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Foto: Freepik

Estudo revela seis formas graves da tuberculose que podem comprometer a visão

TUBERCULOSE OCULAR

Sem sintomas pulmonares, a tuberculose ocular pode passar despercebida. Estudo da Unufesp com participação da UFBA alerta para formas graves e risco de perda visual.

Tempo de Leitura: 4 minutos

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), descreve seis casos de tuberculose ocular com comprometimento do segmento posterior do olho.

Segundo a pesquisa, as manifestações podem ocorrer mesmo sem sinais evidentes da doença no pulmão. Dessa forma, quando não reconhecidas rapidamente, podem evoluir para complicações irreversíveis e perda visual.

Casos mostram diversidade de manifestações clínicas

Os pesquisadores analisaram pacientes imunocompetentes, todos homens, com idades entre 28 e 46 anos, atendidos em um contexto de alta prevalência de tuberculose.

Nesse cenário, o estudo chama atenção para a heterogeneidade das apresentações clínicas. Entre os casos avaliados, foram identificados granulomas coroideanos com inflamação do nervo óptico, coriorretinite multifocal, coroidite serpiginosa-like e vasculite retiniana oclusiva.

Como resultado, alguns pacientes evoluíram com complicações importantes, como hemorragia, cicatrizes e até descolamento de retina.

Diagnóstico é desafiador e exige abordagem integrada

A confirmação microbiológica da tuberculose ocular é, frequentemente, difícil. Por esse motivo, o diagnóstico costuma ser presuntivo e se baseia em um conjunto de evidências clínicas e laboratoriais.

Entre os principais recursos utilizados, destacam-se os testes imunológicos, como PPD (TST) e/ou IGRA, além de exames de imagem ocular, como OCT e angiografia. Paralelamente, a resposta ao tratamento também é considerada um critério relevante para a definição do quadro.

No estudo, todos os pacientes eram HIV-negativos. Ainda assim, quatro apresentavam histórico de encarceramento, o que se configura como um fator epidemiológico relevante em contextos de maior vulnerabilidade.

Ausência de sintomas respiratórios pode atrasar identificação

Embora a tuberculose seja tradicionalmente associada ao pulmão, o estudo reforça que a doença também pode se manifestar de forma ocular, mesmo quando o acometimento pulmonar é ausente ou discreto.

Em alguns casos, a tomografia de tórax mostrou alterações como nódulos ou cavitações. No entanto, esse achado não esteve presente em todos os pacientes. Diante disso, a ausência de sinais respiratórios pode atrasar a suspeita clínica e, consequentemente, o início do tratamento.

exame ocular
Imagem: Freepik
Exames e tratamento precoce fazem diferença no prognóstico

“A combinação de exames de imagem multimodal e testes imunológicos são essenciais, garantindo assertividade mesmo na ausência de focos pulmonares ativos. Por isso, é importante integrar olhar clínico, epidemiologia e exames de suporte para reduzir subdiagnóstico, principalmente em regiões endêmicas. A suspeita precoce, somada ao tratamento adequado, pode significar a diferença entre recuperação funcional e perda visual irreversível”, afirma a Dra. Luciana Finamor, coautora do estudo, docente da Unifesp e oftalmologista da Clínica de Olhos Moacir Cunha, marca do Grupo Fleury, detentor da Diagnoson a+ na Bahia.

Todos os pacientes receberam o esquema padrão RIPE (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol), associado ao uso de corticosteroide oral com redução gradual nas primeiras semanas.

Na maioria dos casos, houve controle da inflamação em cerca de nove meses. Ainda assim, os desfechos visuais variaram, especialmente entre pacientes que já apresentavam cicatriz macular, isquemia extensa ou descolamento de retina.

O estudo também alerta para complicações que exigem vigilância, pois um dos casos evoluiu com neovascularização coroideana secundária, enquanto outro apresentou piora após não seguir o esquema inicialmente indicado, com necessidade de cirurgia (vitrectomia) e recuperação visual parcial“, conta a médica.

Investigação oftalmológica é essencial em países endêmicos

Em países como o Brasil, onde a prevalência da tuberculose é significativa, a investigação oftalmológica minuciosa torna-se fundamental para identificar a infecção extrapulmonar, inclusive em pacientes imunocompetentes.

olho
Imagem: Freepik

Assim, reforça-se a importância de uma abordagem clínica atenta e integrada.
A conclusão deste artigo altera o manejo clínico ao validar que o início precoce do tratamento antituberculose, associado à vigilância constante contra complicações, é um fator determinante para reverter quadros de perda visual e evitar sequelas visuais graves“, conclui a Dra. Luciana.

Publicação científica

A pesquisa Chasing shadows: case series of six posterior segment manifestations of ocular tuberculosis foi publicada na revista científica AME Case Reports.
A pesquisa Chasing shadows: case series of six posterior segment manifestations of ocular tuberculosis foi publicada na revista científica AME Case Reports: https://acr.amegroups.org/article/view/12117/html.

A tuberculose no mundo e no Brasil

A tuberculose continua sendo a principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo. Em 2024, quase 11 milhões de pessoas adoeceram e mais de um milhão morreram da doença, segundo a OMS. A taxa global de incidência caiu 1,7% entre 2023 e 2024, chegando a 131 casos por 100 mil habitantes. No Brasil, de acordo com o Boletim Epidemiológico Tuberculose 2025, foram registrados mais de 85 mil casos novos em 2024. Em 2023, ocorreram cerca de 6 mil mortes no país.

O Dia Mundial de Combate à Tuberculose é celebrado em 24 de março e tem como objetivo conscientizar a população sobre a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da doença, que ainda figura entre as infecções mais letais no mundo. A data marca o anúncio da descoberta do Mycobacterium tuberculosis (bacilo de Koch), realizado em 1882.

No Brasil, além disso, é promovida a Semana Nacional de Mobilização e Luta contra a Tuberculose, entre os dias 24 e 31 de março, reforçando a importância da informação e do enfrentamento da doença.

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