O uso frequente de analgésicos para aliviar a enxaqueca pode aumentar os dias com dor de cabeça. Em alguns casos, esse consumo contribui para a chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos, que dificulta o controle da dor. Por isso, o tratamento não deve se limitar ao alívio imediato dos sintomas. Também precisa considerar a frequência das crises e a necessidade de medidas preventivas.
A enxaqueca, também chamada de migrânea, é uma doença neurológica que afeta a qualidade de vida, os relacionamentos, o desempenho profissional e as atividades cotidianas. Embora atinja pessoas de diferentes perfis, a condição é mais frequente entre as mulheres. Além disso, as oscilações hormonais, especialmente durante a perimenopausa, podem alterar o padrão das crises.

Oscilações hormonais podem influenciar as crises
Segundo o anestesiologista e médico da dor Dr. Luiz Maurício Fonseca, da Clínica Ceder, as mudanças hormonais podem interferir nos mecanismos envolvidos na enxaqueca. Dessa forma, essas alterações podem modificar a frequência e a intensidade dos episódios, principalmente entre mulheres predispostas.
“A enxaqueca é caracterizada por alterações na excitabilidade e no processamento cerebral da dor, com participação importante no chamado sistema trigeminovascular e de mediadores como o CGRP. Como os hormônios sexuais, principalmente o estrogênio, modulam esses mecanismos, suas oscilações podem reduzir o limiar para o aparecimento das crises em mulheres predispostas”, afirma.
Além das oscilações hormonais, outros fatores podem desencadear ou agravar as crises. Entre eles estão o sono irregular, o jejum prolongado, o estresse, as mudanças na rotina e determinados hábitos alimentares. No entanto, a influência desses fatores varia de pessoa para pessoa. Por isso, identificar os possíveis desencadeadores individuais ajuda a orientar os cuidados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os transtornos de dor de cabeça como condições que podem provocar incapacidade e comprometer as atividades diárias. Nesse contexto, a enxaqueca está entre os tipos mais comuns e pode afetar significativamente a rotina de quem convive com a doença.
Quais são os sintomas da enxaqueca?
Durante uma crise, a pessoa pode sentir dor pulsátil de intensidade moderada a forte, que interfere nas tarefas diárias. Além disso, náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e aos sons também podem ocorrer. Em alguns casos, a pessoa apresenta tontura e aura, que pode provocar alterações visuais, na fala ou na sensibilidade.
Os sintomas variam de acordo com cada pessoa. Da mesma forma, a frequência dos episódios e o impacto na rotina podem mudar ao longo do tempo. Por isso, observar as características da dor e quantos dias por mês ela ocorre ajuda o profissional de saúde a avaliar o quadro e definir a abordagem mais adequada.
Uso excessivo de analgésicos pode agravar a dor
O uso frequente de analgésicos e anti-inflamatórios exige atenção, principalmente quando a pessoa precisa recorrer aos medicamentos repetidamente para realizar suas atividades. Em algumas situações, o consumo excessivo contribui para a cefaleia por uso excessivo de medicamentos, condição associada ao aumento da frequência das dores de cabeça.
Os limites considerados excessivos variam conforme a classe do medicamento. Além disso, a avaliação considera a frequência das dores e o período de uso dos remédios.
“Os limites considerados excessivos dependem da classe do medicamento. Em geral, o uso de analgésicos simples ou anti-inflamatórios em 15 ou mais dias por mês, ou de triptanos, opioides e determinadas associações analgésicas em 10 ou mais dias por mês, por período superior a três meses, deve levantar preocupação, especialmente quando o paciente apresenta cefaleia em 15 ou mais dias por mês”, alerta.
A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) estabelece critérios para identificar a cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Esses parâmetros consideram a frequência do consumo, o tipo de medicamento e a ocorrência de dor de cabeça. Ainda assim, o diagnóstico exige avaliação clínica individualizada.
Quando a pessoa aumenta o consumo de medicamentos para controlar cada episódio, mas não investiga a frequência das dores nem as opções de prevenção, pode entrar em um ciclo de crises recorrentes. Nesse cenário, a pessoa sente dor com mais frequência e recorre aos remédios cada vez mais. Portanto, a necessidade de tomar analgésicos repetidamente deve motivar uma conversa com um profissional de saúde.
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde reúne informações sobre a enxaqueca, seus sintomas e os cuidados relacionados à condição. Além de esclarecer dúvidas, a avaliação profissional permite diferenciar os tipos de dor de cabeça, investigar fatores associados e orientar o tratamento.
Tratamento pode combinar alívio da crise e prevenção
A enxaqueca não tem cura definitiva, mas o tratamento pode controlar a doença. Para definir a melhor estratégia, o profissional considera o número de dias com dor por mês, a intensidade das crises, o impacto nas atividades cotidianas, a resposta a tratamentos anteriores, as condições de saúde associadas e as características de cada paciente.
“O tratamento pode envolver duas estratégias complementares: tratamento agudo, destinado a interromper uma crise quando ela ocorre, e tratamento preventivo, indicado para reduzir a frequência, intensidade e impacto das crises ao longo do tempo”, explica.
O tratamento agudo busca aliviar os sintomas durante um episódio. Já o preventivo procura diminuir a frequência e a intensidade das crises, além de reduzir os prejuízos que a doença provoca na rotina. Assim, as duas estratégias podem atuar de forma complementar, conforme a necessidade de cada paciente.
Entre as possibilidades terapêuticas, existem medicamentos e tratamentos que atuam na via do CGRP, mediador envolvido nos mecanismos da enxaqueca. No entanto, a indicação depende do quadro clínico, da resposta às opções anteriores e da avaliação do profissional responsável.
O plano de cuidado também pode incluir mudanças nos hábitos e na rotina. Manter horários regulares de sono, praticar atividade física, adotar uma alimentação adequada e desenvolver estratégias para lidar com o estresse são medidas que podem ajudar no controle da condição. Além disso, identificar fatores que desencadeiam as crises e investigar problemas de saúde associados contribui para uma abordagem mais individualizada.
A OMS destaca que a dor de cabeça pode provocar incapacidade e comprometer a vida cotidiana. Por isso, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado é importante para reduzir esses impactos. Dessa forma, o acompanhamento deve considerar não apenas o alívio momentâneo, mas também a frequência dos episódios e as limitações provocadas pela enxaqueca.

Avaliação médica ajuda a orientar o tratamento
O uso frequente de analgésicos não deve funcionar como única estratégia para lidar com crises recorrentes. Quando a dor aparece muitas vezes ao longo do mês ou exige o consumo repetido de medicamentos, a pessoa deve procurar avaliação profissional. Assim, o acompanhamento permite investigar o padrão da enxaqueca, verificar a necessidade de tratamento preventivo e reduzir os riscos associados ao uso excessivo de remédios.
“Hoje, o objetivo não é simplesmente fazer a dor desaparecer por algumas horas. Precisamos entender o padrão da enxaqueca, quantos dias de dor o paciente apresenta, quanto medicamento utiliza, quais fatores estão modulando suas crises e se existe indicação de tratamento preventivo. O resultado que buscamos é reduzir a frequência e a intensidade das crises e, principalmente, devolver funcionalidade e qualidade de vida ao paciente”, conclui.
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