Encontrar receitas, cremes e procedimentos para combater a celulite na internet é fácil. O problema é que cada técnica atua de uma maneira diferente e nem todas apresentam o mesmo objetivo ou nível de evidência científica. Por isso, antes de escolher um procedimento, é importante entender o que provoca o aspecto irregular da pele e quais resultados cada recurso pode oferecer.
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a celulite, também chamada de lipodistrofia ginoide, aparece principalmente em regiões como coxas, quadris e nádegas. A condição não depende exclusivamente do peso: mulheres magras também podem apresentar celulite. A entidade explica ainda que fatores hereditários, hormonais e relacionados à distribuição de gordura podem influenciar o quadro.
O aspecto conhecido como “casca de laranja” envolve diferentes estruturas do tecido. Gordura localizada, pele e fibras do tecido conjuntivo participam da formação das depressões, o que ajuda a explicar por que apenas reduzir gordura corporal não resolve necessariamente todas as alterações.
Além disso, fatores hormonais, genéticos e a distribuição do tecido também podem influenciar a aparência da pele. A celulite aparece com frequência entre mulheres após a puberdade.
“Não existe um tratamento universal. Antes de escolher uma técnica, é preciso entender o que está contribuindo para a aparência da pele e quais são as expectativas possíveis. Um recurso que ajuda no edema, por exemplo, não necessariamente corrige uma depressão profunda”, diz a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto.
Eletrolipoforese
A eletrolipoforese utiliza agulhas finas associadas a uma corrente elétrica de baixa intensidade. O objetivo consiste em estimular respostas locais no tecido adiposo e na circulação, conforme os parâmetros utilizados pelo profissional.
No entanto, a técnica não equivale a um tratamento para emagrecimento e não oferece uma solução definitiva para a celulite. Antes da aplicação, o profissional precisa avaliar a região, as condições de saúde da paciente, o equipamento e os parâmetros utilizados.
Uma revisão científica disponível no PubMed analisou diferentes tratamentos para celulite e encontrou limitações metodológicas importantes em grande parte dos estudos. Entre 67 trabalhos avaliados, apenas 19 tinham controle com placebo e randomização.
“É importante esclarecer que a corrente não elimina gordura de forma automática. A indicação depende da avaliação do tecido, da região e das condições de saúde da paciente”, explica Mariana.
Drenagem linfática
A drenagem linfática utiliza movimentos leves e ritmados para favorecer o deslocamento de líquidos. Por isso, pode ajudar quando a paciente apresenta edema, sensação de peso ou inchaço associado à aparência da celulite.
Entretanto, a técnica não rompe as fibras que provocam depressões profundas, não “quebra” gordura e não promove uma suposta desintoxicação do organismo. Uma redução temporária de medidas também pode ocorrer por causa da movimentação de líquidos, e não necessariamente por perda de gordura.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia inclui a drenagem linfática entre as opções utilizadas no tratamento da celulite, mas destaca que existem diferentes abordagens e que os resultados variam conforme cada caso.
“Drenagem linfática não precisa causar dor nem deixar hematomas. Quando a queixa principal é retenção de líquido, ela pode melhorar o conforto, mas não deve ser vendida como tratamento único para todos os graus de celulite”, afirma a fisioterapeuta.

Ultrassom
O ultrassom utiliza ondas mecânicas aplicadas por meio de um cabeçote sobre a pele. Conforme os parâmetros empregados, o recurso pode produzir efeitos térmicos e mecânicos nos tecidos.
Na prática, profissionais podem incluir o ultrassom em protocolos que buscam trabalhar mobilidade dos tecidos, edema ou textura da pele. Porém, dizer simplesmente que o aparelho “quebra a gordura” não representa todos os mecanismos envolvidos e também não garante um resultado contra a celulite.
Uma revisão sistemática sobre tratamentos para celulite publicada em 2025 avaliou 24 ensaios clínicos randomizados, com 2.084 participantes. O trabalho analisou, entre outras abordagens, ultrassom, radiofrequência e terapias por ondas de choque. Os autores classificaram a qualidade geral das evidências como moderada.
O profissional também precisa considerar situações como alteração de sensibilidade, infecção, lesões na pele e outras condições clínicas antes de aplicar o recurso.
Thermojet
O Thermojet utiliza calor produzido por raios infravermelhos para aquecer a região tratada. O objetivo consiste em estimular respostas circulatórias e metabólicas locais dentro de um protocolo.
O aquecimento, porém, não significa que a gordura “derreta”. Durante a aplicação, o profissional precisa acompanhar a temperatura para reduzir o risco de queimaduras, principalmente quando a paciente apresenta alguma alteração de sensibilidade.
“Sentir calor intenso não é prova de eficácia. Ardência, dor ou desconforto precisam ser comunicados durante a aplicação”, alerta Mariana
Pressojet
O Pressojet utiliza botas que promovem compressão sequencial nos membros inferiores. Alguns protocolos também associam a técnica ao aquecimento.
A compressão pode favorecer o retorno venoso e linfático e aliviar a sensação de peso ou edema nas pernas. Contudo, o recurso não atua diretamente sobre as estruturas responsáveis pelas depressões profundas da celulite.
O profissional deve fazer uma avaliação antes da aplicação, especialmente quando existe suspeita de trombose, doença arterial, infecção ou insuficiência cardíaca descompensada. Portanto, o inchaço nas pernas, por si só, não deve determinar a indicação do procedimento.
Estimulação russa
A estimulação russa utiliza corrente elétrica para provocar contrações musculares, principalmente em regiões como glúteos e pernas.
O recurso pode complementar um trabalho de fortalecimento, mas não substitui a atividade física. Uma eventual melhora do contorno corporal também depende de fatores como força muscular, mobilidade, composição corporal e regularidade dos exercícios.
“Se o objetivo é melhorar a sustentação muscular, a estimulação pode ser complementar. Mas ela não corrige sozinha a arquitetura da celulite”, explica a especialista.
Endermologia
A endermologia utiliza sucção por meio de uma ponteira, geralmente associada a roletes, para mobilizar a pele e os tecidos subcutâneos.
A técnica pode produzir mudanças temporárias na circulação e na mobilidade dos tecidos. O profissional deve ajustar a intensidade para evitar dor e hematomas.
Marcas roxas também não comprovam que o procedimento funcionou. Elas podem indicar trauma em pequenos vasos sanguíneos.
Por isso, a endermologia pode integrar um plano individualizado, mas não elimina a celulite de maneira permanente.
Termoliporedutor
O chamado termoliporedutor associa gel, corrente elétrica e aquecimento. O objetivo varia conforme o equipamento e o protocolo utilizado, podendo envolver estímulos locais relacionados à circulação e ao metabolismo.
Como os nomes comerciais e os equipamentos podem variar, a paciente deve perguntar qual tecnologia o profissional utiliza, quais parâmetros pretende aplicar, qual resultado espera alcançar e quais contraindicações existem.
“O nome comercial não garante segurança ou eficácia. É preciso verificar a indicação, as contraindicações, a habilitação profissional e a regularização do equipamento”, afirma Mariana.
Radiofrequência, ondas acústicas e subcisão
Além dos recursos citados, existem outras técnicas utilizadas no manejo da celulite, como radiofrequência, ondas acústicas e subcisão.
A radiofrequência utiliza energia para produzir efeitos térmicos nos tecidos e pode integrar protocolos voltados ao remodelamento do colágeno e à firmeza da pele. Uma revisão sistemática publicada no PubMed em 2025 encontrou resultados promissores para radiofrequência, mas classificou a qualidade geral das evidências como moderada.
As ondas acústicas também aparecem entre as alternativas estudadas para celulite. Uma revisão baseada em evidências publicada no PubMed encontrou sinais de possível benefício para a terapia por ondas acústicas, embora tenha apontado falhas metodológicas em muitos dos estudos analisados.
Já a subcisão atua sobre septos fibrosos associados a algumas depressões profundas da celulite. Uma revisão científica sobre a técnica descreve seu uso para tratar depressões relacionadas à celulite. Estudos também apontam efeitos adversos como dor e hematomas após o procedimento.
A escolha entre essas opções depende do grau e do tipo de celulite, das condições da pele, do histórico da paciente e do objetivo do tratamento. Além disso, algumas técnicas exigem profissionais e estruturas diferentes das utilizadas em procedimentos fisioterapêuticos.
O que a ciência diz sobre os tratamentos?
Apesar da grande variedade de aparelhos e procedimentos disponíveis, a ciência ainda não aponta uma única técnica capaz de tratar todos os componentes da celulite.
Uma revisão sistemática publicada no PubMed analisou 24 ensaios clínicos randomizados e encontrou resultados promissores para terapia por ondas de choque, radiofrequência e alguns tratamentos injetáveis. Os pesquisadores, porém, classificaram a qualidade geral das evidências como moderada.
Outra revisão científica sobre a celulite destaca que os estudos de alta qualidade ainda são limitados e que os resultados dos tratamentos disponíveis nem sempre duram por longos períodos.
Por isso, o resultado de um procedimento não depende apenas do nome do aparelho. O tipo de alteração presente, os parâmetros utilizados, a indicação correta e o perfil da paciente também interferem no resultado.
Quando a alteração pode não ser apenas celulite?
Nem toda alteração no volume ou na aparência da pele corresponde à celulite. Dor, vermelhidão, calor, inchaço em apenas uma das pernas ou aumento repentino de volume merecem avaliação antes de qualquer procedimento.
Esses sinais não devem receber automaticamente o diagnóstico de celulite. Uma avaliação profissional pode identificar outras condições e determinar se existe indicação para algum tratamento.
Tratamento não deve prometer resultados milagrosos
A grande quantidade de aparelhos, cremes e procedimentos disponíveis pode dificultar a escolha. Por isso, antes de iniciar qualquer tratamento, vale perguntar qual alteração o procedimento pretende tratar, quais resultados são possíveis, quais riscos existem e quem possui habilitação para realizá-lo.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que a celulite apresenta diferentes fatores associados e que a escolha do tratamento depende das características de cada caso.
“O tratamento responsável não promete apagar todas as irregularidades. Ele explica o que cada técnica pode fazer, quais são seus limites e como preservar a segurança da paciente”, conclui a fisioterapeuta.


