Mais de 2 milhões de brasileiros têm no trabalho por aplicativos sua principal fonte de renda. Motoristas, entregadores e outros prestadores de serviço enfrentam diariamente trânsito intenso, longas jornadas e pressão por entregas rápidas. Ao mesmo tempo, precisam garantir o sustento da família. No entanto, o avanço desse modelo de trabalho também aumenta a preocupação com a saúde e a segurança desses profissionais.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o trabalho mediado por plataformas digitais reúne mais de 2 milhões de pessoas em todo o país. Além disso, dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostram que o Brasil registrou mais de 180 mil concessões de auxílio-doença acidentário (benefício B91) somente em 2024.
Ainda de acordo com o levantamento, desde 2012 o país contabilizou mais de 8,8 milhões de acidentes de trabalho. O período também registrou cerca de 32 mil mortes e mais de 573 milhões de dias de trabalho perdidos por causa de afastamentos previdenciários.
Bahia também apresenta números preocupantes
Na Bahia, os indicadores reforçam a gravidade do cenário. O Ministério Público do Trabalho na Bahia (MPT-BA) aponta o transporte rodoviário de cargas entre as atividades econômicas com maior número de acidentes de trabalho no estado.
Além disso, a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab) registrou 39.037 acidentes de trabalho entre 2010 e 2021. Desse total, 12.382 ocorreram em Salvador, o equivalente a 32% dos casos.
Os homens representam 86% das vítimas. Já 37,5% dos acidentes envolvem trabalhadores em situação de informalidade, perfil semelhante ao de grande parte dos profissionais que atuam por aplicativos.
Embora os levantamentos oficiais não identifiquem separadamente os acidentes envolvendo trabalhadores de plataformas digitais, especialistas alertam que motoristas e entregadores estão entre os grupos mais vulneráveis. Isso porque passam grande parte da jornada no trânsito. Além disso, trabalham sob pressão por produtividade, avaliações dos clientes e remuneração baseada no número de corridas ou entregas.

Modelo de remuneração favorece jornadas mais longas
Para a médica do trabalho, sócia da consultoria Escutaris e autora do livro Quando o Trabalho Dói, Ana Paula Teixeira, a lógica desse modelo pode aumentar a exposição aos riscos.
“Quanto maior o número de entregas ou corridas, maior costuma ser a remuneração. Esse modelo faz com que muitos trabalhadores reduzam o tempo de descanso, enfrentem jornadas prolongadas, negligenciem sinais de fadiga e, em alguns casos, ultrapassem os limites de velocidade. O resultado é um aumento significativo no risco de acidentes, lesões graves e adoecimento físico e emocional”, explica.
Segundo a especialista, a Medicina do Trabalho desempenha papel fundamental na prevenção de acidentes. As ações incluem direção segura, gerenciamento da fadiga, ergonomia, promoção da saúde mental e educação em saúde.
“Mesmo diante das novas relações de trabalho, investir em prevenção é essencial. O custo de um acidente vai muito além dos danos físicos. Além disso, afeta a renda do trabalhador e de sua família, sobrecarrega o sistema de saúde e gera impactos para toda a sociedade”, afirma.
Profissionais precisam conhecer seus direitos
Ana Paula Teixeira também destaca a importância de os trabalhadores conhecerem seus direitos. Dependendo da situação e da contribuição ao sistema previdenciário, eles podem ter acesso a benefícios do INSS em caso de incapacidade temporária.
Além disso, algumas plataformas oferecem coberturas securitárias aos profissionais cadastrados. Por isso, conhecer essas garantias pode fazer diferença em momentos de necessidade.
Prevenção reduz o risco de acidentes
Entre as principais medidas preventivas, a médica recomenda respeitar os limites de velocidade. Também orienta realizar pausas para descanso e alimentação, manter a manutenção preventiva dos veículos em dia e utilizar corretamente os equipamentos de proteção.
Da mesma forma, a especialista ressalta a importância da direção defensiva e dos cuidados com a saúde física e mental. Segundo ela, pequenas atitudes podem reduzir significativamente o risco de acidentes durante a jornada de trabalho.
“Por trás de cada entrega existe uma pessoa que depende daquele trabalho para sustentar sua família. A pressa nunca pode valer mais do que uma vida”, conclui.

