Em um período marcado por reflexão, silêncio e recomeços, como a Semana Santa e a Páscoa, muitas pessoas voltam o olhar para dentro. É um tempo que convida à pausa e, para além das tradições religiosas, abre espaço para perguntas que atravessam a vida cotidiana: o que sustenta emocionalmente em momentos difíceis? Onde encontrar sentido quando tudo parece incerto?
No Brasil, essas perguntas costumam caminhar lado a lado com a fé. Segundo a pesquisa Global Religion 2023, produzida pelo Ipsos, 89% dos brasileiros afirmam acreditar em Deus ou em um poder superior, e 76% dizem seguir alguma religião.
O número coloca o país acima da média global, que é de 67%, e revela uma característica cultural importante: a espiritualidade, para muitos, não é apenas crença, é parte da forma de viver e enfrentar desafios.

Mas, afinal, o que é espiritualidade?
Diferente da religião, que envolve práticas, rituais e instituições, a espiritualidade está mais relacionada à busca de sentido, propósito e conexão com algo maior. Para alguns, isso se manifesta na fé religiosa. Para outros, pode estar no silêncio, na natureza, na arte, nas relações ou em valores que dão sentido à vida.
No Brasil, essa compreensão é reforçada por pesquisadores como o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida. Internacionalmente, estudos conduzidos por especialistas como Harold G. Koenig também apontam a espiritualidade como uma dimensão importante da experiência humana, especialmente quando associada ao cuidado em saúde.
Essa visão também aparece na fala da jornalista e escritora Rita Batista (@ritabatista), autora do livro “A Vida é Um Presente: Mantras para o seu dia a dia”, em que propõe a espiritualidade como uma prática cotidiana, ligada ao autoconhecimento, à intenção e à forma como cada pessoa se conecta consigo mesma e com o mundo. Na obra, a autora reúne reflexões e mantras que incentivam a expansão da consciência, a gratidão e o cuidado com a dimensão interior da vida. A segunda edição da obra, A Vida é um Presente 2, foi lançada em novembro de 2025, ampliando as reflexões.

O olhar da prática clínica
Essa dimensão aparece no cuidado com pacientes. O médico mastologista, pesquisador e peregrino, Dr. Daniel Buttros (@drdanielbuttros), Sócio Fundador do Caminhos de Cura e presidente da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Mastologia, defende uma abordagem mais humanizada que une ciência espiritualidade.
Ao longo da carreira, ele passou a compreender melhor a relação entre fé, doença e enfrentamento. Com isso, passou a enxergar suas pacientes além do diagnóstico. Segundo o médico, o adoecimento pode provocar transformações profundas. Muitas vezes, leva à busca por sentido, felicidade e virtude, um caminho que pode envolver a espiritualidade.
Além disso, Buttros destaca que a fé não está necessariamente ligada à religião. Para ele, ela se conecta àquilo em que cada pessoa acredita, especialmente em momentos de vulnerabilidade.

E é justamente nesse ponto que a ciência tem se debruçado com mais atenção
Estudos nas áreas de saúde e comportamento indicam que a espiritualidade pode estar associada a melhores desfechos na recuperação de doenças físicas e mentais. Pessoas que cultivam algum tipo de prática espiritual, seja por meio da religião, da meditação ou da busca por propósito, tendem a desenvolver mais estratégias de enfrentamento, maior resiliência emocional e até vínculos sociais mais fortes.
Na prática, isso aparece de forma simples e concreta: na rede de apoio de uma comunidade religiosa, no conforto de um ritual, na sensação de pertencimento ou até na esperança que ajuda alguém a atravessar um momento difícil. Em contrapartida, estudos também apontam que indivíduos com menor envolvimento religioso ou espiritual podem apresentar maior propensão a transtornos mentais e ao uso abusivo de álcool, o que não significa uma regra, mas um sinal de alerta dentro de um contexto mais amplo.
“Além do benefício em saúde mental, há ganhos na saúde física e na qualidade de vida. Não se trata de uma questão filosófica, mas de ciência. Por exemplo, já foi comprovado que a prece de conexão interage com a modulação autonômica cardíaca de maneira positiva. Ou seja, nosso foco, enquanto profissional da saúde, tem de sair da doença e se voltar para a pessoa. Não importa o que eu penso e sim o outro, no caso nosso paciente, caso contrário ficaremos autocentrados”, explicou o cardiologista e professor da Escola de Medicina e Cirurgia, Julio Tolentino, em matéria publicada no final do ano passado pelo Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG-Unirio/Ebserh).

Entre ciência e sentido: Fé não substitui cuidado
Ainda assim, é importante entender que fé não substitui cuidado em saúde. A espiritualidade pode ser uma aliada, mas não ocupa o lugar de acompanhamento profissional quando necessário. A saúde mental é construída a partir de múltiplos fatores, biológicos, psicológicos e sociais, e precisa ser tratada com responsabilidade.
O que a ciência tem mostrado, cada vez mais, é que olhar para o ser humano de forma integral faz diferença. E, nesse olhar, a espiritualidade ganha espaço não como solução única, mas como parte de um conjunto que pode favorecer o equilíbrio emocional.
Talvez por isso, em tempos como a Semana Santa, quando o convite é desacelerar e refletir, tantas pessoas encontram na fé, ou no simples exercício de se reconectar consigo mesmas, não apenas respostas, mas acolhimento. Porque, no fim das contas, cuidar da saúde mental também passa por aquilo que dá sentido à vida.

