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mulher com vitiligo

Vitiligo e saúde mental: uma relação que exige atenção

VITILIGO E AUTOESTIMA

Dermatologista alerta para os impactos emocionais da condição, que afeta mais de 1 milhão de brasileiros e ainda é cercada por preconceitos

Tempo de Leitura: 4 minutos

O vitiligo é uma doença crônica que afeta mais de 1 milhão de brasileiros e está entre as condições dermatológicas com maior impacto na qualidade de vida. Caracterizado pelo surgimento de manchas brancas na pele, o problema não oferece risco direto à vida nem é contagioso. No entanto, seus efeitos podem ultrapassar as alterações físicas e atingir a saúde mental de quem convive com a doença.

Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) mostram que o vitiligo está associado a importantes repercussões psicossociais. Além disso, uma revisão publicada em 2025 na revista científica Archives of Health, baseada em estudos realizados entre 2015 e 2024, identificou índices elevados de ansiedade, depressão, baixa autoestima e isolamento social entre pacientes diagnosticados com a condição.

Para a dermatologista cooperada da Unimed Goiânia, Dra. Ludmilla Paiva Queiroz, o olhar sobre o vitiligo precisa ir além das manchas visíveis na pele.

Tratar o vitiligo significa enxergar o paciente como um todo. Muitas vezes, as consequências emocionais são tão importantes quanto as manifestações dermatológicas e precisam ser consideradas durante o acompanhamento”, afirma.

vitiligo
Imagem: Magnific

O que é o vitiligo?

O vitiligo é uma doença dermatológica crônica caracterizada pela perda da pigmentação da pele em determinadas regiões do corpo. Isso acontece devido à destruição ou à redução da atividade dos melanócitos, células responsáveis pela produção da melanina, pigmento que confere cor à pele, aos cabelos e aos olhos.

“O vitiligo é uma doença dermatológica crônica, não contagiosa, caracterizada por manchas acrômicas, esbranquiçadas, devido à disfunção dos melanócitos, as células responsáveis por produzir melanina”, explica a especialista.

As manchas podem surgir em qualquer parte do corpo, embora sejam mais frequentes em áreas expostas ou sujeitas a atritos, como rosto, mãos, pés, cotovelos, joelhos e regiões próximas a cicatrizes.

A doença pode aparecer em qualquer fase da vida. Entretanto, os primeiros sinais costumam surgir antes dos 30 anos.

Causas e fatores de risco

Apesar dos avanços da medicina, o vitiligo ainda não possui uma causa única definida. Atualmente, o entendimento científico aponta para uma origem multifatorial, envolvendo predisposição genética, alterações imunológicas e fatores ambientais.

Segundo Dra. Ludmilla, a principal teoria aceita é a autoimune.

“Hoje entendemos o vitiligo principalmente como uma doença autoimune, embora sua origem seja multifatorial. Pessoas com familiares com vitiligo ou com outras doenças autoimunes têm risco aumentado”, destaca.

Diversas doenças autoimunes podem estar associadas ao vitiligo, incluindo alterações da tireoide, diabetes tipo 1 e alopecia areata. Por isso, o acompanhamento médico é importante para avaliar possíveis condições relacionadas.

O impacto emocional das manchas

Embora o vitiligo não provoque dor física nem comprometa funções essenciais do organismo, seus efeitos emocionais podem ser profundos.

A aparência das manchas, especialmente quando surgem em áreas visíveis do corpo, frequentemente expõe pacientes a situações de preconceito, constrangimento e julgamentos equivocados. Muitas pessoas ainda acreditam, de forma incorreta, que a doença é contagiosa.

Como consequência, é comum que pacientes desenvolvam insegurança, vergonha da própria imagem e dificuldades em situações sociais, profissionais e afetivas.

“Embora o vitiligo não cause risco direto à vida, a questão estética gera danos à qualidade de vida. É uma doença estigmatizante, que está envolvida com a redução da autoestima, ansiedade, isolamento social e sintomas depressivos em alguns pacientes”, ressalta a dermatologista.

Os impactos podem ser ainda maiores durante a adolescência e a juventude, fases marcadas pela construção da identidade e da autoimagem.

Quando a saúde mental também precisa de cuidados

Estudos mostram que pessoas com vitiligo apresentam maior risco de desenvolver sintomas psicológicos quando comparadas à população geral.

Ansiedade, tristeza persistente, medo do julgamento alheio e retraimento social figuram entre os relatos mais frequentes. Em alguns casos, o sofrimento emocional pode afetar relacionamentos, desempenho acadêmico e produtividade profissional.

Por isso, especialistas defendem uma abordagem multidisciplinar, envolvendo dermatologistas e profissionais de saúde mental sempre que necessário.

O acolhimento familiar também desempenha papel fundamental no processo de adaptação à doença e na manutenção da autoestima.

“Vitiligo emocional”: mito ou realidade?

A expressão “vitiligo emocional” tornou-se popular nos últimos anos, mas não corresponde a um diagnóstico médico formal.

Ainda assim, existe uma relação reconhecida entre fatores emocionais e o comportamento da doença.

Pesquisas publicadas na plataforma SciELO apontam que parte dos pacientes associa o aparecimento das primeiras manchas a momentos de intenso estresse emocional. Além disso, muitos relatam agravamento do quadro durante períodos de maior sobrecarga psicológica.

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, situações de estresse podem atuar como gatilhos capazes de desencadear ou acelerar o surgimento de lesões em indivíduos predispostos.

O mecanismo ocorre porque a pele e o sistema nervoso mantêm uma conexão biológica complexa, compartilhando substâncias químicas e respostas inflamatórias.

“Há, sim, uma associação com o estado emocional do paciente. Vendo na prática, percebo piora das manchas em épocas em que o paciente está passando por estresse emocional intenso”, observa Dra. Ludmilla.

No entanto, a especialista reforça que o estresse não é a causa do vitiligo, mas pode influenciar sua evolução.

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Imagem: Magnific

Tratamento e acompanhamento são essenciais

Apesar de ainda não existir cura definitiva, os tratamentos atuais permitem controlar a progressão da doença e, em muitos casos, promover a repigmentação parcial ou total das áreas afetadas.

As opções terapêuticas variam conforme a extensão das manchas, a idade do paciente e o estágio da doença. Entre os recursos utilizados estão medicamentos tópicos, fototerapia, terapias imunomoduladoras e procedimentos específicos indicados por dermatologistas.

Além do tratamento médico, a proteção solar diária é indispensável. Como as áreas despigmentadas possuem menor proteção natural contra a radiação ultravioleta, elas ficam mais vulneráveis a queimaduras.

Outro ponto importante é evitar a automedicação ou tratamentos sem comprovação científica, que podem agravar o quadro.

Informação ajuda a combater o preconceito

Especialistas destacam que a disseminação de informações corretas é uma das principais ferramentas para reduzir o estigma associado ao vitiligo.

A doença não é contagiosa, não está relacionada à falta de higiene e não representa ameaça para quem convive com o paciente. Ainda assim, muitos mitos persistem e contribuem para o isolamento social de milhares de pessoas.

Por isso, ampliar o conhecimento da população sobre a condição é um passo importante para promover inclusão, respeito e acolhimento.

Mais do que uma alteração na pigmentação da pele, o vitiligo é uma condição que pode afetar diferentes dimensões da vida. O diagnóstico precoce, o acompanhamento especializado e o suporte emocional adequado ajudam a minimizar seus impactos e permitem que pacientes convivam com a doença de forma mais saudável e confiante.

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