A perda da função renal impõe mudanças profundas à rotina de quem passa a depender da diálise para substituir parte do trabalho que os rins já não conseguem realizar. Além das horas dedicadas às sessões de tratamento, pacientes precisam conciliar os cuidados com a saúde e os deslocamentos até as clínicas com atividades como trabalho, estudo, lazer e viagens.
Para quem realiza hemodiálise, o tratamento costuma fazer parte da rotina três vezes por semana e não pode ser interrompido sem consequências potencialmente graves. Ao mesmo tempo, a experiência de cada paciente pode ser diferente, inclusive nas horas seguintes às sessões.
Nesta entrevista ao Portal ComSaúde Bahia, o nefrologista e intensivista André Luiz Pimentel, diretor médico da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplantes (ABCDT), explica de forma acessível o que acontece com o organismo durante a hemodiálise, as diferenças entre hemodiálise e diálise peritoneal e os motivos para a regularidade do tratamento.
O especialista também aborda os impactos da diálise na qualidade de vida, as dificuldades enfrentadas por pacientes que precisam percorrer longas distâncias para chegar às unidades de atendimento, a possibilidade de manter atividades cotidianas e os critérios relacionados ao transplante renal. Pimentel ainda chama a atenção para a prevenção e o acompanhamento da função renal, especialmente entre pessoas com hipertensão arterial e diabetes.
Confira a entrevista completa:
COMSAÚDE — Para quem nunca acompanhou esse tratamento de perto, o que acontece com o corpo durante uma sessão de hemodiálise?
André Luiz Pimentel — Quando a pessoa perde a função renal, ou seja, quando os rins deixam de funcionar adequadamente, há necessidade de substituir a função dos rins pela diálise. A diálise promove a limpeza do sangue, retirando toxinas e o excesso de água que os rins já não conseguem eliminar.
COMSAÚDE — Diálise e hemodiálise são a mesma coisa? Qual é a diferença entre hemodiálise e diálise peritoneal e em que situações cada modalidade pode ser indicada?
André Luiz Pimentel — Diálise é a filtração ou limpeza do sangue para a retirada de impurezas. Ela pode ser realizada diretamente por meio dos vasos sanguíneos, na hemodiálise, ou utilizando uma membrana localizada no abdômen, chamada peritônio, na diálise peritoneal. Essa é a principal diferença: na hemodiálise, o processo é realizado por meio do sangue; na diálise peritoneal, utiliza-se o peritônio, no abdômen.
COMSAÚDE — Por que uma pessoa precisa fazer hemodiálise, em geral, três vezes por semana? O que pode acontecer se as sessões não forem realizadas regularmente?
André Luiz Pimentel — A indicação de quatro horas de hemodiálise, três vezes por semana, foi estabelecida a partir de vários estudos científicos que demonstraram que, para a maioria dos pacientes com doença renal, essa dose de hemodiálise é suficiente para retirar as impurezas e controlar os sintomas. Se o paciente com doença renal deixa de realizar a diálise, essas impurezas podem se acumular de forma grave, e a pessoa pode ir a óbito.
COMSAÚDE — O que uma sessão de diálise ocupa na vida de uma pessoa que não cabe nas horas em que ela está ligada à máquina?
André Luiz Pimentel — A diálise representa a sobrevida de uma pessoa que tem uma doença crônica, progressiva e irreversível. Estar ligado a uma máquina e realizar o tratamento de forma contínua e intensiva é a certeza de que estamos vivos e lutando contra a doença de forma digna e correta.
COMSAÚDE — Existe um “depois da diálise”? Como o paciente pode se sentir nas horas seguintes e por que isso varia tanto de uma pessoa para outra?
André Luiz Pimentel — Após a sessão de diálise, a pessoa pode apresentar desconforto decorrente da remoção do excesso de líquidos acumulados entre uma sessão e outra. Esses líquidos foram acumulados ao longo de aproximadamente 44 horas e são removidos em cerca de quatro horas, o que pode provocar queda da pressão arterial, câimbras e mal-estar. Quanto menos líquido precisar ser removido, menos sintomas tendem a aparecer. Por outro lado, quanto mais líquido precisar ser retirado, mais sintomas podem surgir. A diálise é um aprendizado sobre esse novo corpo que adquirimos em decorrência da doença. É preciso conhecê-lo e calibrá-lo para evitar esses sintomas desagradáveis.
COMSAÚDE — Trabalho, estudo, atividade física, viagens e vida social podem continuar fazendo parte da rotina de quem faz diálise? O que determina esses limites?
André Luiz Pimentel — Sempre recomendamos que a vida não pare por causa do tratamento, mas ela precisa se adequar às horas destinadas à diálise. As viagens também podem ser realizadas para locais ou cidades que tenham unidades de diálise. Quando solicitado previamente, o paciente pode continuar o tratamento durante o período da viagem, inclusive em viagens de lazer.
COMSAÚDE — Para quem precisa viajar horas até uma clínica para fazer hemodiálise, que impacto esse deslocamento pode ter sobre o tratamento e a saúde do paciente?
André Luiz Pimentel — Isso é realmente dramático. As unidades de diálise nem sempre estão próximas de quem mais precisa, e esses deslocamentos de ida e volta são penosos, difíceis e exigem muito das pessoas. Na prática, praticamente um dia inteiro pode ser utilizado entre o percurso e o tratamento. Isso cansa muito os pacientes que precisam enfrentar essa rotina.
COMSAÚDE — Quando se fala em qualidade de vida de quem faz diálise, o que a medicina observa além dos exames e indicadores clínicos?
André Luiz Pimentel — Observamos, com absoluta convicção, que a qualidade de vida melhora muito, porque os sintomas associados à perda da função renal são danosos e impõem um sofrimento muito grande a quem os experimenta. A diálise corrige isso de maneira eficiente e eficaz.
COMSAÚDE — Para quem está em diálise, quando o transplante renal se torna uma possibilidade? O que determina se um paciente pode ou não ser candidato ao transplante?
André Luiz Pimentel — O transplante pode ser uma possibilidade para todas as pessoas que preencham os requisitos necessários para se submeter ao procedimento, estejam aptas à sua realização e tenham compatibilidade com um doador vivo ou possam receber um órgão de doador falecido. Quando os requisitos são preenchidos, o paciente pode ser candidato ao transplante. Há uma fila de espera, porém isso não significa, por si só, uma barreira ao transplante.
COMSAÚDE — Depois de acompanhar tantas pessoas em tratamento renal, qual é o maior equívoco que a sociedade ainda comete ao enxergar alguém que faz diálise?
André Luiz Pimentel — Um dos principais problemas é a falta de prevenção e de conhecimento sobre uma doença que pode ser silenciosa e que tem entre suas principais causas a hipertensão arterial e o diabetes. Pacientes que apresentam essas condições precisam avaliar a função renal e ser rastreados para identificar se apresentam alguma disfunção renal e, quando necessário, iniciar medidas de proteção da função dos rins.

