O Brasil está entre os maiores mercados de procedimentos estéticos do mundo, e o ácido hialurônico permanece entre as substâncias mais utilizadas em intervenções não cirúrgicas. A expansão dos preenchimentos também alcança procedimentos corporais, como os voltados ao contorno dos glúteos e à região íntima masculina.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), porém, alerta que produtos injetáveis devem ser utilizados de acordo com as indicações, regiões anatômicas e volumes previstos nas instruções de uso aprovadas.
Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) mostram que, em 2024, foram realizados aproximadamente 6,3 milhões de procedimentos com ácido hialurônico no mundo, aumento de 5,2% em relação ao ano anterior.
Considerando o conjunto de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos, o Brasil ocupou a segunda posição mundial em 2024, com aproximadamente 3,1 milhões de procedimentos. Os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar, com mais de 6,1 milhões.
O Brasil já havia aparecido em posição de destaque especificamente no uso de ácido hialurônico. Em 2019, o país registrou 398.830 procedimentos com a substância, equivalentes a 9,2% do total mundial daquele ano, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com 679.167.
Os números de 2019 e 2024, entretanto, representam recortes diferentes. O primeiro ranking se refere especificamente a procedimentos com ácido hialurônico, enquanto a posição de Brasil e Estados Unidos em 2024 considera o conjunto de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos.

Procura inclui procedimentos nos glúteos e na região íntima masculina
Em Salvador, profissionais do setor relatam procura por procedimentos menos invasivos destinados a modificar volume, contorno e proporções corporais.
A farmacêutica Karine Andrade atua há cinco anos na área de estética e harmonização corporal e afirma que, nos últimos três anos, passou a atender também pacientes interessados em procedimentos voltados à região íntima masculina.
Segundo a profissional, seus pacientes vêm de diferentes regiões da Bahia, incluindo Feira de Santana, além de outros estados. Entre as demandas relatadas estão procedimentos destinados ao aumento de volume e à melhora do contorno dos glúteos e intervenções íntimas masculinas voltadas ao aumento da circunferência peniana.
“Hoje recebemos pessoas que procuram desde a harmonização do bumbum, com melhora de volume e contorno, até procedimentos íntimos masculinos voltados ao aumento do diâmetro e à melhora da proporção do pênis. A avaliação individual é fundamental para definir o que é possível realizar e qual resultado é realista”, afirma Karine.
A farmacêutica relata ainda que mantém pacientes que retornam periodicamente para novos procedimentos e que alguns associam os resultados a maior satisfação com a própria aparência e autoestima.
Essas percepções representam relatos da profissional e de seus pacientes e não devem ser interpretadas, isoladamente, como comprovação de benefícios psicológicos ou terapêuticos decorrentes dos procedimentos.

Ácido hialurônico não significa autorização para qualquer aplicação
A popularização dos preenchimentos exige atenção não apenas à substância utilizada, mas também ao produto específico, à finalidade e à região do corpo em que será aplicado.
Em informe de segurança publicado em 2026, a Anvisa chamou atenção para o uso de preenchedores como ácido hialurônico, polimetilmetacrilato (PMMA), hidroxiapatita de cálcio e ácido poli-L-láctico (PLLA). Segundo a Agência, esses produtos são dispositivos médicos classificados nas categorias de maior risco sanitário.
O alerta menciona a disseminação de aplicações em diferentes regiões corporais, incluindo procedimentos destinados ao aumento dos glúteos e da genitália masculina.
A Anvisa adverte que a aplicação em região anatômica não prevista nas instruções de uso do produto, em volumes não autorizados ou associada a substâncias não aprovadas pode aumentar o risco de eventos adversos e complicações.
Isso significa que a expressão “ácido hialurônico” não deve ser entendida como autorização genérica para aplicação de qualquer produto dessa categoria em qualquer parte do corpo. É necessário verificar o registro do produto e se a finalidade, a região anatômica e as condições de aplicação estão previstas nas instruções aprovadas pela autoridade sanitária.
PMMA é permanente e tem uso restrito
O polimetilmetacrilato (PMMA) exige atenção adicional por ser um material permanente e não absorvível.
Embora existam produtos à base de PMMA registrados no Brasil, a existência do registro não significa autorização para seu uso indiscriminado com finalidade estética. A Anvisa já esclareceu que as indicações aprovadas são específicas e não contemplam simplesmente o aumento estético de volume dos glúteos.
Em reavaliação divulgada em 2025, a Agência manteve as indicações dos produtos de PMMA já aprovados no país e reiterou que eles devem ser utilizados de acordo com as finalidades previstas no registro e nas instruções dos fabricantes.
Em 2026, novas restrições profissionais também foram estabelecidas. O Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu médicos de utilizar PMMA como preenchedor, mantendo exceção específica para o tratamento de lipodistrofia associada ao HIV/aids no Sistema Único de Saúde, conforme os protocolos oficiais. O Conselho Federal de Odontologia (CFO) também proibiu o uso de PMMA para fins estéticos por cirurgiões-dentistas.
Além das restrições regulatórias, o caráter permanente da substância torna particularmente relevantes os riscos associados a uma aplicação inadequada.
Como verificar um produto antes do procedimento
A Anvisa mantém uma ferramenta pública que permite consultar a situação de produtos sujeitos à vigilância sanitária. A busca pode ser feita por informações como nome ou marca, CNPJ da empresa, número de registro ou número do processo.
Um produto aparecer como regularizado, contudo, não encerra a verificação. Também é necessário conferir se a indicação pretendida e a região do corpo em que será aplicado correspondem às condições autorizadas para aquele produto.
A Agência também proíbe farmácias de manipulação de fabricar preenchedores intradérmicos. Por isso, o paciente deve desconfiar de produtos manipulados apresentados como alternativa para esse tipo de preenchimento.
A habilitação do profissional é outro ponto que deve ser verificado no respectivo conselho profissional. No caso dos farmacêuticos, o Conselho Federal de Farmácia informa que profissionais habilitados em saúde estética e regularmente inscritos no Conselho Regional de Farmácia podem realizar procedimentos previstos em sua regulamentação, incluindo preenchimentos facial e corporal com ácido hialurônico que atendam às exigências sanitárias.
Essa autorização profissional, porém, não substitui as regras aplicáveis ao produto. Para procedimentos em regiões específicas, é necessário verificar se o preenchedor escolhido possui indicação compatível com a aplicação pretendida.
Cuidados continuam depois da aplicação
Karine Andrade destaca que os cuidados não terminam no momento do procedimento e afirma orientar seus pacientes sobre as medidas posteriores à aplicação.
“O resultado e a segurança não dependem apenas da aplicação. É fundamental seguir corretamente todas as orientações do pós-procedimento, principalmente em relação à higiene, repouso e massagens, quando indicadas”, afirma.
As recomendações posteriores podem variar de acordo com o produto, o procedimento e as condições individuais. Por isso, orientações específicas devem seguir as instruções aplicáveis ao produto utilizado e a avaliação do profissional responsável.
Antes de realizar um procedimento injetável, o paciente deve saber qual substância e qual produto serão utilizados, verificar sua regularização, conhecer a finalidade e a região corporal para as quais foi aprovado e conferir a habilitação do profissional responsável.
A expansão dos procedimentos estéticos não elimina esses critérios. Ao contrário: diante da variedade de produtos e técnicas disponíveis, identificar exatamente o que será aplicado e em quais condições é uma etapa fundamental para uma decisão mais informada.


