A proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma intensificar a rotina de estudos e as expectativas em torno do desempenho dos estudantes. Entretanto, além da preparação acadêmica, o período também pode representar um momento de tensão emocional. Isso acontece especialmente quando a cobrança por bons resultados ultrapassa o incentivo e passa a funcionar como uma obrigação.
Nesse contexto, a família exerce um papel importante na maneira como adolescentes e jovens enfrentam a reta final da preparação. Embora o apoio familiar possa oferecer segurança, a pressão excessiva, as comparações e o medo de decepcionar podem aumentar a ansiedade e comprometer a autoestima dos estudantes.
Segundo a psicóloga Irenilza Moura, da rede Hapvida, algumas famílias projetam nos filhos expectativas relacionadas à aprovação e ao futuro profissional. Dessa maneira, uma prova que deveria representar uma oportunidade de ingresso no ensino superior pode ganhar um peso emocional ainda maior. Isso ocorre quando o jovem sente que precisa alcançar determinado resultado para corresponder ao que esperam dele.
“Existem muitos pais que colocam suas próprias expectativas nos filhos acreditando que estão ajudando. Mas o jovem pode começar a se sentir cobrado, não se sentir amado ou só se sentir valorizado se passar na prova”.

Como a cobrança familiar afeta a saúde mental dos jovens?
A pressão em torno do Enem não está relacionada apenas à quantidade de horas dedicadas aos estudos. Além das exigências acadêmicas, os estudantes podem lidar com expectativas familiares, comparações com colegas, receio de não conseguir uma vaga e autocobrança pelo próprio desempenho.
Ao mesmo tempo, a adolescência é uma fase marcada pela construção da identidade e da autoestima. Por isso, a avaliação sobre o próprio desempenho pode adquirir um significado que vai além do resultado da prova. Quando o estudante associa a aprovação à sua capacidade, inteligência ou valor pessoal, a possibilidade de não alcançar a nota desejada pode se transformar em uma fonte de sofrimento.
De acordo com Irenilza Moura, esse cenário pode se agravar com o medo de decepcionar os familiares e a preocupação com a opinião de outras pessoas. Assim, a cobrança externa pode se somar às exigências que o próprio jovem estabelece para si.
“Muitos acreditam que seu valor depende dessa prova. Existe a cobrança familiar, mas existe também a autocobrança de que, se não passar, os pais não vão valorizá-los e os amigos vão achar que são incapazes. Isso intensifica a ansiedade”.
Além disso, a exposição a conteúdos nas redes sociais pode ampliar a sensação de comparação. Publicações sobre aprovações, rotinas de estudo e resultados de outros candidatos podem fazer com que alguns estudantes usem o desempenho alheio como parâmetro para avaliar a própria preparação.
Nesse sentido, é importante compreender que cada candidato tem uma trajetória, um ritmo de aprendizagem e condições diferentes de estudo. Portanto, transformar a experiência de outras pessoas em referência para avaliar o próprio desempenho pode aumentar a insegurança. Isso ocorre justamente em um período que já exige dedicação e equilíbrio emocional.
Redes sociais também podem aumentar a pressão
As comparações não acontecem apenas dentro de casa ou entre colegas próximos. Nas redes sociais, os estudantes encontram relatos de aprovação, cronogramas de estudo e demonstrações de produtividade. Embora esses conteúdos possam servir de inspiração, também podem gerar a impressão de que todos os candidatos conseguem manter o mesmo ritmo.
No entanto, cada estudante enfrenta a preparação de acordo com sua realidade e suas possibilidades. Por isso, os familiares podem ajudar ao evitar comparações e lembrar que a trajetória de outra pessoa não determina o potencial de quem está se preparando para o exame.
Como substituir a cobrança por acolhimento durante o Enem?
Diante desse cenário, a forma como os familiares conversam com os estudantes pode fazer diferença na maneira como eles vivenciam a preparação. Em vez de concentrar o diálogo exclusivamente no resultado, a psicóloga orienta que os responsáveis demonstrem interesse pelos sentimentos e pelas necessidades dos jovens.
Perguntas como “como você está se sentindo nessa reta final?”, “Do que você precisa nesse momento?” e “Como eu posso te ajudar?” podem abrir espaço para uma conversa mais acolhedora. Por outro lado, questionamentos como “você estudou o suficiente?” e “e se você não passar?” podem reforçar a preocupação com a possibilidade de fracasso.
A orientação é que os familiares demonstrem disponibilidade para ouvir, reconheçam o esforço realizado e deixem claro que o apoio não depende do resultado alcançado. Dessa forma, o estudante pode perceber que não precisa enfrentar sozinho as expectativas relacionadas ao exame.
A psicóloga destaca a importância de substituir palavras que aumentam a pressão por atitudes que transmitam segurança e incentivo.
“Se você, ao invés de trazer palavras que trazem pressão, traz palavras acolhedoras, isso vai trazer proteção para a saúde mental desse adolescente e gerar apego seguro. Mostrar que o importante é ele dar o seu melhor. E se ele der o melhor, ele vai ter bons resultados”.
Além disso, o acolhimento não significa ignorar a importância do Enem ou deixar de incentivar a dedicação aos estudos. Pelo contrário, significa reconhecer que a preparação também envolve limites, necessidades emocionais e momentos de descanso.
O UNICEF reúne orientações e materiais sobre saúde mental de adolescentes, incluindo conteúdos relacionados à escuta, ao fortalecimento emocional e ao apoio oferecido por familiares e cuidadores. Esses recursos também podem ajudar responsáveis a compreender a importância de manter um ambiente de diálogo e acolhimento durante essa fase.
Comparações e cobranças podem comprometer a autoestima
Outro cuidado importante é evitar comparações entre o estudante e outras pessoas. Comentários sobre o desempenho de irmãos, primos, amigos ou colegas podem transmitir a ideia de que o jovem precisa alcançar os mesmos resultados para receber reconhecimento.
No entanto, cada estudante tem uma trajetória própria. Por isso, comparar notas, quantidade de horas de estudo ou resultados de simulados pode desconsiderar as particularidades de cada pessoa e aumentar a sensação de incapacidade.
Além das comparações, também é necessário evitar que os familiares condicionem o afeto e o apoio à aprovação. Quando o jovem entende que pode perder o reconhecimento dos pais caso não alcance a nota esperada, o exame deixa de representar apenas uma etapa acadêmica. Nesse cenário, ele também pode enxergar a prova como uma ameaça à relação familiar.
Sobre esse comportamento, Irenilza Moura reforça:
“Não comparar o filho com irmãos, primos ou colegas que consideram mais inteligentes ou dedicados. Isso compromete severamente a autoestima. Outra preocupação é não condicionar afeto ou apoio caso ele não passe”.
Assim, reconhecer o esforço individual é uma maneira de valorizar o percurso do estudante, independentemente do resultado. Em vez de destacar apenas notas e classificações, os responsáveis podem demonstrar interesse pelas dificuldades enfrentadas, pelas conquistas alcançadas durante a preparação e pelos objetivos que o jovem deseja construir.
O que os pais podem fazer para ajudar os estudantes?
O apoio familiar também pode aparecer em atitudes práticas no cotidiano. Ajudar a organizar uma rotina de estudos, oferecer um ambiente adequado para a concentração e respeitar os momentos de descanso são algumas formas de contribuir para uma preparação mais equilibrada.
Entretanto, é importante que a organização não se transforme em uma nova fonte de cobrança. Exigir que o estudante passe o dia inteiro estudando, sem pausas ou atividades de lazer, pode aumentar a sensação de sobrecarga. Da mesma forma, tratar o cansaço e o sofrimento emocional como drama ou falta de esforço pode dificultar a comunicação entre pais e filhos.
Por isso, os familiares devem observar as necessidades dos estudantes e respeitar os limites de cada um. A rotina precisa considerar não apenas as tarefas escolares, mas também os momentos de descanso e outras atividades importantes para o bem-estar.
Outra atitude relevante é reconhecer a dedicação demonstrada durante o processo. Mesmo quando o resultado de um simulado não corresponde à expectativa, por exemplo, a família pode ajudar o jovem a identificar dificuldades e compreender quais pontos ainda precisam de atenção. O importante é não transformar o desempenho em motivo de constrangimento.
Além disso, os responsáveis podem reforçar que o Enem representa uma possibilidade entre diferentes caminhos de formação. A aprovação pode abrir uma oportunidade importante, mas não deve aparecer como a única alternativa para construir um futuro.
A psicóloga destaca que o resultado da prova não deve funcionar como medida do valor pessoal dos adolescentes.
“O Enem é importante, mas não define quem o adolescente é. Nem determina sozinho o futuro. Uma aprovação pode abrir portas, mas uma reprovação não encerra possibilidades”.
Dessa maneira, caso o estudante não alcance a pontuação desejada, a família pode ajudá-lo a avaliar o resultado e identificar o que pode aprimorar em uma próxima tentativa. O momento também pode servir para reconhecer dificuldades, rever estratégias de estudo e desenvolver mais autonomia diante dos próprios objetivos.
Mais do que cobrar uma aprovação imediata, portanto, o incentivo familiar deve considerar que a trajetória educacional pode envolver diferentes etapas e oportunidades. O apoio durante esse processo também ajuda o jovem a não associar uma eventual reprovação à ideia de incapacidade ou falta de valor.
Onde buscar acolhimento em saúde mental?
Quando a pressão relacionada aos estudos ultrapassa o que o jovem consegue administrar, buscar apoio também é uma possibilidade. A rede pública de saúde oferece atendimento em saúde mental por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A Atenção Primária funciona como uma das portas de entrada para esse cuidado.
Além disso, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) reúne serviços voltados ao atendimento de pessoas que precisam de acompanhamento. As famílias podem consultar as orientações sobre o cuidado à saúde de adolescentes e jovens no Ministério da Saúde.
Outra alternativa é o Pode Falar, canal de ajuda em saúde mental destinado a adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. A iniciativa oferece escuta gratuita e permite o atendimento anônimo.
O primeiro contato acontece por meio de um chatbot. Posteriormente, o jovem pode receber atendimento humano, de segunda-feira a sábado, das 8h às 22h, no horário de Brasília. O serviço funciona pelo site podefalar.org.br e também está disponível pelo Meu SUS Digital, conforme informações divulgadas pelo Ministério da Saúde.
Além dos serviços de atendimento, familiares podem contribuir ao manter um ambiente no qual o adolescente se sinta confortável para falar sobre suas preocupações. Nesse sentido, ouvir sem julgamentos e levar a sério o sofrimento relatado são atitudes importantes para que o jovem saiba que pode pedir ajuda.

Saúde mental também faz parte da preparação para o futuro
A reta final do Enem exige organização e dedicação, mas também precisa incluir atenção às condições emocionais dos estudantes. Embora a aprovação seja um objetivo importante para muitos jovens, ela não deve ficar acima da saúde mental, da autoestima e das relações familiares.
Por isso, a participação dos responsáveis não precisa se concentrar na fiscalização das horas de estudo ou na cobrança por resultados. O acompanhamento também envolve oferecer apoio, reconhecer o esforço e transmitir segurança diante das incertezas que fazem parte do processo.
A psicóloga Irenilza Moura reforça que o incentivo deve caminhar junto com o cuidado emocional. Para ela, nenhuma avaliação deve ter mais importância do que a saúde de um jovem.
“É importante que as famílias incentivem sem transformar o amor em cobrança. Nenhuma prova deve custar a saúde mental de alguém. Cuidar de si também faz parte da preparação para o futuro. Cuidar da saúde mental e das emoções pode salvar uma vida”.
Ao final, a preparação para o exame também envolve a maneira como os estudantes atravessam esse período e o suporte que recebem das pessoas próximas. Como destaca a profissional, o objetivo não deve ser apenas alcançar uma vaga, mas enfrentar o desafio sem perder a confiança em si mesmo e nas possibilidades que ainda existem.
“O objetivo não é apenas passar na prova, mas atravessar esse desafio sem perder saúde mental, autoestima e a capacidade de acreditar no próprio futuro. Que nós possamos apoiar os nossos jovens e estar com eles nesse momento. Que, diante dos resultados, eles possam olhar para trás e dizer: a minha família esteve comigo e, porque ela está comigo, eu posso vencer qualquer situação, qualquer obstáculo, qualquer desafio”.
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