O sono pode ficar mais leve, apresentar mais interrupções e começar mais cedo com o avanço da idade. Essas mudanças, porém, não justificam tratar noites persistentemente mal dormidas, sonolência excessiva ou pausas na respiração como consequências inevitáveis do envelhecimento.
No Dia do Idoso, celebrado em 1º de outubro, a médica do sono e pesquisadora Profª Dra. Cristina Salles chama atenção para a importância de incluir o sono na avaliação da saúde da pessoa idosa. Ronco intenso, despertares frequentes e dificuldades persistentes de atenção e memória estão entre os sinais que merecem investigação.
O tema ganha relevância com o envelhecimento da população brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024. Em 2012, eram cerca de 22 milhões, um crescimento de 53,3% no período.
O que muda no sono com a idade?
Envelhecer pode modificar os horários e a continuidade do sono. Algumas pessoas passam a dormir e acordar mais cedo ou percebem maior dificuldade para manter o descanso ao longo da noite.

A necessidade de dormir, entretanto, permanece. O National Institute on Aging (NIA), órgão dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), informa que pessoas idosas geralmente precisam de sete a nove horas de sono por noite, assim como outros adultos.
Para Dra. Cristina Salles, distinguir mudanças próprias do envelhecimento de manifestações de um distúrbio é essencial para evitar que sintomas importantes sejam ignorados.
“Costumamos dizer que o sono é um espelho da saúde cerebral. Quando um idoso apresenta apneia, ocorrem quedas repetidas da oxigenação durante a noite. Ao longo do tempo, essas alterações podem afetar memória, atenção e outras funções cognitivas, além de contribuir para o agravamento de problemas de saúde que precisam ser investigados”, explica.
Quando o ronco pode indicar apneia?
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando as vias aéreas superiores sofrem obstruções repetidas enquanto a pessoa dorme, reduzindo ou interrompendo a passagem de ar. Esses episódios podem comprometer a oxigenação e fragmentar o descanso.
Segundo o National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI), também integrante dos NIH, a apneia sem tratamento pode aumentar o risco de problemas como hipertensão arterial, infarto e acidente vascular cerebral.
O ronco é um dos sinais que podem levantar a suspeita, mas, isoladamente, não confirma o diagnóstico. Pausas respiratórias percebidas por familiares, engasgos durante a noite e sonolência excessiva durante o dia também devem ser relatados na consulta.

Essa observação é importante porque a pessoa nem sempre percebe o que acontece enquanto dorme. O relato de quem acompanha sua rotina pode ajudar a identificar alterações e orientar a investigação.
Memória, atenção e autonomia também merecem cuidado
As repercussões do sono ruim podem aparecer nas atividades do dia seguinte. Cansaço e dificuldade de concentração podem comprometer tarefas cotidianas e a segurança ao realizá-las.
“O idoso que dorme mal pode apresentar perda de autonomia, maior risco de quedas e pior controle de doenças cardiovasculares. Por isso, sintomas como ronco intenso, pausas respiratórias percebidas por familiares, despertares frequentes, sonolência excessiva durante o dia e alterações cognitivas não devem ser ignorados”, afirma a médica.
Esses sinais exigem avaliação individualizada. Esquecimentos, quedas e alterações cardiovasculares podem ter diferentes causas, e não devem ser atribuídos automaticamente a um distúrbio do sono.
Da mesma forma, investigar a relação entre apneia e cognição não significa afirmar que toda pessoa com o distúrbio desenvolverá demência. A distinção entre associação e causa é importante para informar o público sem antecipar conclusões.
Pesquisa na Bahia avalia apneia e impactos cognitivos
A relação entre apneia obstrutiva do sono e cognição está entre os temas de um projeto coordenado pela Profª Dra. Cristina Salles na Bahia.
Intitulado “Avaliação integrada de custo-efetividade do CPAP na apneia obstrutiva do sono em idosos: impactos cognitivos e relação com o sistema glinfático no contexto do SUS na Bahia”, o estudo foi aprovado no âmbito do Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS/FAPESB). A iniciativa está entre os projetos da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública apresentados no Seminário Marco Zero do programa.

O CPAP é um equipamento que mantém as vias aéreas abertas por meio de pressão positiva contínua. Seu uso está entre as opções de tratamento da apneia, conforme indicação profissional.
O projeto busca avaliar o tratamento no contexto do SUS na Bahia, considerando custos e possíveis impactos cognitivos. Trata-se de uma investigação, e não de resultados já demonstrados sobre prevenção de demência ou preservação da autonomia.
Quais sinais devem ser relatados na consulta?
Algumas manifestações ajudam a orientar a avaliação do sono:
• Ronco intenso e frequente.
• Pausas na respiração observadas por familiares.
• Engasgos ou sensação de sufocamento durante a noite.
• Despertares repetidos.
• Sonolência excessiva durante o dia.
• Cansaço frequente ao acordar.
• Dificuldades persistentes de atenção ou memória.
• Mudanças prolongadas no padrão habitual de sono.
A presença de um desses sinais não confirma, por si só, uma doença. A investigação considera o histórico clínico, os sintomas e, quando necessário, exames do sono. O NHLBI recomenda avaliação profissional quando a sonolência ou o cansaço persistem e interferem na rotina.
Entre os exames que podem ser indicados está a polissonografia, que registra parâmetros como respiração, oxigenação e atividade cerebral durante o sono.
Para Cristina Salles, ampliar o diagnóstico dos distúrbios respiratórios do sono deve fazer parte do cuidado integral à população idosa, inclusive na rede pública.
“Ampliar o diagnóstico dos distúrbios respiratórios do sono na rede pública significa atuar também na prevenção. Quando conseguimos identificar e tratar esses problemas de maneira adequada, podemos melhorar qualidade de vida e preservar por mais tempo a funcionalidade e a independência do paciente”, destaca.
O alerta neste 1º de outubro é incorporar as queixas de sono à avaliação da saúde, sem banalizá-las em razão da idade. Observar como a pessoa dorme e como se sente durante o dia pode ajudar a reconhecer problemas que precisam de cuidado.


