Durante o Março Borgonha, mês de conscientização sobre o mieloma múltiplo, especialista reforça um alerta importante: mesmo sendo a segunda neoplasia hematológica mais comum, o câncer ainda é pouco conhecido e frequentemente diagnosticado de forma tardia.
O hematologista Dr. Edvan Crusoe, chefe da Unidade de Hematologia e Hemoterapia do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES-UFBA) e coordenador do Centro Integrado para Tratamento do Mieloma Múltiplo da Rede D’Or na Bahia, explica que a doença exige atenção desde os primeiros sinais.
Para aprofundar o tema, confira a entrevista com o especialista, referência local e nacional no diagnóstico e tratamento do mieloma múltiplo.
COMSAÚDE – O que é o mieloma múltiplo e por que ele ainda é considerado um câncer pouco conhecido pela população?
Edvan Crusoe – É um tipo de câncer do sangue, localizado na medula óssea (fábrica do sangue). As células acometidas chamam-se plasmócitos, um tipo de linfócito B em seu estágio final de maturação — células produtoras de anticorpos. Por algum motivo ainda desconhecido, um clone (temos milhões de diferentes clones de plasmócitos) sofre uma alteração, torna-se descontrolado e passa a se proliferar em excesso.
Representa a segunda neoplasia hematológica mais comum, ficando atrás dos linfomas, mas com maior incidência do que as leucemias, por exemplo. Dentre todos os tipos de câncer, corresponde a cerca de 1% a 1,5%. Trata-se de uma doença que acomete principalmente pessoas mais velhas, com mediana de idade ao diagnóstico de 65 anos.
Por ser mais rara — e ainda mais incomum em pessoas mais jovens —, permanece pouco difundida e, infelizmente, não recebe grande atenção da mídia.
COMSAÚDE – Por que o diagnóstico do mieloma múltiplo costuma acontecer de forma tardia no Brasil? Quais são os principais entraves nesse processo?
Edvan Crusoe – Não sei se é tardio apenas no Brasil, mas, em geral, devido aos sintomas pouco específicos, os pacientes passam em consulta com vários especialistas até que algum pense na doença. Outra questão é a não prática de triagem com exames laboratoriais que sugiram a doença, como eletroforese de proteínas quando há suspeita.
O acesso a especialistas também acaba sendo um entrave, mas diria que o principal é o médico generalista ou emergencista ter menos atenção ou menor valorização dos sintomas e não colocar em evidência a possibilidade de ser mieloma como diagnóstico diferencial.
COMSAÚDE – Quais sinais e sintomas iniciais mais comuns ainda passam despercebidos por pacientes e até por profissionais de saúde?
Edvan Crusoe – Dores nas costas (coluna), dores na bacia, sinais de fraqueza, letargia, infecções de repetição — coisas que, em pessoas mais idosas, são interpretadas como hérnia na coluna, desgaste articular (artrose), fraqueza por anemia (e não se pensa em mieloma) ou infecções que, em idosos, também seriam algo mais rotineiro.
Utilizamos um epônimo clássico para descrever os sintomas clínicos ou achados clínico-laboratoriais do acometimento do mieloma: “CRAB”, em que C = cálcio elevado, R = alteração renal, A = anemia, B = bone (em inglês), que significa acometimento ósseo — lesões ósseas líticas e fraturas.
Então, considerando o médico generalista, são sintomas confundidores com achados de outras enfermidades mais comuns para a idade.
COMSAÚDE – Existe algum perfil de risco mais associado ao desenvolvimento da doença (idade, histórico familiar, comorbidades)?
Edvan Crusoe – Não sabemos quem terá mieloma, mas, sim, como é uma doença de pessoas mais velhas, pela idade devemos ficar mais atentos. A ligação familiar é relativa, ou seja, um caso na família não determina exames para os demais familiares. O achado que predispõe ao mieloma é quando identificamos a proteína anormal no sangue dos pacientes, a mesma que também marca o mieloma.
Existe uma situação clínica chamada gamopatia monoclonal de significado indeterminado. São indivíduos que têm essa proteína anormal no sangue ou urina, mas que não têm câncer ou outra doença. Esse achado é o único predisponente da doença, uma vez que todo mieloma um dia começa apenas com a proteína anormal no sangue e pode levar anos até se transformar em câncer. A chance dessa gamopatia monoclonal de significado indeterminado (GMSI) transformar-se em mieloma é de 1% ao ano, ou seja, 99% de não evoluir para câncer.
COMSAÚDE – Como o diagnóstico tardio impacta diretamente na evolução da doença e na qualidade de vida dos pacientes?
Edvan Crusoe – Essa é a situação mais crítica. É uma doença potencialmente mórbida e a demora no diagnóstico pode fazer com que, muitas vezes, os pacientes já se apresentem com necessidade de diálise, fraturas em coluna que levam a limitações, perda de mobilidade, entre outros. Isso determina um tratamento mais limitado, devido à morbidade e piora do estado clínico dos pacientes, além de impactar negativamente a qualidade de vida, gerando dependência de terceiros e limitações.
COMSAÚDE – Quais exames são fundamentais para confirmar o diagnóstico e por que, muitas vezes, eles demoram a ser solicitados?
Edvan Crusoe – Inicialmente, após a suspeita clínica, são realizados exames de rotina como hemograma, função renal, cálcio etc. A partir disso, a próxima etapa, já mais focada no mieloma, são os exames de avaliação proteica: eletroforese de proteínas no sangue e/ou urina, imunofixação também no sangue e/ou urina e, por vezes, cadeias leves livres séricas. Confirmada a proteína, realiza-se o exame da medula óssea para identificar as células monoclonais doentes, que, para o diagnóstico, precisam estar acima de 10% no estudo da medula, este é o exame confirmatório.
Há ainda casos mais raros em que, em vez de medula infiltrada, surgem massas (plasmocitomas) em algum osso ou em região extraóssea, e a biópsia dessa lesão também confirma o mieloma, caso haja alteração clínica relacionada.
COMSAÚDE – O que mudou nos últimos anos em relação ao tratamento do mieloma múltiplo? Há avanços significativos disponíveis no Brasil?
Edvan Crusoe – Podemos dizer que, nos últimos 5 a 10 anos, tivemos uma mudança total nos tratamentos. Primeiro, pela utilização de combinações mais eficazes nas primeiras linhas de tratamento, com a associação de anti-CD38 ao protocolo basal com imunomodulador, inibidor de proteassoma e corticoide.
Para os pacientes nas recaídas subsequentes, há novíssimas drogas, como anticorpo monoclonal conjugado (único aprovado no mundo — belantamabemafodotina), tratamentos com biespecíficos (elranatamabe, teclistamabe e talquetamabe) e terapia com CAR-T cell (ciltacel), única aprovada no Brasil. Essas novas terapias modificaram a sobrevida global, que era de 5 a 7 anos, para 10 a 15 anos na atualidade.
Não me furtaria a dizer que a expressão “cura funcional” passa a fazer parte do escopo de conversa com os pacientes que têm acesso a essas novas terapias. Mas reforço que, infelizmente, ainda é um câncer incurável.
COMSAÚDE – As terapias mais modernas já são acessíveis na rede pública ou ainda há limitações importantes de acesso?
Edvan Crusoe – Infelizmente, nada está disponível no sistema público, o que causa um grande abismo entre o setor complementar (privado) e o setor público. Os tratamentos dos pacientes do Sistema Único de Saúde correspondem ao que utilizávamos entre 2005 e 2010, com sobrevidas ainda limitadas a cerca de 5 anos.
É um cenário muito desafiador e triste para os pacientes do SUS. Alguns casos de processos judiciais são iniciados por pacientes na tentativa de conseguir tratamento, mas são números anedóticos diante da necessidade desse público.
COMSAÚDE – Qual o papel das pesquisas clínicas no avanço do tratamento e como os pacientes podem ter acesso a esses estudos?
Edvan Crusoe – A pesquisa clínica traz um grande avanço para o desenvolvimento de novos tratamentos. Além disso, possibilita que uma parcela dos pacientes do SUS tenha acesso aos melhores tratamentos, promovendo maior equidade no cuidado dos pacientes com mieloma no Brasil.
A pesquisa clínica é fundamental, e muitos centros no país já participam desses ensaios, testando novos tratamentos e viabilizando esse acesso. Além disso, contribui para uma aprovação mais rápida dessas terapias no cenário nacional, uma vez comprovada sua eficácia.
COMSAÚDE – Durante o Março Borgonha, qual é a principal mensagem de alerta que o senhor considera essencial para a população e para os profissionais de saúde?
Edvan Crusoe – Nunca esquecer que sintomas que parecem simples ou corriqueiros podem ser algo mais sério, principalmente se não melhoram rapidamente. A investigação é simples e, havendo suspeita de mieloma, a realização do estudo da proteína monoclonal é fundamental.