Perder peso não significa, necessariamente, encerrar o tratamento da obesidade. Depois do emagrecimento, o organismo pode passar por mudanças que favorecem a recuperação dos quilos eliminados. Além dos mecanismos biológicos e hormonais, fatores emocionais e comportamentais também podem dificultar a manutenção dos resultados.
O chamado efeito sanfona, portanto, não deve ser associado apenas à falta de disciplina. Segundo a médica nutróloga Andrea Pereira, presidente do Instituto Obesidade Brasil, a recuperação do peso pode estar relacionada à própria resposta do organismo à perda de peso.
“Quando a pessoa emagrece, o corpo passa a gastar menos energia e aumenta a produção de hormônios relacionados à fome, enquanto reduz os da saciedade. É uma resposta biológica que favorece a recuperação do peso, por isso a obesidade precisa ser tratada como uma doença crônica, e não como uma questão de força de vontade.”

O que acontece com o corpo depois do emagrecimento?
A perda de peso provoca mudanças no funcionamento do organismo. De acordo com Andrea Pereira, o corpo passa a gastar menos energia e altera a produção de hormônios envolvidos na fome e na saciedade.
Na prática, isso pode fazer com que a pessoa sinta mais fome enquanto o organismo passa a utilizar menos energia. Essa combinação cria dificuldades para quem tenta manter o peso alcançado.
Por isso, chegar à meta estabelecida não significa que o tratamento terminou. A manutenção também exige acompanhamento e estratégias que considerem as características de cada paciente.
“Assim como acontece com doenças como diabetes e hipertensão, a manutenção dos resultados depende de acompanhamento contínuo e estratégias individualizadas para cada paciente”, explica a médica.
Fatores emocionais também influenciam
A relação entre alimentação e emoções é outro aspecto importante no processo. Segundo a psicóloga Andrea Levy, cofundadora do Instituto Obesidade Brasil, algumas pessoas criam expectativas de que o emagrecimento irá resolver outras questões pessoais ou emocionais.
Quando os resultados não correspondem a essas expectativas, sentimentos como ansiedade, culpa e frustração podem aparecer. De acordo com a especialista, essas situações podem aumentar o risco de compulsão alimentar e contribuir para o abandono do tratamento.
A psicóloga também chama atenção para dietas muito restritivas. Segundo ela, esse tipo de estratégia pode funcionar durante determinado período, mas não necessariamente promove mudanças sustentáveis na relação com a comida.
Por isso, a manutenção do peso envolve mais do que controlar a quantidade de alimentos consumidos. O acompanhamento também precisa considerar a relação do paciente com a alimentação e os aspectos emocionais envolvidos.
Por que dietas muito restritivas podem dificultar a manutenção?
Dietas muito restritivas podem ser difíceis de manter por longos períodos. No material analisado, Andrea Levy destaca que estratégias desse tipo podem apresentar resultados temporários sem promover mudanças duradouras na relação com a comida.
Além disso, quando o processo de emagrecimento é acompanhado por culpa ou frustração, existe maior risco de a pessoa abandonar o tratamento ou apresentar episódios de compulsão alimentar.
Nesse sentido, o foco não está apenas em perder peso rapidamente, mas em construir estratégias que possam ser mantidas ao longo do tempo.
O estigma da obesidade também pesa
Outro fator citado pelas especialistas é o estigma associado à obesidade. Comentários que atribuem o ganho de peso exclusivamente à falta de esforço podem aumentar o sofrimento psicológico e dificultar a continuidade do tratamento.
A obesidade é apresentada pelas especialistas como uma condição multifatorial, influenciada por diferentes aspectos. Entre eles estão fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais.
Por isso, reduzir a condição à força de vontade pode deixar de considerar parte importante dos fatores envolvidos no ganho e na manutenção do peso.
O que pode ajudar a manter o peso perdido?
De acordo com as especialistas, a manutenção dos resultados depende de acompanhamento contínuo e de uma abordagem que considere diferentes aspectos da saúde.
Entre as estratégias citadas no material estão:
- manter uma alimentação equilibrada;
- praticar atividade física regularmente;
- cuidar da saúde mental;
- manter o acompanhamento profissional;
- evitar a busca por soluções rápidas;
- desenvolver mudanças sustentáveis na relação com a alimentação.
A proposta é que o cuidado continue mesmo depois de atingir a meta de peso. Dessa forma, o tratamento não fica concentrado apenas na balança, mas considera também os fatores que podem influenciar a recuperação dos quilos perdidos.

Obesidade afeta mais de 60% da população brasileira acima do peso
O desafio da manutenção do peso ocorre em um cenário de alta prevalência de excesso de peso no Brasil.
Segundo dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2024, divulgados em janeiro de 2026, mais de 60% da população brasileira está acima do peso. Cerca de 25% já apresenta obesidade.
Para Andrea Pereira, reconhecer a complexidade da doença é importante para mudar a forma como o paciente é tratado.
“Precisamos entender que a obesidade é uma doença multifatorial, influenciada por questões genéticas, hormonais, ambientais e comportamentais. Quanto mais cedo deixarmos de tratar o paciente com culpa e passarmos a oferecer cuidado baseado em ciência, maiores serão as chances de sucesso a longo prazo”, conclui.
A recuperação do peso depois do emagrecimento pode envolver uma combinação de fatores. O organismo modifica mecanismos relacionados ao gasto de energia, à fome e à saciedade, enquanto questões emocionais, dietas restritivas e o estigma social também podem dificultar a manutenção.
Por isso, segundo as especialistas, emagrecer e manter o peso são etapas que fazem parte de um processo contínuo de tratamento e acompanhamento

