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Foto: Leonardo Rattes/Reabilitação do HOEB

Histórias de vítimas e dados sobre internações alertam para o avanço dos acidentes de moto na Bahia

MAIO AMARELO

Perda, reabilitação e superação marcam a rotina de famílias afetadas. Em cinco anos, as internações por acidentes com motocicletas cresceram 82% no estado.

Tempo de Leitura: 4 minutos

A história de Átila, adolescente que ficou com tetraparesia após um acidente de motocicleta, reflete um problema cada vez mais frequente na Bahia. Enquanto o jovem luta para recuperar movimentos e autonomia, os números mostram o avanço das ocorrências envolvendo motos no estado.

Segundo dados do DataSUS, as internações causadas por acidentes com motocicletas cresceram 82% nos últimos cinco anos. Em 2025, foram registrados 13.923 casos, contra 7.625 em 2020. Além disso, somente nos primeiros meses de 2026, a média ultrapassou mil internações por mês.

O cenário ganha ainda mais atenção durante o Maio Amarelo, movimento internacional voltado à conscientização sobre segurança no trânsito e prevenção de acidentes.

Uma tragédia que mudou uma vida

O acidente aconteceu em uma rodovia próxima ao município de Santa Teresinha, a cerca de 190 quilômetros de Salvador. Na ocasião, Átila, então com 13 anos, viajava de motocicleta com o pai, Edimilson Couto Santana, policial militar aposentado de 59 anos.

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Imagem: Átila, acervo da família.

Os dois estavam sem capacete quando a motocicleta colidiu com um caminhão parado às margens da estrada, sem sinalização adequada. O pai não sobreviveu. Já o adolescente sofreu lesões graves que resultaram em tetraparesia, condição que compromete os movimentos dos quatro membros.

Desde então, a rotina da família foi completamente transformada. A mãe do adolescente, Glaucia Melo, faz um alerta sobre a importância do uso dos equipamentos de proteção.

Se meu marido estivesse usando o capacete, poderia ter sobrevivido. É muito importante usar independentemente da distância ou do local onde esteja”.

Reabilitação trouxe avanços importantes

Seis meses após o acidente, em outubro de 2025, Átila foi transferido para Salvador. Desde então, passou a receber acompanhamento de uma equipe multiprofissional na Clínica Florence, unidade especializada em reabilitação intensiva e cuidados de transição.

Quando chegou ao serviço, o adolescente não tinha controle de tronco, utilizava fraldas e dependia de ajuda para realizar atividades básicas do dia a dia. Com o avanço do tratamento, entretanto, passou a apresentar ganhos significativos. Atualmente, consegue permanecer sentado com mais estabilidade, utiliza cadeira de rodas, deixou de usar fraldas e já consegue dar os primeiros passos com apoio.

Para a Dra. Isa Carolina Paim, médica da Clínica Florence, a reabilitação precoce e contínua é essencial para ampliar as possibilidades de recuperação.

Acidentes de moto podem causar lesões graves, como o trauma raquimedular, levando a limitações motoras, sensoriais e perda de autonomia. A reabilitação é parte fundamental nesse processo, pois ajuda na recuperação funcional, na adaptação às possíveis sequelas e na melhora da qualidade de vida, além de prevenir complicações. Quanto mais precoce e contínuo o acompanhamento, melhores tendem a ser os resultados”.

Acidentes de moto pressionam a rede pública

Além das consequências individuais, os acidentes com motocicletas têm provocado forte impacto sobre o sistema de saúde. De acordo com levantamento da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), as internações relacionadas a acidentes de moto geraram um custo de aproximadamente R$ 148,6 milhões ao sistema público apenas em 2025.

No Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB), referência estadual em ortopedia e trauma, os motociclistas representam uma parcela expressiva dos atendimentos de urgência.

Atualmente, a unidade registra cerca de 450 atendimentos regulados a cada 30 dias. Desse total, aproximadamente 60% estão relacionados a acidentes de trânsito. Entre esses casos, cerca de 40% envolvem motociclistas.

Segundo o hospital, a maior parte das ocorrências acontece no fim da tarde, durante a noite e nos finais de semana. Além disso, as principais causas incluem colisões entre motocicletas e automóveis, bem como quedas da própria moto.

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Fotos: Reabilitação no HOEB- Leonardo Rattes

Jovens trabalhadores estão entre as principais vítimas

O perfil predominante das vítimas é formado por homens entre 18 e 40 anos. Muitos utilizam a motocicleta como instrumento de trabalho, especialmente entregadores por aplicativo, motoboys e mototaxistas.

Como consequência, os acidentes costumam provocar afastamentos prolongados, perda de renda e dificuldades financeiras para toda a família. Entre os pacientes atendidos pelo Hospital Ortopédico está um entregador de 37 anos, morador de Salvador, que já sofreu três acidentes de motocicleta.

Após uma nova queda, ocorrida no último dia 3 de maio, ele aguarda uma segunda cirurgia para tratar uma fratura no tornozelo. Pai de três filhos e com a esposa grávida do quarto bebê, ele relata os desafios enfrentados desde o afastamento das atividades profissionais.

A moto era minha ferramenta de sustento. Hoje estou sem poder trabalhar, dependendo da ajuda de amigos e parentes para manter as contas e sustentar meus filhos. A gente nunca acha que vai acontecer de novo, mas a realidade muda de uma hora para outra”.

Fraturas graves, cirurgias e longos períodos de recuperação

Entre as lesões mais frequentes atendidas pelo HOEB estão fraturas expostas de tíbia e fíbula, fraturas de fêmur e traumas complexos em membros superiores.

Além disso, também são registrados casos graves envolvendo pelve, coluna vertebral e amputações traumáticas. Em muitos casos, os pacientes precisam passar por múltiplas cirurgias e enfrentar longos períodos de reabilitação.

O custo médio de internação é estimado em R$ 10,6 mil por paciente. Já o tempo de permanência hospitalar pode chegar a 15 dias nos casos mais graves que necessitam de cuidados intensivos.

Para Roger Alencar, diretor do Hospital Ortopédico do Estado da Bahia, o problema exige uma abordagem que vai além da assistência hospitalar.

Estamos falando de jovens em plena fase produtiva que chegam ao hospital com lesões extremamente graves, muitas vezes incapacitantes. Além do impacto para o sistema público de saúde, esses acidentes afetam diretamente famílias inteiras, que passam a lidar com perda de renda, reabilitação prolongada e sequelas físicas e emocionais”.

Prevenção continua sendo a principal ferramenta

Enquanto Átila segue sua trajetória de recuperação, sua história reforça uma realidade que atinge milhares de famílias baianas todos os anos.

Mais do que estatísticas, os acidentes de trânsito representam vidas interrompidas, sonhos adiados e desafios que podem permanecer por décadas.

Por isso, especialistas reforçam que medidas simples continuam sendo fundamentais. O uso correto do capacete, o respeito às leis de trânsito, a manutenção adequada dos veículos e a condução responsável permanecem entre as estratégias mais eficazes para reduzir acidentes, sequelas permanentes e mortes nas estradas e cidades da Bahia.

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