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Retrato de mulheres diversas juntas

Foto: Magnific

Pesquisa sobre menopausa revela desigualdade no acesso à terapia hormonal no Brasil

MENOPAUSA NO BRASIL

Levantamento aponta que 92,97% das brasileiras de 40 a 65 anos têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o tratamento.

Tempo de Leitura: 6 minutos

A idade em que a menopausa chega varia entre cidades da América Latina. Além disso, o acesso à informação e ao tratamento apresenta diferenças entre mulheres atendidas nos sistemas público e privado de saúde. No Brasil, 92,97% das mulheres de 40 a 65 anos têm pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal, segundo dados apresentados pela ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro em outubro de 2026.

As pesquisas brasileiras e latino-americanas citadas na apresentação investigam a idade de chegada à menopausa, o conhecimento sobre a terapia hormonal, a frequência de sintomas geniturinários, a saúde mental e as diferenças de acesso ao tratamento. Em conjunto, esses dados ajudam a discutir como fatores sociais, econômicos e territoriais influenciam o cuidado à saúde da mulher.

O congresso reuniu discussões sobre a saúde na menopausa e contou com a participação de pesquisadores da área. A iniciativa foi organizada pela International Menopause Society, entidade internacional dedicada ao estudo da menopausa.

Para Fabiane Berta, os dados mostram que as mulheres vivenciam essa fase de maneiras diferentes, conforme suas condições de vida e suas realidades sociais.

“Quando a ciência fala da mulher na menopausa, ela costuma falar de uma só. O Brasil é feito de muitas: pretas, pardas, brancas, indígenas, urbanas e rurais. Não existe uma menopausa. Existem mulheridades”, afirma a pesquisadora.

Mulher refletindo em casa
Imagem: Magnific

Idade da menopausa varia entre cidades da América Latina

Um estudo latino-americano citado na apresentação identificou idade mediana de 48,6 anos para a menopausa entre 17.150 mulheres de 47 cidades, distribuídas por 15 países. No entanto, os resultados variaram conforme a localidade analisada: a idade mediana foi de 43,8 anos em Assunção, no Paraguai, e chegou a 53 anos em Cartagena, na Colômbia.

Além disso, os dados apresentados indicam que morar em regiões com altitude superior a 2.000 metros, ter menor escolaridade ou viver em países de menor renda esteve associado a uma chance duas vezes maior de menopausa precoce. O material de divulgação, porém, não detalha os métodos utilizados para calcular essas associações. Por isso, não é possível determinar, apenas com essas informações, o peso de cada fator nos resultados.

Essas diferenças reforçam a importância de considerar as condições de vida e as características regionais ao estudar a menopausa. No Brasil, por exemplo, fatores como renda, escolaridade, localização geográfica e acesso aos serviços de saúde também precisam integrar as discussões sobre assistência.

Ao comentar essas diferenças, Fabiane Berta destaca a influência do contexto social e territorial na experiência da menopausa.

“A altitude, a escola e a renda mudam a idade em que a menopausa chega. A região muda o peso da depressão. O sistema de saúde muda o acesso ao tratamento. A menopausa brasileira tem sotaque, tem CEP e tem território hormonal”, diz a pesquisadora.

Terapia hormonal e desigualdade no acesso ao tratamento

Além das diferenças na idade de chegada à menopausa, os dados apresentados apontam lacunas de informação sobre a terapia hormonal. Entre as brasileiras de 40 a 65 anos avaliadas, 92,97% teriam pouco ou nenhum conhecimento sobre esse tratamento. Por outro lado, apenas 30,3% afirmaram estar plenamente satisfeitas com as informações recebidas.

A terapia hormonal pode aliviar determinados sintomas da menopausa. Entretanto, a indicação depende de avaliação individualizada, que considere o histórico de saúde, os sintomas, os benefícios esperados e os riscos de cada caso. Para obter informações sobre o cuidado ginecológico e as opções terapêuticas, as mulheres podem consultar os materiais da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).

O levantamento citado também indica que aproximadamente 55% das brasileiras com sintomas na pós-menopausa nunca utilizaram terapia hormonal. Quando os pesquisadores consideraram o tipo de atendimento, encontraram uma diferença entre as redes pública e privada: 62,59% das mulheres atendidas no sistema público nunca haviam utilizado o tratamento, ante 49,78% daquelas atendidas na rede privada.

A diferença também aparece nas práticas de prescrição. Entre os ginecologistas que trabalham nos dois sistemas, 76,5% afirmaram prescrever terapia hormonal com maior frequência na rede privada. No SUS, as principais barreiras apontadas foram o custo, mencionado por 68,2%, e a falta de disponibilidade de medicamentos gratuitos, citada por 61,4%.

Esses percentuais indicam diferenças relatadas no acesso e na utilização do tratamento. Ainda assim, para dimensionar essa desigualdade com precisão, é necessário conhecer as características das amostras, os critérios adotados nas pesquisas e a forma como os pesquisadores coletaram as respostas.

Fabiane Berta defende que ampliar o acesso exige tanto a circulação de informações confiáveis quanto melhores condições de atendimento e disponibilidade de tratamentos.

“O tratamento existe, e é seguro quando bem indicado. O que precisamos é que a informação e o acesso cheguem a todas as mulheres, em todas as regiões. Nove em cada dez brasileiras ainda conhecem pouco sobre ele. Isso mostra o tamanho do caminho, e também o tamanho do cuidado que ainda pode chegar até elas”, afirma.

Secura vaginal e perda urinária aparecem entre os sintomas relatados

Os dados apresentados também abordam sintomas geniturinários que podem afetar a qualidade de vida durante e após a transição menopausal. Entre as mulheres avaliadas, 68,46% relataram secura vaginal, enquanto 51,35% informaram perda de urina durante a prática de atividade física.

Essas manifestações podem afetar o conforto, a vida sexual e a realização de atividades cotidianas. A secura vaginal, por exemplo, pode estar relacionada a alterações hormonais que afetam os tecidos da região genital. Já a perda urinária durante o esforço pode ter diferentes causas e exige avaliação profissional para identificar a origem do problema.

No entanto, a presença desses sintomas não deve ser considerada inevitável nem atribuída automaticamente às alterações hormonais. A avaliação clínica ajuda a identificar possíveis causas e permite discutir as opções de tratamento mais adequadas para cada mulher.

Por isso, a abordagem desses sintomas nas consultas de rotina é importante. As mulheres precisam ter espaço para relatar suas queixas sem constrangimento e receber orientação sobre as possibilidades de cuidado, em vez de presumir que devem enfrentar essas manifestações sem assistência.

Dados sobre depressão reforçam a importância da saúde mental

A saúde mental também esteve entre os temas abordados na apresentação. Uma análise envolvendo 15.734 mulheres da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) identificou idade média de 43 anos para o primeiro diagnóstico de depressão entre mulheres na pós-menopausa. Além disso, cerca de metade dos diagnósticos ocorreu entre os 40 e os 54 anos, enquanto a região Centro-Oeste apresentou a maior carga de casos.

Os dados relacionam a faixa etária do diagnóstico a um período da vida em que muitas mulheres atravessam a transição menopausal. Contudo, essa coincidência não significa que a menopausa cause depressão. A saúde mental envolve múltiplos fatores, e os números apresentados não permitem estabelecer uma relação causal entre as duas condições.

Ainda assim, as informações reforçam a importância de considerar a saúde mental no acompanhamento das mulheres nessa fase. Mudanças emocionais e sintomas físicos podem ocorrer no mesmo período da vida. Dessa forma, a avaliação clínica deve contemplar aspectos psicológicos, sociais e hormonais, sem atribuir o diagnóstico a uma única causa.

Entre as mulheres na pós-menopausa com depressão consideradas nos dados apresentados, 74% utilizavam medicação, enquanto 16,7% faziam psicoterapia. Entretanto, o material de divulgação não esclarece se as duas modalidades de cuidado poderiam ocorrer simultaneamente nem detalha os critérios utilizados para classificar os tratamentos.

Portanto, esses percentuais não permitem concluir que as modalidades sejam excludentes ou comparar sua eficácia. Eles ajudam, porém, a levantar questões sobre o acesso aos diferentes tipos de acompanhamento e as condições em que as mulheres recebem atendimento.

Mulher conversando com profissional de saúde
Imagem: Magnific

Iniciativas buscam identificar mulheres que precisam de atendimento

Além dos levantamentos sobre sintomas e acesso ao tratamento, experiências de outros países latino-americanos também foram citadas como caminhos para melhorar a identificação das necessidades de saúde durante a menopausa.

No Peru, um instrumento composto por seis perguntas, com aplicação estimada em cerca de dois minutos, ajuda profissionais da atenção primária a identificar mulheres que podem precisar de atendimento especializado. A proposta busca facilitar a identificação inicial das necessidades de cuidado.

No Brasil, o estudo EMBRACE foi apresentado como o primeiro registro nacional de menopausa do país. Segundo as informações divulgadas, a iniciativa está presente nos 27 estados brasileiros e reúne dados sobre sintomas, utilização de terapia hormonal, trabalho, conhecimento médico e desigualdades no acesso ao atendimento.

Com essa proposta, o registro busca ampliar a produção de informações sobre a experiência das brasileiras na menopausa, considerando as diferenças regionais e as condições de acesso aos serviços de saúde. Além disso, os dados podem contribuir para identificar lacunas de conhecimento e orientar futuras discussões sobre assistência e políticas públicas.

Entretanto, a abrangência nacional e o caráter pioneiro atribuídos ao EMBRACE exigem documentação pública que esclareça a metodologia, a forma de participação das mulheres e o estágio de cobertura em cada estado. Essas informações permitem avaliar o alcance real do levantamento e interpretar seus resultados com maior precisão.

Ao defender a produção de evidências regionais, Fabiane Berta afirma que as pesquisas sobre a menopausa precisam considerar as particularidades da população brasileira.

“A ciência internacional é sólida, mas foi construída sem DNA brasileiro. Pela primeira vez, a América Latina começa a contar a própria história com os próprios dados. Cinco regiões, 27 estados, um país continente e um único DNA, o brasileiro. O futuro da menopausa brasileira não vai ser importado. Vai ser construído aqui”, conclui.

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