Entrevista

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Música, cérebro e saúde

Dr. Gustavo Gattino é musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFRGS e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Há mais de 20 anos, pesquisa música, saúde, desenvolvimento humano e comportamento. É autor de 10 livros e integra o Conselho Mundial da World Federation of Music Therapy (WFMT).

Tempo de Leitura: 5 minutos

Uma música pode trazer de volta uma lembrança, alterar o estado de humor e despertar emoções em poucos segundos. Essa relação entre sons, cérebro e comportamento também vem sendo explorada no campo da saúde por meio da musicoterapia, que utiliza a música de forma sistemática e com objetivos terapêuticos.

Diferentemente do simples ato de ouvir uma canção de que se gosta, a musicoterapia envolve a atuação de um profissional qualificado e pode recorrer não apenas à escuta, mas também ao canto, à execução de instrumentos, à improvisação e à criação musical.

Nesta entrevista ao Portal ComSaúde Bahia, o Dr. Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, explica o que acontece no cérebro quando ouvimos música e como a musicoterapia pode ser utilizada em diferentes contextos. A conversa aborda sua aplicação em pessoas autistas e com TDAH, a relação com ansiedade e regulação emocional, o papel da memória musical no envelhecimento e em doenças como Alzheimer e os limites do que a ciência já consegue afirmar sobre os efeitos terapêuticos da música.

O entrevistado também discute por que não existe necessariamente um estilo musical universalmente “terapêutico” e aponta algumas das questões que ainda precisam ser respondidas por pesquisas de maior escala.

Confira a entrevista completa:

 

COMSAÚDE — Quando ouvimos uma música de que gostamos, o que acontece no cérebro? Por que uma combinação de sons pode provocar emoções tão intensas, despertar memórias e até modificar nosso estado de humor?

Gustavo Gattino — Quando ouvimos uma música, todas as regiões do sistema nervoso central são ativadas. Essa ativação acontece primeiramente em uma região chamada amígdala, que identifica se um estímulo é ameaçador ou prazeroso.

Quando a amígdala identifica esse estímulo como prazeroso, o sistema nervoso central cria uma série de conexões e libera substâncias que provocam sensações de prazer e recompensa em diferentes partes do corpo.

A música também ativa a memória, não apenas a memória de trabalho, relacionada à cognição e à aprendizagem, mas também o hipocampo, região associada às nossas memórias primitivas e factuais. Por isso a música tem tanta importância.

COMSAÚDE — Ouvir música e fazer musicoterapia são coisas diferentes. O que caracteriza, de fato, uma intervenção de musicoterapia e por que a atuação de um profissional qualificado faz diferença?

Gustavo Gattino — Ouvir música e fazer musicoterapia são coisas diferentes. A musicoterapia é o uso sistemático da música, realizado por um musicoterapeuta devidamente credenciado, com formação de nível superior.

O musicoterapeuta não utiliza apenas a escuta musical. Ele pode cantar, tocar e criar música. A escuta também pode gerar efeitos terapêuticos, porém em um nível menos especializado e direcionado ao indivíduo.

COMSAÚDE — A musicoterapia tem sido utilizada com pessoas autistas. O que as pesquisas mais consistentes mostram hoje? Em quais aspectos ela pode contribuir e quais benefícios ainda não têm evidências científicas suficientes?

Gustavo Gattino — A musicoterapia é utilizada com pessoas autistas principalmente pelos benefícios na melhora global das dificuldades do indivíduo e na qualidade de vida.

A música também pode auxiliar em aspectos da comunicação expressiva, da regulação emocional e no trabalho para um melhor processamento sensorial.

COMSAÚDE — No caso do TDAH, como a música pode interferir em atenção, impulsividade e regulação emocional? Há perfis de pacientes que respondem melhor a esse tipo de intervenção?

Gustavo Gattino — No TDAH, a música tem um papel importante nas dificuldades de controle inibitório do indivíduo, processado principalmente pelo córtex pré-frontal. Ela auxilia no planejamento das ações porque, ao diminuir a velocidade da música e introduzir pausas, podemos ensinar esse cérebro a utilizar esse recurso também em outros momentos.

A música ainda auxilia na atenção compartilhada, na atenção sustentada e no nível de alerta. Cada novo som exige que o cérebro volte a prestar atenção, o que contribui para esse processo.

Na regulação emocional, concentrar-se em algo que faz bem, como a música, pode ajudar na regulação dos sentimentos e na expressão das emoções.

COMSAÚDE — Ansiedade, estresse e sofrimento emocional fazem parte da rotina de muitas pessoas. De que maneira a musicoterapia pode atuar na regulação das emoções e o que acontece no organismo durante esse processo?

Gustavo Gattino — A ansiedade, o estresse e o sofrimento emocional fazem parte da rotina de muitas pessoas, e a musicoterapia pode ser um espaço para o indivíduo expressar essas dificuldades por meio da música.

Alguns podem preferir cantar sobre suas dificuldades; outros, tocar, improvisar ou criar músicas a partir dessas experiências. Isso mostra o papel importante que a música pode exercer na regulação emocional.

COMSAÚDE — A música também tem uma relação muito forte com memória e envelhecimento. Por que pessoas com demência ou Alzheimer, por exemplo, podem se lembrar de músicas e letras mesmo quando outras memórias já estão comprometidas? E como isso pode ser utilizado terapeuticamente?

Gustavo Gattino — A música tem um papel muito forte na memória porque ela é o último tipo de memória que normalmente as pessoas perdem. Isso fica muito claro no Alzheimer: o indivíduo pode não conseguir mais reconhecer pessoas ou lembrar o que precisa fazer, mas ainda consegue recordar músicas de sua época, especialmente aquelas que representaram algo importante em sua vida.

Essas músicas criaram uma marca pessoal que pode permanecer praticamente até o fim da vida. Estudos sobre o processo de degeneração do sistema nervoso central indicam que a memória musical parece ser uma das últimas a se perder, principalmente quando está associada a episódios da vida.

COMSAÚDE — Existe a ideia de que determinada música “cura”, acalma ou melhora o cérebro. Isso é ciência ou simplificação? Há estilos musicais mais terapêuticos ou o efeito depende da história, das preferências e das características de cada pessoa?

Gustavo Gattino — A ideia de que a música cura, acalma ou melhora não é exatamente uma simplificação, porque existem estudos mostrando esses efeitos. Há pesquisas indicando que a música pode contribuir para um melhor balanço imunológico e para a redução de fatores relacionados ao estresse, como cortisol e adrenalina, que podem interferir no tratamento de uma pessoa.

A música também pode auxiliar na produção de neurotransmissores, como a noradrenalina, importantes em diferentes condições relacionadas à saúde mental.

No cérebro, por meio da neuroplasticidade, a música pode favorecer a criação de diferentes conexões e caminhos. Em situações como uma degeneração ou um acidente vascular cerebral, por exemplo, ela pode auxiliar nesse processo de reorganização cerebral.

O principal, porém, não é o estilo musical. Começamos a ouvir a partir da 25ª semana de gestação, portanto as marcas musicais estão muito mais associadas à história de cada indivíduo.

COMSAÚDE — Depois de mais de 20 anos pesquisando música, cérebro, comportamento e saúde, qual descoberta mais mudou a sua própria compreensão sobre o poder da música? E qual é a principal pergunta que a ciência ainda precisa responder sobre a musicoterapia?

Gustavo Gattino — Dentro de tudo o que estudei nesses últimos 20 anos, o que mais me chamou a atenção foi a possibilidade que a música oferece para que o indivíduo tenha um prazer real, um prazer hedônico, e não simplesmente um prazer de dopamina, como temos hoje com as telas e a internet.

É um prazer capaz de ativar diferentes regiões do sistema nervoso central e produzir uma série de substâncias de uma forma muito única. Para mim, esse é o grande diferencial.

Na musicoterapia, ainda precisamos de estudos com um número muito maior de participantes para mostrar seu potencial em comparação ao tratamento com medicamentos em diferentes populações. Precisamos ampliar essas pesquisas para demonstrar o papel da música na promoção da saúde, do bem-estar e da qualidade de vida.

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