Entrevista

Espaço Publicitário

Os sinais de alerta na pele que você nunca deve ignorar

Médica dermatologista, especialista em saúde da pele e estética. Após atuar por 16 anos como cirurgiã pediátrica, dedica-se há 18 anos exclusivamente à dermatologia, unindo experiência cirúrgica, conhecimento científico e técnicas avançadas para oferecer um cuidado humanizado, com foco na prevenção, tratamento e promoção da saúde da pele.

Tempo de Leitura: 7 minutos

A pele é o maior órgão do corpo humano e exerce funções essenciais para a proteção do organismo. No entanto, apesar de sua importância, muitas pessoas ainda associam os cuidados com a pele apenas à estética, deixando de perceber sinais que podem indicar doenças e comprometer a saúde.

Dados publicados pela revista científica The Lancet mostram que entre 4,7 e 4,9 bilhões de pessoas convivem com alguma doença de pele em todo o mundo, enquanto menos da metade tem acesso adequado ao diagnóstico e ao tratamento. O cenário reforça a necessidade de ampliar a informação e estimular a prevenção.

Nesta entrevista, a dermatologista Dra. Patrícia Dalboni, especialista em dermatologia com foco em saúde da pele e estética, esclarece os principais mitos sobre as doenças dermatológicas.

Uma entrevista repleta de informações práticas e baseadas em evidências, mostrando que cuidar da pele é muito mais do que uma questão de aparência: é um compromisso com a saúde e a qualidade de vida.

CONFIRA ABAIXO:

COMSAÚDE – Quase 5 bilhões de pessoas convivem com alguma doença de pele. Por que esses problemas são tão comuns?

Patrícia Dalboni – A pele é o maior órgão do corpo humano e está diretamente em contato com o meio ambiente. Temos contato com o sol, poluição, microrganismos, substâncias que causam alergia e atrito, e isso tudo vai causando lesão na pele. Além disso, temos um envelhecimento populacional e um aumento da exposição solar. O sol lesiona muito a pele, deteriorando o DNA das células da pele. Temos muita poluição, mudanças climáticas, e isso tudo aumenta a prevalência das lesões de pele.

COMSAÚDE – Muita gente acha que doença de pele é apenas uma questão estética. Esse é um mito?

Patrícia Dalboni – Com certeza. A pele é muito mais do que a parte estética. A pele é o que protege todo o nosso corpo de tudo. Temos desde doenças muito graves, que podem causar até a morte, como o câncer de pele e algumas doenças que causam bolhas e feridas no corpo. E há outras doenças que às vezes não vão causar a morte, mas que causam um estigma no paciente.
Por exemplo, uma psoríase grave, um vitiligo grave. O vitiligo não tem perigo nenhum, mas a pessoa que tem vitiligo se sente estigmatizada, e isso piora muito a qualidade de vida daquela pessoa. Além disso, você pode ter infecções na pele, que têm perigos. Então, tratar como só estética é negligenciar o principal, que é a saúde.

COMSAÚDE – Quais são as doenças de pele mais frequentes na população?

Patrícia Dalboni – Uma doença super comum é a acne, principalmente em adolescentes, adultos jovens e mulheres, é muito frequente. As dermatites, que são uma espécie de alergia: temos a dermatite atópica, a dermatite seborreica e a dermatite de contato. As micoses, entre elas a pitiríase versicolor, que é aquele famoso pano branco, a micose de unhas e as frieiras. O melasma e outras alterações de pigmentação, a rosácea, a psoríase. Lesões de envelhecimento, como as ceratoses actínicas, que são lesões que, se não forem tratadas, podem vir a se transformar em câncer. E, contando que o cabelo também faz parte da pele, do complexo cutâneo, a queda de cabelo é muito comum.

COMSAÚDE – Quando uma mancha, pinta ou ferida deixa de ser algo comum e passa a ser um sinal de alerta?

Patrícia Dalboni – Para as manchas, temos a regra do ABCDE. O A é de assimetria, quer dizer, um lado da pinta é diferente do outro. O B é de bordas irregulares. Quando a borda é muito retinha, que você consegue delimitar bem, é um pouco menos preocupante; uma borda irregular é mais preocupante. O C é de cor: se tiver uma cor, tem menos risco do que aquela pinta com quatro, cinco cores. O D é de diâmetro, o diâmetro que a gente considera é 6 mm; uma lesão maior que 6 mm tem risco maior. E o E é de evolução, que é a mudança de tamanho e forma, quando ela vai mudando ao longo do tempo.

Então, principalmente: ABCDE, assimetria, bordas irregulares, cor variada, diâmetro maior que 6 mm e evolução. Esse é o primeiro sinal de alerta. Para as feridas, o que é mais importante? Aquela ferida que não cicatriza, ou que cicatriza um pouco e piora, cicatriza e piora; ou uma lesão que sangra, às vezes só de você passar a toalha na hora do banho, é uma lesão que deve ser avaliada. E qualquer pinta nova, qualquer lesão nova em paciente acima de 40 anos, precisa ser vista.

COMSAÚDE – Existe algum sintoma que nunca deve ser ignorado?

Patrícia Dalboni – Uma mudança rápida no tamanho, cor ou formato de pinta; feridas que não cicatrizam; sangramento de lesão; nódulos, caroços ou manchas que crescem rapidamente. E, na dúvida, o caminho mais seguro é procurar um médico dermatologista.

COMSAÚDE – Quais hábitos do dia a dia mais prejudicam a saúde da pele sem que as pessoas percebam?

Patrícia Dalboni – Vejo câncer de pele todos os dias. Estou há meia hora no trabalho e já vi câncer de pele hoje. O câncer de pele é o câncer mais prevalente no Brasil, e o meio de evitá-lo é o protetor solar, ou ficar em ambiente fechado o tempo todo, o que também não é saudável. Então o uso do protetor solar não deve ser negligenciado.
Fora isso, banhos muito quentes, porque tiram a proteção da pele; uso de produtos de limpeza e sabonetes muito agressivos; esfoliação em excesso; alimentação desbalanceada, muito rica em açúcar, ultraprocessados e frituras.

A falta de sono também altera a pele. E uma coisa muito importante: a pessoa que fica espremendo lesão. Isso acaba aumentando o risco de infecção, de cicatriz e de lesões permanentes. Outra coisa que hoje em dia está um caos é a pessoa ficar comprando produtos de skincare de acordo com a internet, com o TikTok. Às vezes ela compra um produto até bom, mas que não é indicado para a pele dela, e isso acaba prejudicando a saúde da pele.

COMSAÚDE – O protetor solar deve ser usado apenas na praia ou todos os dias?

Patrícia Dalboni – O protetor deve ser usado diariamente, independentemente de estar na praia, na cidade ou em dias nublados, porque a radiação ultravioleta, que é cancerígena, passa pelas nuvens. Se você estiver exposto, é importante reaplicar a cada duas ou três horas. Isso nas áreas expostas. No homem, vale lembrar de passar nas orelhas e na nuca, porque é um lugar onde eventualmente aparece câncer de pele; na mulher, um pouco menos, porque o cabelo protege.

COMSAÚDE – Acne, melasma, rosácea e dermatite: como saber quando é hora de procurar um dermatologista?

Patrícia Dalboni – Na minha opinião, apareceu, já vale a pena procurar. Por quê? Primeiro, a acne: a principal preocupação são as cicatrizes, as marcas. Embora as cicatrizes não tenham risco, a pessoa que as tem não gosta, se incomoda muito, se sente estigmatizada. Depois que a cicatriz vem, você consegue amenizar, mas não consegue tirar. E a gente nunca sabe quem vai fazer cicatriz e quem não vai, então o ideal na acne é tratar o quanto antes.

No caso do melasma, quanto mais o tempo passa, mais ele se aprofunda, e o melasma mais profundo é mais difícil de tratar. A rosácea tende a ficar mais grave com o passar do tempo, e existe um subtipo, o rinofima, em que a pessoa vai engrossando a pele do nariz. Se você deixa chegar nessa fase, precisa depois fazer cirurgia. Então o ideal é procurar logo um profissional.

COMSAÚDE – Com tantas dicas nas redes sociais, quais são os maiores riscos da automedicação e das receitas caseiras?

Patrícia Dalboni – Há algumas receitas caseiras que são péssimas e podem causar queimaduras, como limão e bicarbonato. Outra coisa: há produtos que são contraindicados. Às vezes eu pego paciente com rosácea usando ácido retinoico ou algum produto com corticoide, que é contraindicado.

Eventualmente pego pacientes com lesões causadas pelos produtos que estavam usando. Na rosácea é muito comum acontecer isso; na acne, temos um subtipo que chamamos de acne cosmética, que é causada por produtos não indicados para aquela pele. Cada pessoa tem uma pele diferente, uma resposta diferente. Por isso é importante individualizar o tratamento.

COMSAÚDE – Existe uma rotina básica de cuidados que toda pessoa deveria adotar, independentemente da idade?

Patrícia Dalboni – O básico de cuidado é uma limpeza com sabonete adequado ao tipo de pele. Eu pego muita paciente que usa sabonete de bebê para lavar o rosto, sabonete de bebê não é indicado para lavar o rosto de um adolescente ou adulto. Então o sabonete deve ser o adequado. A hidratação, em todas as peles: numa pele mais seca, um hidratante um pouco mais oleoso; mas temos excelentes hidratantes sem oleosidade, à base de água, para hidratar as peles oleosas. Protetor solar todos os dias, o ano inteiro, nas áreas expostas. Fora isso, evitar cigarro, evitar bebida alcoólica em excesso, uma alimentação saudável, uma rotina de sono e exercício físico, tudo isso vai ajudar na qualidade da pele também.

COMSAÚDE – A alimentação, o sono e o estresse influenciam na saúde da pele?

Patrícia Dalboni – A pele funciona como um espelho do equilíbrio interno do corpo. Então, cuidar da sua saúde afeta diretamente a qualidade da pele. O sono é o período em que ocorre grande parte da renovação celular e do reparo da pele. Se você dorme mal, consequentemente vai produzir menos colágeno, a pele vai ficar menos viçosa e qualquer problema se recupera de forma mais lenta.

O estresse crônico eleva os níveis de cortisol no sangue, o que pode piorar acne, psoríase, dermatite atópica e outras doenças. E a dieta desbalanceada, por exemplo o excesso de açúcar e laticínios, pode estar associada à piora da acne e do envelhecimento da pele. Então, isso tudo vai interferir.

Outra coisa importante é manter uma hidratação adequada, por ingestão de água, e isso vai refletir na hidratação da pele também.

COMSAÚDE – O câncer de pele pode ser prevenido? Quais são os principais sinais de alerta?

Patrícia Dalboni – O câncer de pele é o câncer com maior potencial de prevenção. E como se previne o câncer de pele? Através do uso do protetor solar diariamente nas áreas expostas e evitando a exposição ao sol nos horários de pico, principalmente das 10h às 4h da tarde.

É importante conhecer a regra do ABCDE para as pintas: A de assimetria, B de bordas irregulares, C de cores variadas, D de diâmetro maior que 6 mm e E de evolução, uma mudança no aspecto da lesão. Então, qualquer uma dessas características deve levar você a procurar um médico. Outra questão é a ferida que não cicatriza. Qualquer ferida tem que cicatrizar.

Se você tem uma feridinha que não cicatriza, ou cicatriza e volta a ferir, ou alguma lesão que sangra espontaneamente ou quando você passa uma toalha, é importante. E se você tiver uma pintinha e notar um brilho nessa pinta, um brilho como se fosse um brilho de pérola, isso também é um sinal que pode indicar um câncer de pele. Então, o que é importante? Observar as suas pintas, observar se há lesão nova e, a qualquer alteração, procurar um dermatologista.

COMSAÚDE – Qual é a principal mensagem que a senhora gostaria de deixar para a população?

Patrícia Dalboni – Cuidar da pele é cuidar da saúde em geral. A pele fala muito sobre a saúde do corpo como um todo, e cuidar dela é um ato de cuidado, não apenas vaidade. Às vezes as pessoas acham que é só uma questão estética, mas não, é uma questão de saúde.

Pequenos hábitos todo dia, como a hidratação da pele, a proteção solar, a observação das pintas e das feridas, vão fazer uma diferença real na prevenção de doenças graves. E é importante buscar orientação profissional sempre que você notar alguma coisa diferente.

Compartilhe:
Rolar para cima