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Pesquisa internacional na Bahia busca aprimorar diagnóstico da febre reumática

FEBRE REUMÁTICA

Estudo no Hospital Estadual da Criança investiga biomarcadores para identificar a doença em crianças e adolescentes.

Tempo de Leitura: 5 minutos

O Hospital Estadual da Criança (HEC), em Feira de Santana, participa de uma pesquisa internacional que investiga novas possibilidades para o diagnóstico da febre reumática aguda. A iniciativa integra a rede colaborativa Acute Rheumatic Fever Diagnosis Collaborative (ARC), formada por pesquisadores e instituições de diferentes países. O objetivo é identificar biomarcadores que possam ajudar os profissionais de saúde a reconhecer a doença e diferenciá-la de outras condições com manifestações semelhantes.

Uma nova etapa da pesquisa teve início na sexta-feira, 30 de outubro, com a participação de crianças e adolescentes saudáveis, com idades entre 5 e 15 anos. Conforme o planejamento da equipe local, essa fase começa com 50 participantes desse grupo. A meta de recrutamento prevista para a etapa é de 240 crianças até dezembro de 2026.

A inclusão de participantes sem diagnóstico da doença permitirá estabelecer parâmetros de referência para a análise dos biomarcadores. Os resultados serão comparados com os dados de crianças e adolescentes que apresentam suspeita ou diagnóstico de febre reumática aguda. A comparação entre os grupos é uma das estratégias utilizadas pelos pesquisadores para identificar possíveis indicadores biológicos associados à condição.

A rede ARC reúne instituições de diferentes partes do mundo e conta com financiamento da Fondation Leducq. O HEC representa a América Latina na iniciativa e atua como centro de recrutamento de participantes no Brasil. Além do país, a pesquisa envolve instituições de Uganda, Paquistão, Malaui e Austrália.

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Imagem: Magnific

O protocolo científico prevê a coleta padronizada de informações clínicas, a realização de exames e a obtenção de amostras biológicas. Esses materiais serão utilizados nas etapas de descoberta e validação dos possíveis biomarcadores. A investigação busca reunir evidências que possam contribuir para o desenvolvimento de uma ferramenta diagnóstica confiável e acessível.

Febre reumática pode provocar complicações no coração

A febre reumática aguda é uma doença inflamatória que pode surgir após determinadas infecções provocadas pela bactéria Streptococcus pyogenes, conhecida como estreptococo do grupo A. A condição está relacionada a uma resposta do sistema imunológico após a infecção e pode comprometer diferentes partes do organismo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a febre reumática é uma reação inflamatória que pode ocorrer após infecções na garganta e, possivelmente, na pele causadas pelo estreptococo do grupo A. O primeiro episódio é observado com maior frequência em crianças de 5 a 14 anos.

As manifestações podem atingir o coração, as articulações, a pele e o sistema nervoso. Entre os sinais associados à doença estão inflamações nas articulações, febre e alterações cardíacas. Também podem ocorrer manifestações neurológicas, como a coreia, caracterizada por movimentos involuntários.

O comprometimento cardíaco exige atenção especial porque a inflamação pode atingir as válvulas do coração. Quando essas estruturas sofrem lesões, podem ocorrer danos permanentes e o desenvolvimento da cardiopatia reumática, condição que afeta o funcionamento cardíaco e pode provocar complicações ao longo da vida.

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), as manifestações da febre reumática podem aparecer entre uma e cinco semanas após uma infecção causada pelo estreptococo do grupo A. A instituição também destaca que a doença pode afetar diferentes órgãos e sistemas, o que contribui para a variedade de apresentações clínicas.

A relação entre a infecção inicial e o surgimento posterior da doença é um dos aspectos que precisam ser considerados durante a investigação médica. Por isso, o histórico de saúde do paciente e a identificação de evidências de uma infecção estreptocócica anterior fazem parte da avaliação diagnóstica.

Diagnóstico depende de avaliação clínica e exames complementares

Atualmente, não existe um exame único capaz de confirmar todos os casos de febre reumática aguda. O diagnóstico considera a avaliação clínica, o histórico do paciente, a presença de manifestações características e evidências de uma infecção anterior pelo estreptococo do grupo A.

Para orientar essa investigação, os profissionais utilizam os critérios de Jones revisados. Eles organizam os sinais clínicos e os resultados de exames em manifestações maiores e menores, que precisam ser analisadas em conjunto com as evidências de infecção estreptocócica prévia.

Entre as manifestações consideradas pelos critérios estão a cardite, que corresponde ao comprometimento inflamatório do coração; a artrite, caracterizada pela inflamação das articulações; a coreia; o eritema marginado, uma alteração na pele; e os nódulos subcutâneos.

A avaliação também pode considerar febre, dores articulares, alterações em exames que indicam inflamação e mudanças identificadas no eletrocardiograma. A combinação dos critérios varia conforme o histórico do paciente e o risco epidemiológico da população.

A OMS recomenda a utilização dos critérios de Jones para o diagnóstico em crianças, adolescentes e adultos com suspeita da doença. A organização também destaca a importância da ecocardiografia, exame de imagem que permite avaliar a estrutura e o funcionamento do coração, inclusive para identificar alterações cardíacas que nem sempre apresentam sinais evidentes durante o exame clínico.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também aborda a febre reumática como uma doença inflamatória sistêmica associada a uma resposta tardia à infecção pelo estreptococo do grupo A. A entidade reúne orientações sobre diagnóstico, tratamento e prevenção da condição.

A variedade de manifestações e a semelhança com outras doenças podem dificultar a identificação da febre reumática. Por esse motivo, a análise de diferentes informações clínicas e laboratoriais é fundamental para orientar a avaliação dos pacientes.

Biomarcadores podem ajudar a diferenciar a doença de outras condições

É nesse contexto que a pesquisa internacional da rede ARC investiga biomarcadores presentes no sangue. Esses indicadores biológicos podem fornecer informações sobre processos que ocorrem no organismo e, quando identificados e validados, ajudar a reconhecer determinadas condições de saúde.

No estudo realizado com a participação do HEC, os pesquisadores procuram identificar possíveis biomarcadores associados à febre reumática aguda. A intenção é verificar se determinados indicadores apresentam diferenças entre crianças e adolescentes saudáveis e aqueles que têm suspeita ou diagnóstico da doença.

A identificação desses marcadores poderá contribuir para aprimorar a investigação diagnóstica, principalmente em situações nas quais os sintomas não são suficientes para diferenciar a febre reumática de outras condições.

O trabalho envolve diferentes etapas de pesquisa. Primeiro, os dados clínicos e as amostras biológicas são coletados seguindo procedimentos padronizados. Em seguida, os materiais são analisados para investigar possíveis indicadores. Os candidatos identificados ainda precisam passar por processos de validação científica antes de qualquer aplicação na prática clínica.

A proposta é reunir evidências para o desenvolvimento de uma ferramenta que possa auxiliar os profissionais de saúde no reconhecimento da doença. Entretanto, o possível teste ainda está em fase de investigação e não está disponível para utilização na rotina dos serviços de saúde. Portanto, a pesquisa não substitui os métodos diagnósticos atualmente recomendados.

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Foto: Ascom / HEC

HEC representa a América Latina na colaboração internacional

A coordenação local da pesquisa é realizada pela cardiologista pediátrica Renata Fonseca Mendoza. O Hospital Estadual da Criança participa da rede ARC como centro de recrutamento no Brasil, contribuindo para a inclusão e o acompanhamento dos participantes de acordo com o protocolo científico.

A presença de instituições de diferentes países permite reunir informações de grupos distintos e ampliar a investigação sobre a febre reumática aguda. No caso do HEC, a participação também insere a Bahia em uma colaboração internacional voltada ao desenvolvimento de novas possibilidades para o diagnóstico da doença.

O Hospital Estadual da Criança é uma unidade materno-infantil de média e alta complexidade, localizada em Feira de Santana. A instituição pertence à Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), é administrada pela Liga Álvaro Bahia e oferece atendimento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

 

 

 

 

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