O jeito como o pai girava a chave na fechadura anunciava o que poderia acontecer dentro de casa. Ainda criança, T. F. aprendeu a reconhecer naquele movimento os sinais de um dia tranquilo ou de mais um episódio de violência.
Hoje, aos 38 anos, T. F., identificada apenas pelas iniciais para preservar sua identidade, se lembra de uma infância marcada pelo medo. Segundo seu relato, a mãe sofria violência física, psicológica, financeira e patrimonial. Os filhos conviviam com agressões e ameaças, em um ambiente no qual pequenas situações podiam desencadear reações imprevisíveis.
Aos seis anos, T. F. já assumia responsabilidades para tentar evitar conflitos. Verificava se tarefas da casa haviam sido cumpridas e procurava antecipar o que pudesse provocar a ira do pai.
“Eu não gostaria de ter perdido a minha infância assumindo responsabilidades que eu não precisava”, afirma.
A entrevistada conta que não recebeu acompanhamento psicológico naquele período. O sofrimento começou a interferir na escola, mas ela permaneceu em silêncio sobre o que acontecia em casa.
“Eu sofria calada. Eu não contava pra ninguém.”
Décadas depois, T. F. ainda procura compreender as marcas daquela experiência. Relata ter enfrentado relacionamentos abusivos e períodos de intenso sofrimento emocional. Na avaliação que faz da própria trajetória, a violência vivida na infância influenciou sua maneira de construir vínculos afetivos.
Na Bahia, documentos obtidos pela reportagem mostram que existem medidas judiciais e serviços especializados para proteger crianças e adolescentes. Mas revelam também uma dificuldade: os registros disponíveis à gestão estadual da assistência social não permitem identificar quantos filhos de mulheres em situação de violência doméstica recebem acompanhamento.
As marcas da violência na infância
Uma criança não precisa sofrer agressões físicas diretamente para apresentar consequências emocionais da violência doméstica, explica a psiquiatra Patrícia Piper, que atua na área de saúde mental materna.
Segundo a especialista, crescer em um ambiente marcado por ameaças pode comprometer a percepção de segurança e influenciar o desenvolvimento emocional. Uma das reações possíveis é a hipervigilância: o estado de atenção constante a sinais de perigo. A criança passa a observar o humor dos adultos, os sons da casa e pequenas mudanças de comportamento, sempre atenta à possibilidade de novos episódios de violência.
Piper aponta que também podem surgir alterações no sono, ansiedade, dificuldades escolares e comportamentos incompatíveis com a idade, como assumir a responsabilidade de proteger a mãe ou os irmãos. As manifestações variam conforme a intensidade da exposição, a fase do desenvolvimento e a presença de vínculos seguros e redes de apoio.
Na avaliação da psiquiatra, experiências de violência na infância podem estar associadas, na vida adulta, a sofrimento psicológico, incluindo sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades nos relacionamentos. Isso não significa, porém, que todas as crianças expostas à violência desenvolverão transtornos ou repetirão padrões familiares.
T. F. relata que enfrentou uma depressão intensa na juventude. Mais tarde, viveu um casamento que descreve como abusivo.
“São traumas que eu lido até hoje”, diz.
Piper ressalta que a saúde mental é influenciada por múltiplos fatores. Experiências traumáticas podem contribuir para o sofrimento, mas não explicam isoladamente a trajetória de uma pessoa.

O medo de repetir a história
A maternidade trouxe a T. F. uma preocupação que ela considera central: não reproduzir com a filha o ambiente em que cresceu.
“O meu maior medo da minha vida é ser violenta com a minha filha”, diz.
Segundo a entrevistada, esse receio influenciou sua decisão de deixar o casamento.
T. F. afirma que, depois de um relacionamento longo, se preparou durante mais de dois anos para a separação. Buscou apoio profissional e contou com a ajuda de amigas.
“Foi muito apoio de mulheres”, resume.
A decisão exigiu mudanças na rotina e na vida financeira. “É perceber que a gente realmente vai dar um downgrade ali na nossa vida, óbvio”, conta, ao falar do impacto material.
Hoje, procura valorizar momentos simples com a filha. Conta, por exemplo, que ensinou à criança a dança das cadeiras e se divertiu ao vê-la rir durante a brincadeira.
Para Piper, a interrupção da violência, a presença de adultos protetivos e o acesso a cuidados adequados podem favorecer a recuperação emocional. A busca por ajuda também pode produzir benefícios mesmo quando acontece somente na vida adulta.
Na avaliação da especialista, a identificação de crianças expostas à violência doméstica deve levar à análise de suas condições de segurança e necessidades psicossociais, sem pressupor que todas precisem de tratamento psiquiátrico.
Quando a violência chega ao Estado, quem olha para os filhos?
Entre janeiro e setembro de 2026, a Polícia Civil da Bahia registrou 84 feminicídios, 217 tentativas de feminicídio, 20.448 ocorrências de ameaça, 11.576 registros de lesão corporal e 4.174 descumprimentos de medidas protetivas de urgência envolvendo vítimas do sexo feminino.
Os dados fornecidos à reportagem não discriminam quantas dessas ocorrências aconteceram no contexto doméstico nem informam quantas vítimas tinham filhos ou quantas crianças presenciaram a violência. Os registros também não correspondem necessariamente a mulheres distintas.
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) prevê instrumentos de proteção à mulher e a seus dependentes, e a Lei Henry Borel (Lei nº 14.344/2022) cria medidas protetivas de urgência específicas para crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica e familiar.
A Lei nº 13.431/2017, conhecida como a Lei da Escuta Protegida, estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência.
Em resposta à reportagem, a desembargadora Nágila Maria Sales Brito, presidente da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), informou que a análise de pedidos de medidas protetivas pode considerar os riscos enfrentados pelos filhos.
“Um dos principais desafios é garantir a continuidade da proteção após a adoção das medidas judiciais. A exposição à violência doméstica pode deixar marcas profundas no desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes, com repercussões que podem se estender até a vida adulta”, afirma.
Questionada sobre como o tribunal verifica se os encaminhamentos determinados judicialmente são efetivamente realizados, a desembargadora afirma que a efetividade dessa proteção exige uma atuação articulada entre o Judiciário, os órgãos de segurança pública, os Conselhos Tutelares e os serviços de saúde e assistência social, respeitadas as competências de cada instituição.
A resposta não detalhou um mecanismo específico de verificação nem apresentou indicadores sobre a efetivação desses encaminhamentos.
Na Defensoria Pública da Bahia, crianças e adolescentes expostos à violência também podem ter suas demandas encaminhadas a um núcleo especializado.
A defensora pública Carolina Araújo, coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem Bahia), explicou que o setor presta assistência jurídica às mulheres. Quando identifica filhos expostos à violência, direta ou indiretamente, registra a situação no sistema institucional e encaminha a demanda ao Dedica, núcleo especializado na defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
O que os dados da assistência social não mostram
A dificuldade de acompanhar o percurso dessas crianças aparece de maneira mais explícita em um informe técnico da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Bahia (Seades), datado de 23 de outubro de 2026.
Segundo o documento, os registros disponíveis à gestão estadual não permitem relacionar as informações das mulheres em situação de violência doméstica com as de seus filhos.
Em 2025, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) da Bahia registraram 4.347 casos de crianças e adolescentes vítimas de violência intrafamiliar física ou psicológica em acompanhamento.

No mesmo ano, foram contabilizados 3.084 casos de mulheres entre 18 e 59 anos vítimas de violência intrafamiliar física, psicológica ou sexual.
Os números pertencem a categorias distintas. Não é possível concluir que as crianças sejam filhas das mulheres registradas, nem que todas tenham testemunhado violência contra suas mães.
A Seades informou ainda que não consegue consolidar, especificamente para esse público, dados sobre encaminhamentos à saúde mental nem sobre a duração ou a interrupção do acompanhamento.
De acordo com a secretaria, os prontuários mantidos pelos municípios podem conter informações individualizadas, mas esses registros não estão disponíveis para o cruzamento pretendido na base estadual.

A limitação dos dados estaduais não significa ausência de atendimento. Significa que as informações apresentadas não permitem dimensionar quantos filhos de mulheres em situação de violência foram acompanhados nem avaliar, de forma consolidada, a continuidade desse cuidado.
A secretaria esclareceu também que não existe protocolo específico de inclusão automática desses filhos no acompanhamento familiar realizado pelo Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI). A participação depende da avaliação das necessidades de cada família.
A distribuição dos serviços é outro aspecto relevante. Dos 417 municípios baianos, 287 possuem CREAS e 130 não contam com a unidade, segundo a Seades. Embora o serviço esteja presente nos 27 Territórios de Identidade, a cobertura não alcança todos os municípios. O informe não detalha como é organizado o acesso ao atendimento especializado nas localidades sem CREAS.

Uma infância que não precisa se repetir
T. F. não pode recuperar a infância marcada pelo medo. Mas acredita que pode oferecer à filha experiências diferentes.
Hoje, procura oferecer à filha uma infância com afeto, proteção e espaço para brincar.
O que considera essencial é “cercar as nossas crianças de amor e proteger elas de passar por esse tipo de coisa”.
Para crianças que, como T. F., aprendem cedo a reconhecer o perigo, crescer em segurança não deveria depender apenas de conseguir sobreviver a ele.
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