O colesterol alto continua sendo um dos principais fatores de risco para infarto e acidente vascular cerebral (AVC), mas a ciência tem mostrado que olhar apenas para o LDL, conhecido popularmente como “colesterol ruim”, pode não ser suficiente para avaliar o verdadeiro risco cardiovascular.
Um marcador ainda pouco conhecido pela população, a lipoproteína(a), ou Lp(a), vem ganhando destaque nas diretrizes internacionais por estar associada a um aumento importante do risco de doenças cardiovasculares, mesmo em pessoas com hábitos saudáveis e níveis normais de colesterol.
Nesta entrevista ao Portal ComSaúde Bahia, o cardiologista Dr. Heron Bomfim explica, de forma didática, o que é a Lp(a), por que ela é considerada um fator de risco independente, quem deve fazer o exame, qual a influência da genética e por que controlar apenas o LDL nem sempre é suficiente para prevenir infartos, AVC e outras doenças cardiovasculares.
O especialista também comenta o que já se sabe sobre os tratamentos disponíveis e deixa orientações importantes para a população no Dia Nacional do Colesterol.
Confira a entrevista completa:
COMSAÚDE — Quando se fala em colesterol, a maioria das pessoas pensa apenas no LDL, o chamado “colesterol ruim”. O que é a lipoproteína, ou Lp(a), e por que ela vem sendo considerada um importante fator de risco para doenças cardiovasculares?
Heron Bomfim — Eu gosto de explicar que, na verdade, nós não medimos colesterol. Nós medimos os transportadores de colesterol, que são as lipoproteínas. Quando falamos em LDL-colesterol, na realidade estamos falando da lipoproteína de baixa densidade, que transporta uma grande quantidade de colesterol.
A lipoproteína(a), ou Lp(a), é um tipo de lipoproteína muito semelhante ao LDL. Ela também carrega uma grande quantidade de colesterol e, além disso, transporta um tipo de gordura oxidada que faz muito mal ao organismo.
Ela possui um poder aterogênico muito maior que o próprio LDL, ou seja, tem uma capacidade maior de provocar a formação de placas de gordura nas artérias. Hoje sabemos que a Lp(a) não está relacionada apenas à aterosclerose. Ela também está associada à estenose da válvula aórtica e alguns estudos já demonstram uma relação com maior risco de insuficiência renal.
No passado, ela era considerada apenas um marcador de risco. Hoje sabemos que é um fator de risco independente para doenças cardiovasculares, estenose da válvula aórtica e insuficiência renal.
COMSAÚDE — A Lp(a) é determinada principalmente pela genética. Isso significa que uma pessoa pode ter alimentação saudável, praticar atividade física e, ainda assim, apresentar níveis elevados? Quem deve ficar mais atento?
Heron Bomfim — Sim. A pessoa pode praticar atividade física regularmente, alimentar-se muito bem, dormir bem e, ainda assim, apresentar níveis elevados de lipoproteína. Cerca de 20% da população possui Lp(a) elevada.
Como ela é determinada geneticamente, isso independe do estilo de vida.Quem deve ficar especialmente atento são pessoas com histórico familiar de doença arterial coronariana, ou seja, familiares que tiveram infarto, fizeram angioplastia ou cirurgia de revascularização do miocárdio.Também merece atenção quem apresentou doença cardiovascular de forma precoce, antes dos 55 anos de idade.
COMSAÚDE — Estudos mostram que níveis elevados de Lp(a) podem aumentar de forma importante o risco de infarto, AVC e estenose da válvula aórtica. Qual é o impacto desse marcador na saúde cardiovascular?
Heron Bomfim — Como ela possui um poder aterogênico maior que o próprio LDL, seu impacto na saúde cardiovascular é muito importante.
Ela favorece a formação de placas de gordura nas artérias e, por isso, aumenta o risco de infarto e AVC. Além disso, sabemos hoje que também participa do desenvolvimento da estenose da válvula aórtica. Mesmo pessoas com colesterol aparentemente normal podem apresentar risco cardiovascular elevado quando possuem níveis aumentados de Lp(a). Ela, sozinha, já eleva significativamente esse risco.
COMSAÚDE — A diretriz norte-americana de 2026 recomenda que a dosagem da Lp(a) seja feita pelo menos uma vez na vida. Por que essa orientação ganhou força e em quais situações esse exame se torna ainda mais importante?
Heron Bomfim — A recomendação existe porque a Lp(a) é um fator determinado geneticamente. Não é um exame que precisa ser repetido frequentemente, mas é importante conhecer esse dado pelo menos uma vez na vida. Sabemos que cerca de 20% da população apresenta níveis elevados dessa lipoproteína.
A dosagem se torna ainda mais importante em pessoas com histórico familiar de doença cardiovascular precoce, infarto, AVC, angioplastia ou cirurgia cardíaca.
Embora as diretrizes enfatizem esse exame principalmente em pacientes que já sofreram infarto ou AVC, o mais importante é identificar esse fator de risco antes que esses eventos aconteçam, para que possamos adotar medidas de prevenção e reduzir o risco cardiovascular.
COMSAÚDE — Muitas pessoas acreditam que, tomando estatina, estão protegidas de qualquer problema relacionado ao colesterol. Por que esse medicamento não reduz a Lp(a) e quais cuidados o paciente deve adotar quando apresenta níveis elevados dessa lipoproteína?
Heron Bomfim — A estatina atua reduzindo a produção de LDL pelo fígado.Já a produção da lipoproteína(a) é determinada geneticamente por um gene chamado LPA. É a expressão desse gene que define qual será o nível da Lp(a) no sangue. Por isso, a estatina não reduz a lipoproteína. Em alguns casos, inclusive, ela pode aumentar seus níveis. Quando encontramos pacientes com Lp(a) elevada, costumamos ser extremamente rigorosos no controle dos demais fatores de risco cardiovasculares.
COMSAÚDE — Ainda não existe um medicamento aprovado especificamente para reduzir a Lp(a). O que a medicina recomenda atualmente para diminuir o risco cardiovascular dessas pessoas? Há pesquisas promissoras em andamento?
Heron Bomfim — Atualmente ainda não existe um medicamento aprovado especificamente para reduzir a lipoproteína(a). Os medicamentos disponíveis hoje são os inibidores da PCSK9. No nosso meio já contamos com o evolocumabe e também com o inclisirana. O que ainda não sabemos é se a redução da Lp(a) obtida com esses medicamentos realmente se traduz em redução da mortalidade cardiovascular. Enquanto isso, a principal estratégia é controlar de maneira bastante rigorosa todos os demais fatores de risco cardiovascular.
COMSAÚDE — Qual é a principal mensagem que o senhor deixaria para a população neste Dia Nacional do Colesterol? Que sinais de alerta, histórico familiar ou situações devem motivar uma conversa com o cardiologista sobre a dosagem da lipoproteína?
Heron Bomfim — A principal mensagem que eu quero deixar é que o colesterol é muito importante, mas o LDL, sozinho, não define o risco cardiovascular. A doença arterial coronariana, o entupimento das artérias do coração e do cérebro, é uma doença multifatorial. Ela depende do colesterol, mas existem outros marcadores muito importantes, como a apolipoproteína B e a lipoproteína. É possível ter um LDL perfeitamente normal e, ainda assim, apresentar risco cardiovascular elevado.
Neste Dia Nacional do Colesterol, 8 de agosto, eu incentivo todas as pessoas a conversarem abertamente com seus médicos e solicitarem não apenas a dosagem do colesterol total, mas também da lipoproteína(a) e da apolipoproteína B, que permitem uma avaliação mais completa do risco cardiovascular. Se a Lp(a) estiver elevada, não é motivo para desespero. É um sinal de que será necessária uma estratégia mais cuidadosa para reduzir o risco cardiovascular.
