O olho foi a principal localização do melanoma extracutâneo, concentrando 75% dos casos analisados em um estudo da Fundação do Câncer. A pesquisa avaliou 1.324 novos casos registrados entre 1990 e 2021 em 33 Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP). Além disso, analisou informações de mais de 350 Registros Hospitalares de Câncer (RHCs).
O levantamento faz parte da 12ª edição do info.oncollect. A publicação reúne dados sobre incidência, mortalidade, letalidade, distribuição geográfica e tratamentos para o melanoma no Brasil. Além dos casos que atingem a pele, o estudo aborda aqueles que surgem em outras estruturas do organismo.
Embora seja menos frequente do que o câncer de pele não melanoma, o melanoma apresenta comportamento mais agressivo. Para Luiz Augusto Maltoni, oncologista e diretor-executivo da Fundação do Câncer, o diagnóstico precoce é um dos pontos fundamentais no enfrentamento da doença.
“Embora seja menos frequente do que o câncer de pele não melanoma, o melanoma é mais agressivo. Portanto, cada oportunidade de diagnóstico precoce tem um valor imenso. Afinal, por trás dos dados, existem pessoas, famílias e histórias que dependem de decisões bem fundamentadas, de profissionais preparados e de um sistema de saúde capaz de responder aos desafios impostos pela doença”
Segundo Maltoni, a realização do estudo busca justamente ampliar a compreensão sobre o cenário da doença no país.
“Esse conjunto de informações permite compreender melhor a realidade brasileira e identificar caminhos para aprimorar o cuidado”

Estudo analisa melanoma de pele e extracutâneo
Quando se fala em melanoma, a associação mais comum é com o câncer que surge na pele. No entanto, a doença também pode se desenvolver fora da pele, em órgãos, estruturas oculares e mucosas. Entre essas regiões estão os sistemas genital e digestivo e a cavidade oral.
Para 2026, são estimados 9.360 novos casos de melanoma de pele no Brasil.
Além disso, o estudo mostra que a distribuição da doença apresenta diferenças conforme o sexo e a localização do tumor. Entre os casos de melanoma de pele analisados, 51,3% ocorreram em mulheres. Nesse grupo, as regiões mais citadas foram face, membros inferiores e membros superiores, nessa ordem.
Já entre os homens, os casos representaram 48,7%. Nesse grupo, as principais localizações apontadas foram orelha, couro cabeludo, pescoço e tronco.
Os pesquisadores também analisaram os dados de acordo com as diferentes regiões brasileiras. Essa avaliação mostrou que incidência e mortalidade, isoladamente, não são suficientes para dimensionar o impacto da doença.
Por exemplo, algumas regiões com menor incidência e mortalidade apresentam maior letalidade. Na região Norte, esse cenário pode sugerir diagnóstico tardio e barreiras de acesso ao atendimento, segundo a interpretação apresentada no estudo.
Desigualdades regionais aparecem nos indicadores

Entre os dados regionais, o Centro-Oeste apresentou a maior letalidade entre os homens, com índice de 0,33. Além disso, o estudo aponta que 20,2% dos pacientes precisam viajar para outras regiões para realizar tratamento oncológico.
O levantamento também identifica diferenças importantes na incidência. A região Sul apresentou o maior índice, com 44,40 casos por milhão de habitantes. Esse número representa mais de duas vezes a média nacional de 19,20 casos por milhão.
Já na região Sudeste, 89,6% dos pacientes tiveram a cirurgia como primeiro tratamento.
Além desses números, os resultados mostram que a análise da incidência precisa considerar outros fatores relacionados à assistência. Nesse sentido, a existência de serviços especializados, o diagnóstico precoce e a possibilidade de acesso ao tratamento adequado aparecem como elementos importantes para compreender as diferenças nos resultados entre as regiões.
Alfredo Scaff, epidemiologista, médico consultor da Fundação do Câncer e coordenador do estudo Melanoma, nem sempre na pele, destaca, portanto, a necessidade de observar esses indicadores em conjunto.
“As informações mostram que a incidência, isoladamente, não é suficiente para avaliar o impacto da doença. A disponibilidade de serviços especializados, o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento adequado são fatores fundamentais para melhorar os resultados e reduzir as desigualdades regionais na assistência oncológica”
Olho é principal localização do melanoma extracutâneo
Entre os 1.324 novos casos de melanoma extracutâneo registrados entre 1990 e 2021, o olho apareceu como a principal localização, representando 75,0% dos casos.
Na sequência, aparecem os sistemas genital, com 12,8%, e digestivo, com 8,2%.
A identificação do melanoma fora da pele é um dos pontos de atenção destacados pelo estudo. Isso ocorre, especialmente, porque algumas dessas formas podem apresentar características diferentes daquelas observadas no melanoma cutâneo.
No caso do melanoma ocular, o diagnóstico pode ser dificultado pela ausência de sintomas no início da doença. Segundo Scaff, o tumor pode permanecer assintomático inicialmente. Assim, o diagnóstico pode ocorrer apenas durante exames de rotina.
Quando aparecem, os sinais podem incluir visão embaçada, flashes, manchas no campo visual e perda de visão. Por isso, a ausência inicial de sintomas pode contribuir para o atraso na identificação da doença.
“Por isso, é importante que desde a sua formação, os oftalmologistas sejam introduzidos ao assunto e adotem a observação ativa em seus consultórios, encaminhando casos suspeitos para o oncologista”
Imunoterapia amplia possibilidades de tratamento
Outro ponto abordado pelo estudo é a evolução das opções terapêuticas para pacientes com melanoma avançado.
Em 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso de nivolumab e pembrolizumab para diferentes formas de melanoma avançado, incluindo casos de melanoma extracutâneo de origem mucosa.
Mais recentemente, o tebentafusp passou a integrar o cenário terapêutico específico do melanoma uveal ou ocular inoperável ou metastático.
Segundo o material da Fundação do Câncer, a nova terapia foi recomendada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e aprovada pela Anvisa em 2025, representando um avanço no tratamento desse tipo de câncer.
Antes da introdução dessas novas estratégias, a quimioterapia era apontada como o padrão de tratamento disponível e recomendado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para esse perfil de paciente.
Nesse contexto, Scaff explica que a resposta clínica observada com a quimioterapia era baixa. Além disso, ele afirma que a chegada da imunoterapia modificou esse cenário.
“Até então, o uso de quimioterapia era o padrão de tratamento disponível e recomendado pelo SUS, mas resultava em uma resposta clínica baixa, com taxa de resposta não superior a 10%. A introdução da imunoterapia como terapia-alvo trouxe uma mudança disruptiva neste cenário, elevando as taxas de resposta para até 70% e proporcionando curvas de sobrevida substancialmente superiores às observadas historicamente para esse perfil de paciente”
Os percentuais apresentados na declaração se referem ao contexto terapêutico discutido pelo estudo e não devem ser interpretados como uma taxa geral de resposta para todos os casos de melanoma.
Alto custo ainda representa barreira ao tratamento
Apesar das opções terapêuticas apresentadas no estudo, o acesso às novas alternativas ainda é apontado como um desafio.
O material destaca que o alto custo dos medicamentos representa uma barreira para o acesso ao tratamento. Além disso, esse cenário ocorre diante das diferenças existentes na oferta de assistência oncológica entre as regiões.
O dado sobre deslocamento também reforça essa questão. 20,2% dos pacientes precisam viajar para outras regiões para realizar tratamento oncológico, segundo o levantamento.
Dessa forma, o estudo chama atenção não apenas para a ocorrência do melanoma. A pesquisa também considera as condições em que os pacientes conseguem chegar ao diagnóstico e ao tratamento.
Nesse sentido, a análise dos registros mostra que incidência, mortalidade e letalidade precisam ser observadas em conjunto com fatores relacionados à assistência. Entre eles estão a disponibilidade de serviços especializados, o diagnóstico precoce e o acesso às terapias.
Por fim, para a Fundação do Câncer, esse conjunto de informações permite identificar diferenças na realidade do melanoma no país. O levantamento também aponta a necessidade de aprimorar o cuidado e reduzir desigualdades regionais na assistência oncológica.
O estudo completo está disponível na página de publicações da Fundação do Câncer: Info.oncollect — Fundação do Câncer
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