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Foto: Imagem gerada por IA

Consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama mesmo em pequenas quantidades

OUTUBRO ROSA

Mesmo em pequenas quantidades, o álcool aumenta o risco de câncer de mama. Especialista alerta para a importância da prevenção além da mamografia.

Tempo de Leitura: 6 minutos

O consumo de bebidas alcoólicas está associado ao aumento do risco de câncer de mama, inclusive entre mulheres que ingerem pequenas quantidades. Durante o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre a doença, a relação entre álcool e câncer reforça a importância de discutir os fatores de risco para além da mamografia e do diagnóstico precoce.

Um estudo da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), estimou que 741 mil novos casos de câncer no mundo, em 2020, estavam associados ao consumo de bebidas alcoólicas. Entre as mulheres, o câncer de mama esteve entre os tumores com maior número de casos atribuíveis ao álcool, com aproximadamente 98 mil ocorrências. Esse número específico precisa de confirmação na publicação original do estudo antes da publicação da matéria.

A pesquisa, publicada na revista científica The Lancet Oncology, também identificou mais de 100 mil novos casos de câncer associados ao consumo de álcool em níveis considerados leves a moderados naquele ano. O resultado reforça que a associação entre álcool e câncer não se restringe ao consumo excessivo. Os dados podem ser consultados no levantamento da IARC sobre o impacto do consumo de álcool nos casos de câncer.

No caso do câncer de mama, as evidências apontam uma relação de dose-resposta: quanto maior a quantidade de álcool consumida e o tempo de exposição, maior tende a ser o risco de desenvolver a doença.

A American Cancer Society também apresenta estimativas sobre essa associação. Segundo a instituição, mulheres que consomem uma dose de bebida alcoólica por dia apresentam um risco de câncer de mama cerca de 7% a 10% maior em comparação com aquelas que não bebem. Já entre as mulheres que consomem de duas a três doses diárias, o aumento do risco chega a aproximadamente 20%.

Mulher com taça de vinho
Imagem: Magnific

Esses percentuais representam aumentos relativos de risco, e não a probabilidade absoluta de uma mulher desenvolver câncer de mama. As informações estão disponíveis nas orientações da American Cancer Society sobre fatores de risco relacionados ao estilo de vida.

A professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), especialista em Mastologia e Cirurgia Geral, Gabriela Albuquerque, explica que as evidências científicas relacionam o consumo de álcool ao desenvolvimento de tumores malignos.

“Já foi cientificamente comprovada a relação entre o consumo de álcool e o aumento do risco de desenvolvimento do câncer, não só de mama como de outros tumores malignos”, afirma.

Mesmo pequenas quantidades de álcool podem aumentar o risco?

Uma das dúvidas mais frequentes sobre o assunto é se o risco está restrito às pessoas que consomem grandes quantidades de bebidas alcoólicas. Segundo Gabriela Albuquerque, mesmo a ingestão em pequenas quantidades merece atenção quando o objetivo é prevenir o câncer.

“Não existe dose segura de ingestão de bebida alcoólica quando falamos em prevenção do câncer. Mesmo o consumo leve está associado ao aumento do risco de câncer de mama”, afirma.

A mastologista explica que a relação entre a quantidade ingerida e o risco da doença também considera o tempo de exposição. Assim, o consumo mais elevado e prolongado tende a aumentar o risco de desenvolver câncer de mama.

A escolha do tipo de bebida não elimina essa associação. Vinho, cerveja e destilados apresentam diferentes concentrações alcoólicas, mas todos contêm etanol, substância relacionada aos processos biológicos que podem favorecer o desenvolvimento de tumores.

“Não há diferença entre os diferentes tipos de bebidas alcoólicas quando se trata desse risco. O principal fator é o álcool em si. Qualquer bebida que passe por fermentação ou destilação produz etanol, que, no organismo, é metabolizado e gera acetaldeído”, explica Gabriela.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, também alerta que o consumo de bebidas alcoólicas aumenta o risco de diferentes tipos de câncer, incluindo o de mama. Segundo o instituto, não há níveis seguros de ingestão de álcool para a prevenção do câncer.

As orientações estão disponíveis na página do INCA sobre bebidas alcoólicas e câncer.

Como o álcool afeta o organismo?

A relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e o câncer de mama envolve diferentes mecanismos biológicos. Um deles está relacionado aos hormônios, especialmente o estrogênio, que estimula a proliferação das células do tecido mamário.

Segundo Gabriela Albuquerque, o álcool pode elevar os níveis desse hormônio. Em determinadas circunstâncias, uma maior exposição hormonal pode favorecer alterações celulares associadas ao desenvolvimento de tumores.

“O álcool pode elevar os níveis de estrogênio, hormônio que estimula a proliferação das células do tecido mamário. Uma maior exposição hormonal pode favorecer alterações celulares em determinados contextos”, afirma a professora do CEUB.

Outro mecanismo envolve a metabolização do próprio álcool. Quando o organismo processa o etanol, produz acetaldeído, substância capaz de provocar danos ao DNA, estrutura que contém as informações genéticas das células.

Esse processo também pode favorecer a formação de espécies reativas de oxigênio, associadas ao chamado estresse oxidativo. O fenômeno ocorre quando há um desequilíbrio entre a produção dessas substâncias e a capacidade do organismo de neutralizá-las. Como consequência, podem ocorrer danos às estruturas celulares, inclusive ao material genético.

Além disso, o consumo de bebidas alcoólicas pode interferir no metabolismo de nutrientes importantes, como o folato, vitamina envolvida em processos de formação e reparação do DNA.

Esses mecanismos ajudam a explicar a associação entre o consumo de álcool e o desenvolvimento de tumores. O posicionamento do INCA sobre bebidas alcoólicas também descreve mecanismos relacionados à formação de acetaldeído, ao estresse oxidativo e às alterações hormonais.

Reduzir o consumo de álcool faz diferença?

O consumo de bebidas alcoólicas é considerado um fator de risco modificável. Isso significa que é possível agir sobre esse hábito para reduzir a exposição a um dos fatores associados ao desenvolvimento do câncer.

Nesse contexto, diminuir a ingestão ou interromper o consumo representa uma medida importante de prevenção. A mudança reduz a exposição do organismo ao etanol e às substâncias produzidas durante sua metabolização.

Gabriela Albuquerque destaca que interromper a exposição contínua ao álcool pode diminuir a ação desses compostos no organismo.

“Quando retiramos a exposição contínua ao álcool, reduzimos a presença de substâncias tóxicas geradas pela sua metabolização e a agressão permanente às células. Por isso, diminuir ou interromper o consumo é uma medida importante de prevenção”, explica a especialista.

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer também avaliou evidências científicas sobre a redução ou a interrupção do consumo de bebidas alcoólicas e seus efeitos no risco de diferentes tipos de câncer, incluindo o de mama. A avaliação foi publicada em 2024, no volume 20A da série IARC Handbooks of Cancer Prevention.

A publicação reúne análises sobre as evidências disponíveis e os possíveis efeitos da redução ou da interrupção do consumo na prevenção de tumores associados ao álcool. O material está disponível na página oficial da IARC sobre redução ou interrupção do consumo de bebidas alcoólicas.

A redução do consumo, entretanto, não elimina todos os fatores envolvidos no desenvolvimento do câncer de mama. O risco também depende de outras condições, e as medidas preventivas não substituem o acompanhamento de saúde nem os exames indicados para cada mulher.

O INCA destaca que a prevenção primária do câncer de mama inclui o controle de fatores de risco modificáveis e a adoção de hábitos protetores. Entre as medidas recomendadas estão a prática de atividade física, a manutenção do peso corporal adequado, a alimentação saudável e a prevenção do consumo de bebidas alcoólicas.

As orientações estão disponíveis na página do instituto sobre prevenção do câncer de mama.

mulher com laço do outubro rosa
Imagem: Magnific

Outubro Rosa deve abordar prevenção e diagnóstico precoce

As campanhas do Outubro Rosa costumam destacar a mamografia, a identificação de alterações nas mamas e a importância de procurar os serviços de saúde diante de possíveis sinais da doença. Para Gabriela Albuquerque, essas orientações continuam fundamentais, mas a conscientização também precisa abordar os hábitos de vida relacionados ao risco de câncer.

“Fala-se muito sobre mamografia e sobre identificar alterações na mama, o que é fundamental. Mas os hábitos de vida também precisam ganhar espaço quando discutimos câncer de mama”, avalia.

A professora do CEUB defende que as campanhas e os serviços de saúde abordem tanto o diagnóstico precoce quanto a prevenção primária. Essa última reúne medidas que buscam reduzir a probabilidade de desenvolvimento da doença, incluindo a atenção aos fatores de risco modificáveis.

“O foco do Outubro Rosa deve ser o diagnóstico precoce e a prevenção primária, com atitudes que podem contribuir para evitar o surgimento da doença”, afirma.

A conscientização sobre o câncer de mama envolve tanto o reconhecimento da importância dos exames quanto o conhecimento dos fatores que podem aumentar o risco da doença. Nesse contexto, informar sobre a relação entre o consumo de álcool e o câncer amplia a discussão sobre prevenção durante o Outubro Rosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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