Os cuidados paliativos não significam que o tratamento de uma doença chegou ao fim. A abordagem pode começar desde o diagnóstico de uma doença grave, progressiva ou que ameace a continuidade da vida. Ela também pode acompanhar outras terapias durante a evolução do quadro. A proposta é prevenir e aliviar o sofrimento. Além disso, busca oferecer a melhor qualidade de vida possível ao paciente e à família.
A questão ganha destaque às vésperas do Dia Mundial de Cuidados Paliativos, celebrado em 10 de outubro. A discussão também esteve presente após a morte do influenciador Lito Sousa, aos 59 anos, em São Paulo, no dia 1º de outubro. Ele recebeu o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurodegenerativa rara. Nas semanas anteriores à morte, Lito recebia cuidados paliativos em casa. A esposa explicou publicamente que a expressão não era sinônimo de cuidado terminal. A associação entre cuidados paliativos e o fim da vida ainda pode gerar insegurança entre pacientes e familiares.

Cuidados paliativos atendem pessoas com doenças graves
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 56,8 milhões de pessoas precisem de cuidados paliativos a cada ano no mundo. No entanto, apenas cerca de 14% recebem esse tipo de atendimento. No Brasil, dados apresentados pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) apontam que mais de 625 mil pessoas precisam dessa assistência anualmente.
O Atlas Brasileiro de Cuidados Paliativos 2025, da ANCP, também aponta crescimento na oferta de serviços e programas de cuidados paliativos no país. O levantamento registrou 423 programas institucionais em 2025. Já o levantamento anterior, de 2022, contabilizava 234 serviços assistenciais participantes. A comparação precisa considerar a metodologia adotada nas diferentes edições do levantamento. O conceito de programa institucional utilizado no Atlas de 2025 é mais abrangente.
Segundo a médica geriatra e paliativista cooperada da Unimed Goiânia, Dra. Jackeline Gomes, os cuidados paliativos atendem pessoas com doenças graves, progressivas ou que ameaçam a continuidade da vida. A abordagem busca prevenir e aliviar o sofrimento. Também procura proporcionar a melhor qualidade de vida possível ao paciente e à família.
“Não cuidamos apenas da doença. O trabalho é feito, preferencialmente, por uma equipe multiprofissional, formada por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e nutricionistas, porque o sofrimento causado por uma doença grave raramente é apenas físico. Cuidamos da pessoa como um todo, considerando sua história, seus valores, suas necessidades e aquilo que é importante para ela”, explica.
Entre as situações em que a abordagem pode ser indicada estão o câncer, as demências, as doenças neurológicas progressivas e a insuficiência cardíaca, pulmonar, renal ou hepática. Outras condições também podem receber esse tipo de assistência quando provocam sofrimento, perda de funcionalidade ou impacto importante na qualidade de vida.
Tratamento e conforto podem caminhar juntos
Para a geriatra, uma associação comum é a ideia de que entrar em cuidados paliativos significa que os tratamentos acabaram. A médica explica que a equipe pode incorporar a abordagem enquanto o paciente continua recebendo terapias direcionadas à doença.
“Há sempre muito a ser feito. Os cuidados paliativos podem ser introduzidos desde o diagnóstico de uma doença grave e caminhar junto com os tratamentos direcionados à doença”, observa.
Um paciente com câncer avançado, por exemplo, pode receber acompanhamento paliativo enquanto faz quimioterapia. Nesse contexto, a equipe pode atuar no controle de sintomas como dor, falta de ar, enjoo e cansaço. O acompanhamento também pode oferecer apoio à família.
Segundo a médica, a inclusão dos cuidados paliativos não significa deixar de realizar exames ou interromper automaticamente o uso de medicamentos. A equipe deve avaliar cada intervenção de acordo com os possíveis benefícios e riscos. Também precisa considerar, principalmente, os objetivos e as preferências do paciente.
A abordagem, portanto, não substitui necessariamente o tratamento destinado à doença. Ela pode atuar de forma simultânea. O objetivo é controlar sintomas, reduzir o sofrimento e contribuir para que o paciente mantenha a maior qualidade de vida possível durante o curso da enfermidade.
Cuidados paliativos podem fazer parte de diferentes trajetórias
Histórias de pessoas conhecidas ajudam a ilustrar que os cuidados paliativos podem fazer parte de trajetórias diferentes. A condição clínica e as escolhas de cada paciente influenciam esse percurso.
Em dezembro de 2022, segundo informações divulgadas pela imprensa, o ex-jogador Pelé passou a receber cuidados paliativos no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Naquele momento, ele havia deixado de responder à quimioterapia contra o câncer de cólon. Pelé morreu no dia 29 daquele mês, aos 82 anos.
Nos Estados Unidos, o ex-presidente Jimmy Carter anunciou, em fevereiro de 2023, que passaria a receber cuidados de hospice em seu domicílio. Ele tomou a decisão após optar por não realizar novas intervenções hospitalares. Carter permaneceu sob esse modelo de cuidado até dezembro de 2024, quando morreu aos 100 anos.
Os exemplos mostram que a assistência paliativa pode ocorrer em diferentes contextos. Ela não representa, por si só, uma indicação de que todos os tratamentos foram interrompidos. As decisões dependem da condição clínica, dos objetivos do cuidado e das escolhas do paciente.
Conversar antes ajuda a respeitar as escolhas do paciente
A paliativista também destaca o papel dos familiares. Ela ressalta a importância de conversar enquanto o paciente ainda consegue se expressar. O objetivo é definir como ele gostaria de receber assistência caso a doença avance.
Nessa conversa, podem entrar temas como o local preferido para receber os cuidados. Também é possível definir quem deve participar das decisões caso o paciente não consiga mais decidir. Outro ponto envolve a possibilidade de ir ao hospital diante de uma piora. O paciente também pode expressar quais tratamentos deseja ou não receber.
“Ter essas conversas com antecedência traz mais segurança para os parentes e ajuda a garantir que as escolhas e a autonomia do paciente sejam respeitadas”, orienta.
O planejamento também permite que a equipe de saúde conheça previamente os valores e as preferências da pessoa. Assim, decisões futuras podem considerar não apenas a evolução clínica. Elas também podem levar em conta aquilo que o próprio paciente definiu como importante para sua assistência.

Atendimento em cuidados paliativos na Unimed Goiânia
A Unimed Goiânia oferece acompanhamento em cuidados paliativos por meio da Rede de Cuidados Continuados (RCC). O serviço funciona no ambulatório e também oferece atendimento domiciliar, com equipe multiprofissional. Segundo a instituição, o acesso depende da avaliação das necessidades e das condições clínicas de cada paciente.
O ambulatório atende pessoas que precisam de acompanhamento e ainda conseguem se deslocar até as consultas. Já o atendimento em casa atende pacientes que, em razão da evolução da doença, apresentam maior dependência ou dificuldade de locomoção.
A assistência domiciliar permite que a equipe realize o cuidado no ambiente em que o paciente vive. O acompanhamento ambulatorial, por sua vez, atende aqueles que ainda conseguem comparecer às consultas. Nos dois casos, a equipe define a indicação após avaliar cada paciente.
Para a médica, compreender a proposta dos cuidados paliativos ajuda a evitar que a abordagem seja confundida exclusivamente com os últimos momentos de vida.
“Cuidados paliativos não significam desistir da vida. Significam cuidar desde cedo e continuar cuidando em todas as fases da doença, buscando qualidade de vida, respeito às escolhas e dignidade”, conclui Dra. Jackeline Gomes.
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