Bahia

Espaço Publicitário

Resumo ComSaúde

A Bahia registrou 914 casos de suicídio em 2024. Especialista destaca desafios no acesso ao tratamento, na rede de saúde mental e no acompanhamento contínuo de pacientes.

Foto: IA\ChatGPT

Prevenção do suicídio na Bahia: acesso ao cuidado ainda é desafio

SETEMBRO AMARELO NA BAHIA

Estado registrou 914 casos em 2024; ampliar atendimento, garantir continuidade do cuidado e fortalecer a rede de saúde mental estão entre os caminhos apontados para a prevenção

Resumo ComSaúde

A Bahia registrou 914 casos de suicídio em 2024. Especialista destaca desafios no acesso ao tratamento, na rede de saúde mental e no acompanhamento contínuo de pacientes.
Tempo de Leitura: 7 minutos

Chegar ao atendimento é só uma parte do caminho. Para avançar na prevenção do suicídio na Bahia, o desafio também passa por conseguir diagnóstico, encontrar o tratamento adequado e, principalmente, manter o acompanhamento depois de uma situação de crise.

Em 2024, a Bahia registrou 914 casos de suicídio, segundo a atualização mais recente da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), divulgada em setembro de 2025.

O número representa uma redução de 1,4% em relação a 2023. A taxa também recuou, de 6,6 para 6,2 casos a cada 100 mil habitantes. Apesar da queda de um ano para o outro, a série histórica apresentada pela SEI mostra crescimento dos registros nas últimas décadas, mais acentuado a partir de 2019.

Os dados são elaborados pela SEI a partir de microdados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e da Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA).

Para a dra. Sandra Peu, psiquiatra e representante designada da Associação Psiquiátrica da Bahia (APB) para o Setembro Amarelo 2026, uma das principais fragilidades está justamente no acesso ao atendimento especializado.

“A desassistência é um motivo que contribui muito para este número. O número de psiquiatras disponíveis para diagnosticar e tratar pacientes em ambulatórios especializados é muito pequeno frente à demanda”, afirma.

Não há, porém, uma causa única para o suicídio. O fenômeno é complexo e envolve diferentes fatores. Sofrimento psíquico, transtornos mentais, condições sociais e uso problemático de álcool e outras drogas, por exemplo, não devem ser apresentados isoladamente como explicação para um caso.

Na prevenção, o foco está em reconhecer situações de risco, facilitar o acesso à assistência e evitar que o cuidado seja interrompido justamente quando a pessoa precisa continuar sendo acompanhada.

Saúde mental na Bahia
Imagem por IA

Entre a urgência e o tratamento, o desafio é manter o cuidado

A Bahia contava com 270 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) habilitados pelo Ministério da Saúde, segundo levantamento divulgado pela SEI em setembro de 2025.

Os CAPS fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que reúne serviços de diferentes níveis de atenção, da assistência básica ao atendimento especializado, de urgência e hospitalar.

Na avaliação de Sandra Peu, porém, a estrutura disponível ainda encontra dificuldades para responder à demanda.

A psiquiatra cita problemas nos ambulatórios especializados, nos CAPS e também nos casos que chegam às unidades de urgência.

“Na Bahia, hospitais gerais não costumam contar com especialista para atendimento do risco de suicídio e nem sempre temos médicos não-psiquiatras capacitados ao atendimento do risco iminente”, afirma.

Pelas diretrizes divulgadas pela própria Sesab, o cuidado em situações de urgência relacionadas à saúde mental deve envolver diferentes pontos da rede, como Samu 192, UPAs, portas hospitalares e prontos-socorros. Na atenção hospitalar, a orientação institucional é que o atendimento esteja articulado aos demais serviços da rede e aos CAPS.

É justamente na passagem de um ponto da rede para outro que Sandra identifica um dos gargalos.

Quer esteja em um hospital geral, UPA ou ponto de atendimento psiquiátrico, o médico enfrenta a dificuldade para internar o paciente que precisa, assim como não encontra rede de atendimento para encaminhar o paciente que precisa de manutenção do tratamento”, diz.

A reportagem procurou a Sesab para saber se há demanda reprimida por atendimento em saúde mental na Bahia e obter informações sobre a disponibilidade de psiquiatras e leitos de saúde mental em hospitais gerais, o tempo de encaminhamento após urgências psiquiátricas e as medidas adotadas para ampliar a capacidade da rede e garantir a continuidade do cuidado. Até a conclusão desta reportagem, a secretaria não havia enviado resposta.

Documentos públicos da secretaria mostram que a ampliação da rede está entre as ações previstas pelo governo estadual.

O Programa de Fortalecimento do SUS na Bahia (ProSUS II) prevê a construção e equipagem de 20 CAPS e quatro centros de acolhimento de saúde mental, além de outros equipamentos. Segundo a Sesab, uma das finalidades é ampliar a oferta de serviços em regiões onde ainda existem lacunas de atendimento.

Em 2026, a secretaria também publicou contratos para construção de novos CAPS em municípios baianos dentro do programa.

Para Sandra Peu, ampliar a estrutura é importante, mas o cuidado em saúde mental não depende apenas do número de unidades ou de médicos. Psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e acesso a medicamentos também fazem parte da assistência.

rede de cuidado
Imagem por IA

Como perceber que alguém pode precisar de ajuda

Nem sempre uma pessoa em sofrimento pede ajuda de forma direta.

Falas relacionadas à morte, desesperança ou falta de perspectiva, assim como mudanças importantes de comportamento, merecem atenção e não devem ser tratadas como exagero ou tentativa de chamar atenção.

Ao perceber sinais de sofrimento, familiares, amigos e pessoas próximas podem oferecer uma escuta sem julgamentos, evitar minimizar o que está sendo relatado e incentivar a procura por atendimento profissional.

Conversar de maneira responsável sobre o assunto não estimula o comportamento suicida. A abordagem deve priorizar acolhimento, proteção e encaminhamento para ajuda.

Sandra Peu também defende a preparação de profissionais que mantêm contato cotidiano com diferentes grupos da população.

Consideramos que a qualificação de profissionais da educação, da saúde e da assistência social ajuda na percepção de sinais de adoecimento mental e impulsiona a busca precoce por cuidados”, afirma.

Em situações de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência. O Samu pode ser acionado pelo telefone 192.

SINAIS QUE PEDEM ATENÇÃO E ACOLHIMENTO

Observe:

  • Falas sobre morte, desesperança ou falta de perspectiva
  • Sofrimento intenso
  • Mudanças importantes de comportamento

Como ajudar:

  • Escute sem julgamento
  • Não minimize o sofrimento
  • Incentive a procura por atendimento profissional
  • Diante de risco imediato, procure um serviço de urgência
  • Quase oito em cada dez registros foram de homens

Os homens concentraram 79,2% dos casos registrados na Bahia em 2024, enquanto as mulheres representaram 20,8%. A diferença não significa necessariamente que homens apresentem maior frequência de tentativas. Sandra Peu afirma que características relacionadas às tentativas e à procura por tratamento precisam ser consideradas para compreender a maior mortalidade masculina.

Entre os grupos que exigem estratégias específicas, ela cita profissionais de segurança pública, uma população predominantemente masculina e que, segundo a especialista, pode enfrentar barreiras adicionais para procurar assistência.

O estigma, o medo de perder o direito ao uso da arma, a perda de oportunidades na carreira profissional afastam estes homens da busca do tratamento psiquiátrico. Mas é possível desenvolver programas de saúde mental para reverter estas dificuldades”, afirma.

Para Sandra, programas voltados às características de diferentes grupos podem reduzir barreiras e facilitar a procura por tratamento.

Mais da metade dos registros ocorreu entre adultos de 30 a 59 anos

Os adultos de 30 a 59 anos concentraram 55,9% dos casos registrados em 2024 na Bahia.

Pessoas de 15 a 29 anos representaram 25,8%. Entre aquelas com 60 anos ou mais, a participação foi de 17,7%. Crianças de até 14 anos corresponderam a 0,7%.

Os percentuais mostram como os registros se distribuem entre as faixas etárias. Isoladamente, eles não permitem afirmar qual grupo apresenta a maior taxa em relação à sua população.

Sandra Peu chama atenção especialmente para crianças e adolescentes. Segundo a médica, essa população apresenta particularidades relacionadas ao desenvolvimento e à impulsividade, enquanto o número de psiquiatras especializados em infância e adolescência é reduzido no estado.

Outro ponto citado pela especialista é o uso de álcool e outras drogas.

O uso de álcool e outras drogas, quer seja ocasionalmente, quer seja por dependência, é um fator de aumento da impulsividade e do risco de suicídio”, afirma.

Para Sandra, a assistência a pessoas com uso problemático ou dependência de substâncias deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de saúde mental e prevenção.

suiscidios
Imagem gerada por IA

Depois de uma tentativa, o cuidado não pode terminar na emergência

Entre os registros de 2024, 40 pessoas já tinham tentativa anterior registrada em outras ocorrências, segundo a SEI.

Para Sandra Peu, uma tentativa deve acionar uma rede de acompanhamento que continue funcionando depois que a situação de emergência passa.

Isso significa evitar que a pessoa saia de uma unidade de saúde sem referência para o próximo atendimento ou sem acompanhamento compatível com suas necessidades.

Na Bahia, o Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS), ligado à Sesab, informa que acompanha pacientes desde a internação hospitalar e mantém atendimento ambulatorial depois da alta. Pessoas consideradas em risco também podem ser atendidas mesmo sem tentativa anterior.

A continuidade desse cuidado é, para Sandra, uma das peças centrais da prevenção.

 

O cuidado precisa continuar depois de setembro

Para Sandra Peu, campanhas como o Setembro Amarelo ajudam a ampliar a circulação de informação, mas a prevenção precisa fazer parte da rotina dos serviços de saúde durante todo o ano.

“O Setembro Amarelo é um período de campanha para maior impacto de informações sobre prevenção do suicídio. As ações de prevenção devem, realmente, acontecer o ano todo”, afirma.

Entre as prioridades apontadas pela psiquiatra estão diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e uma rede capaz de acompanhar pessoas em diferentes níveis de necessidade.

O que a APB considera como prioridade é que a população tenha acesso precoce ao diagnóstico e tratamento psiquiátrico”, afirma.

Sandra cita depressão, transtorno afetivo bipolar, transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, transtornos de personalidade e esquizofrenia entre as condições que demandam diagnóstico e assistência adequados.

 

Também defende uma rede diversificada de serviços de saúde mental, qualificação de profissionais da educação, saúde e assistência social, acompanhamento contínuo de pessoas que já apresentaram comportamento suicida e medidas de redução do acesso a meios letais.

“Tal como o suicídio é multifatorial, as estratégias de prevenção também precisam ser múltiplas”, resume a psiquiatra.

Onde buscar ajuda

Precisa de ajuda ou está preocupado com alguém?

Em Salvador, o Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS), da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), oferece atendimento psicológico, psiquiátrico e de terapia ocupacional para pessoas em situação de risco.

NEPS: (71) 3103-4343

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta gratuita, 24 horas por dia. O serviço não substitui acompanhamento médico ou psicológico.

CVV: 188

Em situações de emergência ou risco imediato, procure um serviço de urgência.

Samu: 192

 

 

 

 

A Associação Psiquiátrica da Bahia (APB) promove, ao longo de setembro, a programação do Setembro Amarelo 2026 no estado. A campanha foi aberta oficialmente no dia 4, em Salvador, e reúne atividades de orientação, prevenção e qualificação profissional.

 

 

 

 

 

Transparência editorial: Conteúdo produzido e revisado pela equipe do Portal ComSaúde Notícias, com apoio de inteligência artificial em recursos visuais, organização e checagem de informações. A apuração e a responsabilidade editorial são do Portal.

Compartilhe:

Leia Mais

Espaço Publicitário

Rolar para cima