMSAÚDE: Qual é a saída para evitar que o cenário evolua para algo ainda mais grave?
Mario Lopes – A prevenção é o único caminho para impedir que o cenário evolua para uma pandemia incontrolável.
COMSAÚDE: Como essa prevenção pode ser colocada em prática?
Mario Lopes – A solução passa pela Reconexão. Por meio da iniciativa Reconexão Essencial, promovo a integração entre neurociência, fisiologia e práticas de regulação emocional, com foco em interromper estados de hipervigilância antes que se transformem em patologias graves.
COMSAÚDE: Qual é a mensagem final diante desse cenário?
Mario Lopes – A saúde mental precisa ser cuidada em todos os ambientes: no trabalho, na família e na vida pessoal. O treinamento do SUS é um passo importante, mas a responsabilidade individual e corporativa de buscar métodos que regulem o sistema nervoso é o que pode evitar o colapso total da nossa força de trabalho.