Às vésperas da Páscoa, o consumo de chocolate cresce e, com ele, a preocupação com a qualidade dos produtos. Nesse cenário, a Câmara dos Deputados aprovou, em 17 de março, um projeto de lei que estabelece critérios mais rigorosos para classificar chocolates no Brasil.
O tema ganha ainda mais relevância diante do alto consumo no país. Segundo a Kantar, o chocolate está presente em 93% dos lares brasileiros. Além disso, dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (ABICAB) indicam que o consumo médio anual gira em torno de 3,9 kg por pessoa. Em nota, ela contesta a nova lei. Confira aqui.
A proposta define percentuais mínimos de cacau e exige maior clareza na rotulagem. Assim, de acordo com os especialistas, o objetivo é melhorar a informação ao consumidor e incentivar escolhas mais conscientes.

O que muda com a nova legislação
Pelas novas regras, chocolates intensos deverão ter, no mínimo, 35% de cacau. Atualmente, a exigência da Anvisa é de 25%. Além disso, o projeto estabelece parâmetros para outras categorias. O chocolate em pó deverá ter mínimo de 32% de cacau.
Já o chocolate ao leite exigirá 25% de cacau e 14% de leite. No caso do chocolate branco, será necessário 20% de manteiga de cacau e 14% de sólidos lácteos. Com isso, a composição dos produtos tende a se tornar mais transparente para o consumidor.
Mais cacau, melhor qualidade nutricional
Segundo a nutricionista Polyana Baptista Gomes, do Hospital Santa Paula, da Rede Américas, a mudança pode impactar diretamente a saúde da população.
“Os efeitos vão além da prateleira e influenciam diretamente decisões relacionadas à saúde. Isso porque o cacau é o principal responsável pelos potenciais benefícios associados ao chocolate, por concentrar compostos bioativos, como flavonoides, cuja ação antioxidante e moduladora contribui para proteção celular“, afirma.

Além disso, ela destaca que produtos com maior teor de cacau tendem a ter menos açúcar e gordura. “Quando há maior concentração de cacau, há também menor espaço para adição de açúcares e gorduras, o que impacta diretamente o perfil do produto”, afirma.
Consumo deve ser equilibrado
Apesar dos benefícios, o consumo exige moderação. A recomendação é priorizar chocolates com 70% de cacau ou mais, sem exageros.
“O ideal é priorizar opções com maior teor de cacau, como 70% ou mais, e evitar o consumo frequente em grandes quantidades. O equilíbrio é fundamental para que o alimento não deixe de ser um prazer e passe a representar um risco”, completa.
Ainda assim, dietas ricas em açúcar e gordura seguem sendo um ponto de atenção. “Dietas com excesso de açúcar e gordura podem contribuir para o ganho de peso, alterações metabólicas e aumento do risco de doenças crônicas ao longo do tempo. No caso de produtos com baixo teor de cacau, o chocolate deixa de oferecer potenciais benefícios e passa a ser predominantemente uma fonte desses ingredientes”, diz.
Crianças exigem atenção redobrada
No caso do público infantil, o cuidado deve ser ainda maior. Durante a Páscoa, o consumo tende a aumentar, o que exige orientação dos responsáveis. Esse cenário reforça o impacto da nova legislação, já que, de acordo com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, 41% dos brasileiros consomem chocolate ao menos uma vez por semana.

A endocrinologista pediátrica Nara Evangelista, do Hospital Samaritano Higienópolis, reforça a importância da moderação.
“O consumo exagerado de açúcar na infância está associado a um maior risco de obesidade, alterações metabólicas e até à formação precoce de hábitos alimentares inadequados. Na Páscoa, a orientação não é proibir, mas estabelecer limites e priorizar opções com maior teor de cacau, além de incentivar o consumo consciente e equilibrado“, explica.
Clareza na informação favorece escolhas
Por fim, a nova legislação também tem impacto educativo. A transparência na rotulagem pode ajudar consumidores a entender melhor o que estão consumindo.
“Ter mais clareza sobre o que está sendo consumido é fundamental para a saúde, principalmente no caso das crianças, que são mais vulneráveis aos efeitos do excesso de ingredientes de baixo valor nutricional”, afirma.
Entender a composição dos alimentos é um passo importante para evitar o consumo frequente de ultraprocessados e promover hábitos mais equilibrados desde cedo.

