Muitas pessoas recorrem ao café, aos energéticos ou a outras bebidas com cafeína para enfrentar a rotina após uma noite mal dormida. No entanto, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná sugere que esse hábito pode aumentar a vulnerabilidade do organismo à enxaqueca.
A pesquisa, conduzida pelo Laboratório de Farmacologia da Dor Orofacial da instituição e publicada na revista científica Headache, mostrou que a combinação entre cafeína e privação de sono reduz a resistência do sistema nervoso ao desencadeamento de crises semelhantes à enxaqueca. O efeito foi observado em experimentos com ratos e se mostrou mais intenso nas fêmeas.
Segundo os pesquisadores, a associação desses dois fatores atua como um mecanismo de “preparação” para a dor, tornando o organismo mais sensível a estímulos que normalmente não provocariam uma crise.

Mulheres apresentaram maior sensibilidade
De acordo com o estudo, as fêmeas apresentaram respostas mais intensas à combinação de cafeína e restrição de sono. Em alguns casos, a privação de sono ou o consumo isolado de cafeína já foram suficientes para aumentar a sensibilidade à dor.
Nos machos, por outro lado, os efeitos surgiram principalmente quando todos os fatores de risco foram combinados. Os resultados reforçam evidências já conhecidas de que a enxaqueca afeta mulheres com maior frequência e intensidade.
A professora Juliana Geremias Chichorro, coordenadora do laboratório e uma das autoras da pesquisa, destaca que a enxaqueca vai além de uma simples dor de cabeça.
“A enxaqueca não é uma simples dor de cabeça. É uma síndrome neurológica altamente incapacitante”, afirmou a pesquisadora.
Como o estudo foi realizado
Para investigar a relação entre sono e cafeína, os cientistas utilizaram 320 ratos de laboratório. Os animais passaram por um protocolo de restrição parcial do sono durante três dias consecutivos. Em seguida, parte deles recebeu doses de cafeína equivalentes a um consumo elevado da substância.
Após essa etapa, os pesquisadores aplicaram substâncias capazes de desencadear respostas semelhantes às observadas em crises de enxaqueca. Os resultados mostraram que os animais submetidos à privação de sono e ao consumo de cafeína apresentaram maior sensibilidade à dor.
Cafeína não é vilã em todas as situações
Os autores ressaltam que os resultados não significam que a cafeína seja sempre prejudicial. Inclusive, a substância está presente em diversos medicamentos utilizados para o tratamento de dores de cabeça.
O principal achado do estudo é que o efeito da cafeína depende do contexto fisiológico do organismo. Quando o corpo já está fragilizado pela falta de sono, o consumo elevado da substância pode favorecer mecanismos associados à enxaqueca.
Além disso, a pesquisa sugere que a adenosina, neurotransmissor relacionado à sensação de cansaço e ao controle do sono, pode ser um elo importante entre a privação de sono e o aumento da vulnerabilidade às crises. A cafeína bloqueia a ação dessa substância, reduzindo a percepção do cansaço, mas também podendo aumentar a sensibilidade à dor em determinadas condições.
Próximos passos
Embora os testes tenham sido realizados em animais, os pesquisadores acreditam que os resultados podem orientar futuras investigações clínicas em humanos. O objetivo é compreender melhor como hábitos relacionados ao sono e ao consumo de cafeína influenciam o desenvolvimento e a intensidade das crises de enxaqueca.
Fonte: Universidade Federal do Paraná (UFPR) e revista científica Headache.


