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Jornalismo: a vacina contra a desinformação

Neste artigo, Susy Moreno discute os impactos da desinformação na saúde, a importância da formação jornalística e os desafios da profissão em tempos de redes sociais, inteligência artificial e produção massiva de conteúdo.

Tempo de Leitura: 4 minutos

Por Susy Moreno

Assim como as vacinas protegem a sociedade contra doenças, o jornalismo protege a população contra a desinformação. Ambos dependem de conhecimento, método, responsabilidade e compromisso com a vida. Há uma frase que atravessa gerações nas redações: a informação pode salvar vidas. Infelizmente, o contrário também é verdadeiro. Uma informação falsa, incompleta ou publicada sem responsabilidade pode destruir reputações, comprometer tratamentos, provocar pânico e, em situações extremas, matar.

Jornalismo
Imagem: IA/ChatGPT

Nunca foi tão fácil comunicar. Nunca foi tão difícil fazer jornalismo.

Vivemos um tempo em que um celular, uma conexão com a internet e alguns milhares de seguidores são suficientes para transformar qualquer pessoa em produtora de conteúdo. A tecnologia democratizou a comunicação, ampliou vozes e aproximou pessoas. Esse é um avanço inegável. Mas também criou uma perigosa ilusão: a de que comunicar é o mesmo que exercer o jornalismo. Não é.

O jornalismo não nasceu para produzir conteúdo. Nasceu para servir à sociedade. Enquanto muitos enxergam apenas a reportagem pronta, existe um caminho silencioso que antecede cada publicação: a definição do interesse público, a busca por diferentes versões, a análise de documentos, a consulta a especialistas, a checagem de dados, a contextualização dos fatos, a revisão do texto, a avaliação ética e jurídica e, principalmente, a preocupação com as consequências que aquela informação poderá produzir na vida das pessoas.

Esse roteiro invisível não é fruto do improviso. É resultado de uma formação universitária construída ao longo de décadas.

Durante a graduação, o jornalista estuda Teorias da Comunicação, Ética, Legislação, Sociologia, Ciência Política, Direitos Humanos, Comunicação Pública, Jornalismo Investigativo, Técnicas de Entrevista, Jornalismo de Dados, História, Economia, Filosofia, além de aprender metodologias rigorosas de apuração e verificação dos fatos. Aprende que ouvir apenas um lado não basta. Que um documento pode esconder interesses. Que um dado isolado pode induzir ao erro. Que toda informação precisa ser contextualizada antes de chegar ao público.

Essa formação existe porque o jornalismo exerce uma função social.

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o diploma de Jornalismo deixaria de ser requisito obrigatório para o exercício da profissão. A decisão foi fundamentada na liberdade de expressão, um dos pilares da democracia brasileira.

Desde então, o debate nunca deixou de existir. Entidades representativas da categoria, como a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e os sindicatos regionais, como o Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), defendem a retomada da exigência por meio da Proposta de Emenda à Constituição nº 206/2012 (PEC do Diploma). Para essas organizações, a formação universitária não representa uma reserva de mercado, mas uma garantia de qualificação técnica, compromisso ético e responsabilidade social na produção da informação.

Ao longo dos anos, assistimos ao crescimento das redes sociais, da economia da atenção, dos influenciadores digitais, da inteligência artificial e da produção de conteúdo em escala nunca antes vista. O alcance passou a ser confundido com credibilidade. A velocidade passou a valer mais que a apuração. O algoritmo começou a premiar o conteúdo que emociona, revolta ou viraliza, e não necessariamente aquele que informa melhor.

Em 6 de janeiro de 2026, um novo capítulo foi acrescentado a essa discussão com a publicação da Lei nº 15.325, que regulamentou a profissão de Multimídia.

Embora a legislação afirme que não retira atribuições de outras categorias profissionais, ela criou uma profissão com competências extremamente amplas relacionadas à produção, edição, interpretação, publicação e gestão de conteúdos em diferentes plataformas. A reação de entidades representativas do jornalismo foi imediata.

O receio é que, na prática, a norma contribua para ampliar a precarização do trabalho jornalístico, enfraquecendo equipes especializadas e substituindo profissionais formados por trabalhadores multifuncionais, muitas vezes sem a preparação específica exigida pela atividade jornalística.

Não se trata de uma disputa contra influenciadores digitais.

Influenciadores ocupam um espaço legítimo na comunicação contemporânea. Muitos desenvolvem um trabalho sério, relevante e responsável. O problema começa quando a sociedade passa a acreditar que influência equivale à formação profissional ou que produzir conteúdo é o mesmo que exercer jornalismo.Não é.

Um médico pode explicar doenças nas redes sociais, mas continua sendo médico, não jornalista. Um advogado pode comentar decisões judiciais, mas continua sendo advogado. Da mesma forma, milhões de seguidores não transformam alguém, automaticamente, em jornalista.

Cada profissão possui fundamentos próprios, competências específicas e responsabilidades que não se aprendem apenas pela prática cotidiana.

A pandemia de Covid-19 talvez tenha sido a maior demonstração disso. Enquanto jornalistas especializados buscavam ouvir pesquisadores, interpretar estudos científicos e traduzir informações complexas para a população, milhares de conteúdos sem qualquer respaldo científico estimularam o uso de medicamentos ineficazes, desacreditaram vacinas e espalharam medo. As consequências foram sentidas em hospitais, consultórios e, tragicamente, nos cemitérios.

Outro episódio emblemático ocorreu em 2014, no Guarujá, quando uma mulher inocente foi linchada após boatos disseminados nas redes sociais. Bastaram algumas publicações sem qualquer verificação para transformar uma mentira em sentença de morte.

Esses episódios revelam uma diferença fundamental: a informação responsável passa por filtros. A desinformação não.

O jornalismo profissional não é definido pelo equipamento que utiliza, pela plataforma onde publica ou pelo número de seguidores que possui. Ele é definido por princípios.

Pela responsabilidade de ouvir todos os lados.
Pela obrigação de verificar antes de publicar.
Pela coragem de corrigir quando erra.
Pelo compromisso permanente com o interesse público.

Num cenário em que algoritmos privilegiam velocidade e engajamento, defender o jornalismo profissional não significa criar reserva de mercado nem impedir que qualquer cidadão exerça sua liberdade de expressão. Significa reconhecer que existem profissões cuja formação protege a sociedade.

A Medicina protege vidas.
A Engenharia protege estruturas.
O Direito protege garantias.

O Jornalismo protege um direito igualmente fundamental: o acesso da população à informação confiável.

Talvez esteja na hora de o Brasil deixar de discutir apenas quem pode informar e começar a discutir quem está preparado para assumir a responsabilidade pelas consequências da informação que publica.

Porque comunicar qualquer pessoa pode.
Mas fazer jornalismo continua exigindo muito mais do que uma câmera ligada, um perfil nas redes sociais ou milhões de visualizações.

Exige conhecimento.
Exige ética.
Exige responsabilidade.

E, acima de tudo, exige compromisso com a verdade e com a sociedade.

Autor(a):

Especializada em comunicação na área da saúde
Especialista em gestão da comunicação estratégica integrada
CEO do Portal ComSaúde Bahia
Idealizadora e apresentadora do PodComSaúde
Mais de 20 anos de atuação em assessoria de imprensa, comunicação institucional e projetos estratégicos em saúde.

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