Tabagismo: os caminhos para abandonar o cigarro e ganhar mais saúde

Tempo de Leitura: 10 minutosParar de fumar não é fácil, mas é absolutamente possível. Todos os dias, milhares de pessoas conseguem vencer a dependência da nicotina e dar um passo importante rumo a uma vida mais saudável, com mais disposição, qualidade de vida e anos a mais ao lado de quem amam. Embora o cigarro ainda seja uma das principais causas evitáveis de doenças e mortes no mundo, a boa notícia é que a medicina dispõe hoje de estratégias eficazes para ajudar quem deseja abandonar o tabagismo. O primeiro passo é acreditar que a mudança é possível. Nesta entrevista especial para o Portal ComSaúde Bahia, o médico Dr. Gilberto Ururahy compartilha orientações valiosas sobre os desafios da dependência, os tratamentos disponíveis e os caminhos mais seguros para quem quer se libertar do cigarro. Diretor-médico da SP Check-up e da Med-Rio Check-up, especialista em medicina preventiva e autor de diversos livros sobre saúde e comportamento, ele mostra que nunca é tarde para parar de fumar e colher os benefícios dessa decisão. Confira a entrevista completa e descubra por que abandonar o cigarro pode ser uma das escolhas mais importantes da sua vida.   COMSAÚDE – Por que a nicotina provoca tanta dependência e por que é tão difícil abandonar o cigarro mesmo quando a pessoa conhece os riscos à saúde? Gilberto Ururahy – A nicotina provoca dependência porque age diretamente nos circuitos de recompensa do cérebro. Ela estimula a liberação de dopamina, substância ligada à sensação de prazer e recompensa. Com o uso repetido, o cérebro se adapta à presença da nicotina e passa a “esperar” esse estímulo em determinados momentos do dia, como após o café, durante o trabalho, em situações de estresse ou em encontros sociais. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, uma das principais autoridades de saúde pública do mundo, explicam que, com o tempo, o cérebro pode passar a funcionar como se precisasse da nicotina para se sentir bem. Por isso, parar de fumar não é apenas abandonar uma substância. É reorganizar uma rotina física, emocional e comportamental construída ao longo do tempo. A boa notícia é que esse processo é possível. O cérebro começa a se readaptar conforme a pessoa permanece sem nicotina, e o corpo responde rapidamente à mudança. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os benefícios começam logo após o último cigarro: 20 minutos: frequência cardíaca e pressão arterial começam a cair. 12 horas: o nível de monóxido de carbono no sangue volta ao normal. 2 a 12 semanas: a circulação melhora e a função pulmonar aumenta. 1 a 9 meses: tosse e falta de ar tendem a diminuir. 1 ano: o risco de doença coronariana cai para cerca da metade em comparação com o de uma pessoa que continua fumando. 5 anos: o risco de AVC pode se reduzir ao de uma pessoa que não fuma, entre 5 e 15 anos após parar. É importante entender que cada pessoa tem uma relação diferente com o cigarro. Há quem fume para aliviar ansiedade, quem associe o cigarro a momentos de prazer, quem o utilize como pausa na rotina e quem recorra a ele diante de situações de tensão emocional. Por isso, não devemos trabalhar com protocolos genéricos. Quanto mais equilibrado estiver o corpo, maior tende a ser a capacidade de sustentar a mudança. Parar de fumar envolve cérebro, corpo e rotina. Não é simples, mas é plenamente possível quando a pessoa substitui o automatismo do cigarro por novos recursos de cuidado, reconhece seus padrões e acompanha a própria saúde com regularidade. COMSAÚDE -Quais são hoje os tratamentos mais eficazes e cientificamente comprovados para quem deseja parar de fumar? Gilberto Ururahy – As estratégias mais eficazes são aquelas que combinam mudança de comportamento, organização da rotina e, quando necessário, recursos terapêuticos com acompanhamento profissional. Há pessoas que conseguem parar de uma vez, sem medicamentos. Outras se beneficiam de adesivos, gomas ou pastilhas de nicotina, medicamentos específicos ou terapia comportamental. O ponto central é que a escolha não deve seguir uma fórmula única. Cada pessoa tem um padrão de dependência, um nível de estresse, uma qualidade de sono, uma alimentação, uma composição corporal e um momento emocional diferente. Por isso, antes de pensar apenas em “qual método usar”, é importante entender o corpo como um todo. Um organismo exausto, sedentário, dormindo mal e mal alimentado tende a ter mais dificuldade para sustentar mudanças. Esse processo funciona melhor quando entra em uma reorganização mais ampla do estilo de vida. Beber mais água, melhorar o sono, praticar atividade física dentro das possibilidades de cada pessoa, reduzir situações associadas ao cigarro, cuidar da alimentação e criar novas pausas ao longo do dia ajudam a diminuir a dependência comportamental. O cuidado é não substituir o cigarro por outro excesso, como comida, álcool ou uso compulsivo de telas. Quando a pessoa opta por reposição de nicotina ou medicamentos, o ideal é que isso seja feito com orientação médica, para avaliar indicação, dose, tempo de uso e possíveis contraindicações. Esses recursos podem ajudar, mas funcionam melhor quando estão dentro de um plano individualizado. Parar de fumar não é apenas abandonar o cigarro. É ajudar o corpo a recuperar equilíbrio físico, emocional e metabólico para que a mudança seja sustentável. COMSAÚDE – Como identificar o método mais adequado para cada paciente: medicamentos, reposição de nicotina, terapia comportamental ou a combinação dessas estratégias? Gilberto Ururahy – O primeiro passo é entender que tipo de vínculo a pessoa tem com o cigarro. Para alguns, ele está muito ligado à nicotina. Para outros, aparece como resposta automática ao estresse, à ansiedade, ao café, ao álcool, ao trabalho ou aos momentos de pausa. Há ainda quem fume mais por hábito social ou por associação emocional. Essa leitura muda completamente a estratégia. Uma pessoa que fuma ao acordar pode precisar de um plano diferente daquela que fuma apenas em situações de tensão. Quem já tentou parar várias vezes também carrega informações importantes: em que momento voltou a fumar, o que estava sentindo, quais situações foram mais … Continue lendo Tabagismo: os caminhos para abandonar o cigarro e ganhar mais saúde