Receber o diagnóstico de doença celíaca aos 30, 40 ou até 60 anos é mais comum do que muita gente imagina. Embora tenha origem genética, a doença pode permanecer silenciosa por décadas ou provocar sintomas pouco específicos, o que dificulta seu reconhecimento. Por isso, muitos pacientes convivem durante anos com a condição sem saber.
A doença celíaca é uma doença autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. A reação provoca inflamação no intestino delgado, prejudica a absorção de nutrientes e pode causar complicações quando não é tratada. O diagnóstico pode ser feito em qualquer fase da vida, inclusive na idade adulta.
Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Doença Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em 2025, o tratamento consiste na exclusão permanente do glúten da alimentação.
O que é doença celíaca?
A doença celíaca é uma condição crônica e autoimune. Ela ocorre quando o sistema imunológico reage ao glúten, proteína encontrada no trigo, na cevada e no centeio.
Como consequência, o organismo passa a atacar a própria mucosa do intestino delgado. Com o tempo, essa inflamação compromete a absorção de vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo.

Dados mostram que a doença ainda é subdiagnosticada
Dados apresentados no PCDT do Ministério da Saúde indicam que a soroprevalência mundial da doença celíaca, identificada por exames de anticorpos, é de 1,4%. Quando considerados apenas os casos confirmados por biópsia, a prevalência global é de 0,7%.
Na América do Sul, a soroprevalência chega a 1,3%, enquanto os casos confirmados por biópsia representam 0,3% da população.
No Brasil, ainda não existe um levantamento nacional multicêntrico capaz de determinar quantas pessoas convivem com a doença. Com base na prevalência mundial, a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra) estima que aproximadamente 2 milhões de brasileiros tenham doença celíaca, sendo que grande parte ainda não recebeu o diagnóstico.
Além disso, o próprio Ministério da Saúde considera a doença subdiagnosticada. Segundo o PCDT, para cada paciente diagnosticado a partir dos sintomas clínicos, podem existir entre três e sete pessoas com poucos sintomas ou completamente assintomáticas.
Estudo encontrou sinais da doença em adolescentes de Salvador
Na Bahia, um estudo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia avaliou 1.213 estudantes de escolas públicas de Salvador e encontrou soroprevalência de 0,49%, equivalente a seis adolescentes com exames sugestivos da doença celíaca.
Embora o estudo tenha sido publicado em 2015 e não represente toda a população baiana, ele continua sendo uma das principais referências sobre a prevalência da condição no estado. Até o momento, não foram localizados levantamentos populacionais mais recentes e abrangentes na Bahia.
Sintomas da doença celíaca
Os sintomas podem variar bastante e nem sempre envolvem apenas o aparelho digestivo.

Entre os principais sinais estão:
• diarreia persistente;
• dor abdominal;
• barriga inchada;
• prisão de ventre;
• anemia por deficiência de ferro;
• perda de peso;
• fadiga constante;
• alterações nas enzimas do fígado;
• baixa densidade óssea;
• dermatite herpetiforme;
• dificuldade de crescimento em crianças;
• ausência de sintomas em alguns pacientes.
Segundo a médica Carolina Pimentel, coordenadora nacional da pós-graduação em Gastroenterologia, essa diversidade explica parte da dificuldade para reconhecer a doença.
“A doença celíaca é muito camaleã dentro da gastro. Talvez essa seja uma das maiores dificuldades da doença.”
A especialista explica que a condição costuma ser comparada a um iceberg.
“A pontinha, aquilo que é visto, são os sintomas clássicos: diarreia, anemia, baixo peso e dificuldade de crescimento nas crianças. Mas a grande maioria dos pacientes não vai ter sintomas clássicos.”
Doença celíaca pode aparecer na vida adulta?
Sim. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a doença celíaca não é exclusiva da infância. A predisposição genética existe desde o nascimento, porém os sintomas podem surgir apenas décadas depois ou permanecer discretos durante muitos anos.
Por isso, muitos pacientes procuram atendimento por problemas aparentemente desconectados, sem que a doença seja considerada inicialmente.
“Ela pode apresentar sintomas gastrointestinais bem variados, como distensão, dor e até constipação. Também pode se manifestar com alterações hematológicas, hepatológicas e na pele.”
Em alguns casos, a investigação começa após exames mostrarem anemia persistente, alterações laboratoriais ou outras doenças autoimunes.
“A suspeição clínica é muito importante, principalmente em pacientes que já têm outras doenças autoimunes ou histórico familiar de doença celíaca.”
Quem deve investigar a doença celíaca?
O Ministério da Saúde recomenda atenção especial para pessoas com maior risco de desenvolver a doença, como:
• parentes de primeiro grau de pessoas com doença celíaca;
• pessoas com diabetes tipo 1;
• pacientes com deficiência de imunoglobulina A (IgA);
• pessoas com síndrome de Down;
• síndrome de Turner;
• síndrome de Williams.
Como é feito o diagnóstico da doença celíaca?
O diagnóstico não deve ser feito apenas pelos sintomas.
Segundo o Ministério da Saúde, a investigação envolve:
• avaliação clínica;
• exames de sangue para pesquisa de anticorpos específicos;
• endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno, quando indicada.
Um cuidado importante é não retirar o glúten da alimentação antes da realização dos exames, exceto por orientação médica. Caso contrário, os anticorpos e a inflamação intestinal podem diminuir, dificultando a confirmação da doença.
Qual a diferença entre doença celíaca e sensibilidade ao glúten?
Embora os sintomas possam ser parecidos, as duas condições são diferentes.
A sensibilidade ao glúten não celíaca provoca desconfortos após a ingestão de alimentos com glúten, mas não desencadeia uma resposta autoimune que agride o intestino.
“Existem pessoas sensíveis ou intolerantes ao glúten, que comem determinados alimentos e apresentam desconforto, distensão ou diarreia. Mas isso acontece pela dificuldade de digestão e não porque o glúten provoca um processo autoimune.”
Na doença celíaca, o sistema imunológico produz anticorpos que atacam o próprio organismo.
“O corpo cria anticorpos para defender do glúten, mas esses anticorpos se confundem com proteínas intestinais e começam a atacar o próprio organismo.”
Sem tratamento, a inflamação contínua pode provocar anemia, desnutrição, perda de peso, alterações ósseas e aumentar o risco de complicações raras, como alguns tipos de linfoma intestinal.
“Pacientes que continuam consumindo glúten sem saber que têm a doença expõem o organismo constantemente a substâncias que desencadeiam o processo inflamatório.”
Como é o tratamento da doença celíaca?
Atualmente, o único tratamento eficaz consiste em retirar totalmente o glúten da alimentação pelo resto da vida.

Isso inclui alimentos preparados com:
• trigo;
• cevada;
• centeio.
A aveia naturalmente não contém glúten. Entretanto, ela pode sofrer contaminação durante o cultivo, transporte ou processamento. Por esse motivo, pessoas com doença celíaca devem consumir apenas produtos certificados como seguros.
Também é fundamental evitar a contaminação cruzada, que acontece quando alimentos sem glúten entram em contato com utensílios, equipamentos ou superfícies contaminadas.
Segundo Carolina Pimentel, o diagnóstico costuma provocar mudanças importantes na rotina alimentar.
“Quando a gente dá o diagnóstico, é preciso acolher o paciente. Muito da alimentação ocidental tem como base alimentos com glúten e, num primeiro momento, muitos se sentem privados de tudo aquilo que entendem como prazeroso.“
Apesar disso, ela destaca que a adaptação costuma ocorrer ao longo do tempo.
“Hoje existe muito mais facilidade de acesso a alimentos sem glúten. Por mais difícil que seja no início, esses pacientes conseguem se adaptar e ter uma vida totalmente normal.”
Além de controlar os sintomas, a dieta permite a recuperação da mucosa intestinal, melhora a absorção dos nutrientes e reduz o risco de complicações.
“Quando o paciente exclui o glúten, não só os sintomas clínicos e inflamatórios melhoram, mas ele também se protege de complicações que podem ser evitadas.”
Quando procurar um médico?
Procure avaliação médica se você apresentar:
• diarreia recorrente;
• anemia sem causa conhecida;
• perda de peso inexplicada;
• dor abdominal frequente;
• distensão abdominal persistente;
• histórico familiar de doença celíaca;
• diabetes tipo 1 ou outra doença autoimune.
O gastroenterologista é o especialista mais indicado para investigar a doença.
Perguntas frequentes
A doença celíaca tem cura?
Não. O tratamento consiste na retirada permanente do glúten da alimentação.
A doença celíaca pode aparecer na vida adulta?
Sim. Muitas pessoas recebem o diagnóstico somente após os 30, 40 ou até 60 anos.
Quem tem doença celíaca pode comer aveia?
Depende. Apenas produtos certificados como livres de contaminação por glúten são considerados seguros.
Existe exame para diagnosticar a doença?
Sim. O diagnóstico pode incluir exames de sangue, avaliação clínica e, quando necessário, endoscopia com biópsia.

