Você já pesquisou um sintoma no Google, no ChatGPT ou em outra ferramenta de inteligência artificial? O hábito se tornou cada vez mais comum. Na área da saúde, a internet ocupa um espaço importante na busca por informações: estimativas citadas em estudos apontam que cerca de 7% das pesquisas no Google estão relacionadas à saúde, o equivalente a aproximadamente 70 mil buscas por minuto.
Além de sintomas e doenças, esse comportamento também alcança temas ligados à estética, como emagrecimento, procedimentos faciais, medicamentos e cuidados com a pele. Com a popularização dos chatbots, o usuário consegue receber respostas personalizadas em poucos segundos. No entanto, uma resposta produzida por inteligência artificial não substitui uma avaliação médica individualizada.
O alerta ganha força diante do crescimento do interesse por medicamentos para emagrecimento e da influência das redes sociais sobre essas decisões. Um estudo publicado em 2025 na Frontiers in Pharmacology avaliou o comportamento de 542 pessoas que utilizavam ou pretendiam utilizar medicamentos para perda de peso. Mais da metade dos participantes, 53%, relatou ter usado esses medicamentos sem consultar um médico, enquanto 68% afirmaram sofrer influência das redes sociais na decisão.
Respostas rápidas podem ignorar características individuais
De acordo com o médico Dr. Octávio Guarçoni, referência em medicina estética no Brasil, o problema não está apenas na busca por informação, mas na tentativa de transformar uma resposta genérica em uma indicação individual.
“A corrida pelo nariz afinado, pelos lábios volumosos, pelo contorno facial marcado ou pela lipo HD ganhou um novo aliado, além do Instagram e do TikTok, que são as ferramentas de IA generativa. O que antes era restrito aos filtros das redes sociais agora também aparece nas respostas de chatbots, que oferecem um olhar de como ‘eu seria com determinada característica’.”
Para o médico, a medicina estética não funciona com receitas prontas. Antes de indicar um procedimento, o profissional precisa analisar diferentes aspectos do paciente e entender a origem da queixa.
“Antes de qualquer indicação, existe uma avaliação individualizada, que considera o histórico clínico, os traços individuais de cada pele e o não apagamento desse ‘traço natural’ dos pacientes”, explica Guarçoni.
Nesse sentido, uma ferramenta de IA pode apresentar possibilidades de procedimentos, mas não consegue substituir, sozinha, a análise clínica necessária para decidir se determinada intervenção é realmente indicada.

Canetas para emagrecer também exigem avaliação
A popularização de medicamentos como semaglutida e tirzepatida ampliou a presença dos chamados medicamentos para perda de peso nas redes sociais. Vídeos, relatos de experiências pessoais e transformações corporais podem influenciar quem procura uma solução rápida para emagrecer.
O estudo publicado na Frontiers in Pharmacology mostra justamente esse impacto. Entre os participantes analisados, 68% disseram que as redes sociais influenciaram o uso de medicamentos para emagrecimento. Instagram e TikTok apareceram entre as principais plataformas citadas.
Apesar disso, a escolha de um medicamento não deve partir da experiência de outra pessoa. Segundo Guarçoni, diferentes fatores podem mudar completamente a indicação de um tratamento.
“Principalmente no caso do emagrecimento, o erro mais comum é escolher uma caneta porque um influenciador X usou. Em muitos casos, o quadro exige do paciente reeducação alimentar, reposição hormonal ou até mesmo um outro tipo de tratamento, passando bem longe das canetas”, afirma.
O medicamento que funciona para uma pessoa pode não ser adequado para outra. Por isso, histórico de saúde, medicamentos em uso, condições associadas, objetivos e características individuais precisam entrar na avaliação profissional.
Procedimentos estéticos também não seguem protocolos universais
O mesmo cuidado vale para procedimentos faciais. Preenchimentos, aplicações de toxina botulínica e outras intervenções podem ter indicações diferentes conforme a estrutura do rosto e as características da pele.
Segundo Guarçoni, uma recomendação automatizada pode apontar um procedimento sem identificar corretamente a origem da queixa.
“Uma inteligência artificial pode sugerir preenchimento para um rosto com aparência cansada, quando, na verdade, o problema pode ser flacidez, perda de colágeno ou até emagrecimento excessivo. Se tratar a causa errada, o resultado dificilmente será natural”, explica.
A aparência de cansaço, por exemplo, não necessariamente indica falta de volume facial. A queixa pode estar relacionada a alterações na pele, flacidez, perda de colágeno ou mudanças no peso.
Por isso, a avaliação presencial permite observar características que uma resposta de chatbot não consegue analisar de maneira completa. Além disso, o profissional pode relacionar a queixa estética ao histórico clínico e às expectativas do paciente.
Como usar a inteligência artificial com mais segurança?
A tecnologia pode ajudar na busca inicial por informações, desde que o usuário entenda seus limites. O próprio Google afirma que milhões de pessoas recorrem diariamente ao buscador para encontrar informações relacionadas à saúde e vem desenvolvendo mecanismos para apresentar conteúdos de fontes consideradas confiáveis.
Entretanto, isso não transforma mecanismos de busca ou ferramentas de IA em substitutos de consultas médicas.
Para evitar decisões baseadas apenas em conteúdos digitais, o médico recomenda alguns cuidados:
- Desconfie de promessas de resultados imediatos ou transformações consideradas garantidas;
- Evite protocolos apresentados como universais, principalmente quando não existe avaliação individual;
- Não utilize medicamentos por indicação de influenciadores, redes sociais, aplicativos ou chatbots;
- Confira se o conteúdo foi produzido por profissionais habilitados;
- Procure informações em fontes confiáveis e atualizadas;
- Em caso de interesse por procedimentos ou medicamentos, converse com um profissional habilitado antes de tomar uma decisão;
- Informe ao profissional todos os medicamentos e tratamentos que já utiliza.
Além disso, vale observar se o conteúdo apresenta limitações e orienta a busca por atendimento profissional. Uma informação pode ajudar o paciente a entender melhor um assunto, mas não deve determinar sozinho o diagnóstico ou o tratamento.

Tecnologia informa, mas não substitui o médico
A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitas pessoas e pode facilitar o acesso a informações sobre saúde e estética. O problema começa quando uma resposta genérica passa a ser tratada como uma prescrição individual.
“Idade, histórico de doenças, uso de medicamentos, qualidade da pele, estrutura facial e expectativas individuais são fatores que precisam ser avaliados antes de qualquer indicação terapêutica ou estética”, ressalta Guarçoni.
Para o médico, a avaliação profissional continua essencial justamente porque o objetivo de um tratamento estético não deve ser apenas mudar uma característica, mas entender o que está causando a queixa e buscar um resultado compatível com cada paciente.
“A tecnologia pode informar, mas a avaliação com o profissional da área é indispensável para garantir segurança e resultados naturais”, conclui.


