As festas juninas movimentam cidades de todo o Nordeste e reúnem milhares de pessoas em celebrações marcadas por tradições como fogueiras, fogos de artifício, quadrilhas e comidas típicas. Apesar do clima festivo, o período também exige atenção aos riscos para a saúde. Queimaduras, acidentes com explosivos e agravamento de doenças respiratórias costumam aumentar durante os festejos, afetando principalmente crianças, idosos e pessoas com condições de saúde preexistentes.
Na Bahia, onde as comemorações de Santo Antônio, São João e São Pedro atraem moradores e turistas para diversas cidades do interior, os serviços de saúde registram crescimento na procura por atendimento relacionado a acidentes típicos da época. Somente no ano passado, hospitais públicos do estado contabilizaram 72 ocorrências envolvendo queimaduras durante o período junino. Desse total, 24 casos tiveram relação com fogueiras ou fogos de artifício, enquanto outros 48 foram provocados por explosões de bombas.
O número representa aumento em comparação com o registrado em 2024, quando foram contabilizados 66 casos no mesmo período. Os dados reforçam a necessidade de cuidados preventivos para evitar ocorrências que podem deixar sequelas permanentes e, em situações mais graves, colocar vidas em risco.

Queimaduras lideram atendimentos durante o período junino
Segundo a professora da Afya Educação Médica Salvador e dermatologista Camila Sampaio, as queimaduras estão entre os acidentes mais frequentes nas festas juninas. O problema pode ocorrer por contato direto com chamas, explosões de fogos, superfícies aquecidas ou até mesmo por faíscas que atingem a pele.
“Durante o São João, a pele fica mais exposta a fatores que podem causar irritações e lesões. A fumaça das fogueiras pode ressecar e sensibilizar a pele, principalmente em pessoas com dermatite, alergias ou pele mais sensível. O calor intenso também favorece irritações, suor excessivo e aumento de quadros como brotoejas e dermatites. Já a pólvora e os fogos de artifício representam risco importante de queimaduras, manchas e até lesões mais profundas na pele”, explica a especialista.
Além das queimaduras de menor gravidade, acidentes com fogos de artifício podem provocar lesões severas em mãos, braços, rosto e olhos. Em situações extremas, há risco de amputações e comprometimento permanente da visão.
Crianças estão entre as principais vítimas desses acidentes. Muitas vezes, a curiosidade e a falta de percepção do perigo fazem com que elas se aproximem de fogueiras ou tentem manusear artefatos explosivos sem supervisão adequada.
Dados nacionais reforçam alerta para acidentes
Os números registrados em todo o país mostram que os acidentes relacionados aos festejos juninos continuam sendo um desafio para os serviços de saúde.
Entre 2018 e 2022, mais de 5 mil atendimentos hospitalares relacionados a acidentes com fogos de artifício foram registrados no Brasil. O aumento das ocorrências é observado principalmente nos meses de junho e julho, quando as celebrações ganham força em diversas regiões do país.
Já em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 4.809 internações por queimaduras e 34.567 atendimentos ambulatoriais relacionados ao problema. Embora esses números contemplem ocorrências de diferentes causas, especialistas destacam que o período junino contribui significativamente para o crescimento da demanda por atendimento.
No Nordeste, onde as festas possuem maior dimensão cultural e econômica, os hospitais costumam reforçar equipes e estruturas para atender possíveis emergências relacionadas a queimaduras e acidentes com explosivos.
Fumaça das fogueiras também oferece riscos à saúde
Além dos acidentes causados pelo fogo, a fumaça produzida durante os festejos representa uma preocupação importante para médicos e profissionais de saúde.
A coordenadora do curso de pós-graduação em Pneumologia da Afya Educação Médica em Salvador e Vitória da Conquista, Dra. Maria Cecília, explica que tanto as fogueiras quanto os fogos de artifício liberam partículas e substâncias capazes de irritar as vias respiratórias.
“A fumaça das fogueiras contém partículas finas e gases irritantes que podem inflamar as vias aéreas. Já os fogos de artifício liberam fumaça, resíduos químicos e partículas que também irritam o sistema respiratório. Em pessoas com asma, bronquite, DPOC, rinite e outras doenças respiratórias, essa exposição pode desencadear crises, piorar sintomas já existentes e aumentar o risco de necessidade de atendimento médico de urgência”, afirma.
Segundo a especialista, mesmo períodos curtos de exposição podem provocar desconforto respiratório em pessoas mais sensíveis. Tosse, falta de ar, chiado no peito, irritação nos olhos e congestão nasal estão entre os sintomas mais comuns.
Além disso, a combinação entre clima mais seco, maior concentração de fumaça e circulação intensa de pessoas em ambientes fechados pode favorecer o agravamento de quadros respiratórios durante as festas.

Grupos mais vulneráveis exigem atenção redobrada
Algumas pessoas apresentam maior risco de desenvolver complicações durante o período junino. Crianças, idosos, gestantes e pacientes com doenças respiratórias crônicas precisam adotar cuidados extras para evitar problemas de saúde.
No caso das crianças, a recomendação é manter distância segura de fogueiras e impedir o manuseio de fogos de artifício. Já idosos e pessoas com asma, bronquite, rinite ou doença pulmonar obstrutiva crônica devem evitar permanecer próximos a locais com grande concentração de fumaça.
Pacientes que fazem uso contínuo de medicamentos respiratórios também devem seguir corretamente o tratamento e manter os remédios de resgate sempre acessíveis durante os festejos.
O que fazer em caso de queimadura
Quando ocorre uma queimadura, a adoção de medidas corretas nos primeiros minutos pode reduzir danos à pele e favorecer a recuperação.
Camila Sampaio alerta que receitas caseiras ainda são utilizadas por muitas pessoas, apesar dos riscos associados a essas práticas.
“É muito importante evitar, em casos de queimaduras, receitas caseiras como pasta de dente, manteiga, café, clara de ovo, álcool ou pomadas sem orientação médica. Essas substâncias podem piorar o quadro, aumentar o risco de infecção e dificultar a cicatrização. O correto é lavar a região com água corrente, proteger a área com um pano limpo ou gaze e buscar avaliação médica. Após a recuperação, o acompanhamento dermatológico pode ajudar a prevenir manchas e cicatrizes”, destaca.
Os especialistas também orientam procurar atendimento imediato quando a queimadura atingir áreas extensas do corpo, rosto, mãos, pés ou regiões íntimas, além de situações em que haja sinais de infecção ou dor intensa.
Prevenção é a melhor forma de aproveitar o São João com segurança
Para reduzir os riscos durante as festas juninas, os especialistas recomendam manter distância segura das fogueiras, evitar acender fogos próximos a outras pessoas, supervisionar constantemente as crianças e optar por ambientes bem ventilados.
Além disso, manter-se hidratado, utilizar roupas adequadas e respeitar as orientações de segurança para o uso de fogos de artifício são medidas importantes para prevenir acidentes.
Com cuidados simples e atenção aos riscos, é possível aproveitar as tradições do São João de forma mais segura. Dessa forma, a população pode celebrar um dos períodos mais aguardados do calendário nordestino sem comprometer a saúde e o bem-estar.


