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Nem toda violência contra a pessoa idosa deixa marcas: saiba identificar os sinais

JUNHO VIOLETA

No Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, especialistas alertam para agressões silenciosas que afetam a saúde física e mental. Caminhada acontece em Salvador neste domingo (14).

Tempo de Leitura: 5 minutos

Envelhecer é carregar histórias, afetos, aprendizados e memórias construídas ao longo de uma vida inteira. É um direito que deveria ser vivido com autonomia, respeito e segurança. Mas nem toda violência chega em forma de agressão. Às vezes, ela se manifesta no prato que não chega à mesa, no remédio que deixa de ser comprado, na conversa que nunca acontece ou na solidão imposta a quem já contribuiu tanto para a sociedade.

Por trás de muitos casos de violência contra pessoas idosas existem sinais silenciosos que passam despercebidos por familiares, vizinhos e amigos. Por isso, especialistas alertam para a importância de reconhecer esses indícios e agir diante de qualquer suspeita.

O tema ganha ainda mais visibilidade neste mês com a campanha Junho Violeta e com o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho. Em Salvador, a mobilização contará com a 2ª Caminhada Viver sem Violência, promovida pela Polícia Civil da Bahia, por meio do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV) e da Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (DEATI).

A ação acontece no sábado (14), às 8h, com saída do Morro do Cristo, na Barra, e é aberta ao público.

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Denúncias contra idosos seguem em alta no Brasil

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostram que o Disque 100 registrou 179,6 mil denúncias envolvendo pessoas idosas em 2024. A negligência apareceu como a principal forma de violência denunciada, representando 17,5% dos registros.

Grande parte dessas ocorrências acontece dentro do ambiente familiar, o que dificulta a identificação dos casos e reforça a importância da participação de familiares, vizinhos, amigos e profissionais de saúde na proteção da pessoa idosa.

Bahia registra mais de mil denúncias em cinco meses

Na Bahia, os números também acendem um alerta. Dados divulgados pela Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso apontam que, entre janeiro e maio de 2025, foram registradas 1.425 denúncias envolvendo pessoas idosas, com predominância de casos relacionados à violência patrimonial e maus-tratos.

O cenário acompanha uma tendência nacional e evidencia a necessidade de fortalecer as redes de apoio e os mecanismos de proteção à população idosa.

Pessoas com demência estão entre as mais vulneráveis

A preocupação é ainda maior quando se trata de idosos com comprometimento cognitivo.
Estudos internacionais apontam que entre 25% e 50% das pessoas com demência podem sofrer algum tipo de abuso ou negligência ao longo da doença. Segundo a Sociedade Canadense de Alzheimer, idosos com demência apresentam risco significativamente maior de sofrer violência quando comparados àqueles sem comprometimento cognitivo.

Nesses casos, a dependência para atividades do dia a dia e as dificuldades de comunicação podem dificultar a denúncia e aumentar a vulnerabilidade.

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Como identificar sinais de violência contra a pessoa idosa

Nem sempre a violência contra a pessoa idosa deixa marcas físicas. Muitas vezes, os sinais aparecem por meio de mudanças no comportamento, na aparência ou na rotina.

De acordo com a terapeuta ocupacional Joice Paixão, é importante ampliar o entendimento sobre o que caracteriza a violência contra a pessoa idosa. Segundo ela, além das agressões físicas e verbais, a negligência também deve ser vista como uma forma de violência e exige atenção da sociedade.

A violência contra a pessoa idosa nem sempre deixa marcas visíveis. Mudanças como emagrecimento, descuido com a higiene, isolamento social e redução da comunicação podem ser sinais de alerta. Muitas vezes, a pessoa idosa depende do apoio de familiares para buscar medicamentos, fazer compras ou garantir uma alimentação adequada. Quando esses cuidados deixam de ser oferecidos, estamos diante de situações que podem configurar negligência. Por isso, familiares, amigos e vizinhos precisam estar atentos e ligar o sinal de alerta diante de qualquer mudança que indique descuido ou vulnerabilidade“, ressalta Joice Paixão.

Sinais que merecem atenção

Emagrecimento sem causa aparente;
• Falta de higiene pessoal;
• Roupas inadequadas para o clima ou situação;
• Isolamento social repentino;
• Tristeza, apatia ou ansiedade;
• Falta de acesso a medicamentos;
• Desnutrição;
• Lesões recorrentes;
• Mudanças bruscas de comportamento;
• Dependência excessiva de terceiros para acesso a recursos financeiros.

A violência vai além das agressões físicas

A violência contra a pessoa idosa pode se manifestar de diversas formas:

• Violência física;
• Violência psicológica;
• Violência financeira ou patrimonial;
• Negligência;
• Abandono;
• Violência institucional;
• Violência sexual.

Em muitos casos, mais de um tipo de violência ocorre simultaneamente.

A violência psicológica, por exemplo, está entre as formas mais silenciosas de agressão. Diferentemente das lesões físicas, seus efeitos costumam aparecer por meio do sofrimento emocional e da perda da autoestima.

De acordo com a psicóloga Myrian Galvão, a violência psicológica contra a pessoa idosa pode provocar sentimentos de inutilidade, solidão, insegurança e perda de pertencimento. Situações como humilhações, desqualificação, falta de escuta, isolamento e até a infantilização do idoso comprometem sua autoestima e aumentam o risco de ansiedade e depressão.

A pessoa idosa precisa ser vista, ouvida e respeitada como sujeito, com direito de fazer escolhas, manter relações, ter sonhos e projetos de vida. Isso é promoção de saúde mental“, destaca, Myrian Galvão.

A especialista ressalta que preservar a autonomia, a dignidade e o protagonismo da pessoa idosa é fundamental para o envelhecimento saudável e para a prevenção de diferentes formas de violência.

Como denunciar

Qualquer pessoa pode denunciar suspeitas ou casos confirmados de violência contra idosos.

Os principais canais são:

• Disque 100, com atendimento gratuito e funcionamento 24 horas;
• Delegacias especializadas;
• Ministério Público;
• Conselhos Municipais da Pessoa Idosa;
• Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).

A denúncia pode ser realizada de forma anônima.

Serviço

2ª Caminhada Viver sem Violência
Data: 14 de junho de 2026
Horário: 8h
Saída do Morro do Cristo, Barra, Salvador
Participação gratuita e aberta ao público

idosos caminhada
Imagem: Divulgação

Conscientização é responsabilidade de todos

Com o envelhecimento da população brasileira, combater a violência contra a pessoa idosa torna-se uma responsabilidade coletiva. Reconhecer os sinais, denunciar situações suspeitas e promover uma cultura de respeito são atitudes essenciais para garantir dignidade, segurança e qualidade de vida.

A caminhada promovida em Salvador reforça justamente essa mensagem: a violência contra pessoas idosas pode ser silenciosa, mas não deve permanecer invisível.

 

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