A saúde mental materna precisa fazer parte do acompanhamento oferecido às mulheres desde a gestação. Embora a maternidade seja frequentemente associada à felicidade e à realização, a experiência também pode envolver medos, inseguranças e sentimentos contraditórios. A romantização desse período, porém, pode dificultar o reconhecimento do sofrimento emocional e atrasar a busca por acolhimento.

Com mais de 15 anos de atuação na área de psiquiatria perinatal, Patrícia defende que o cuidado com a mulher não deve se limitar às mudanças físicas provocadas pela gravidez e pelo nascimento de um bebê. Para ela, é necessário reconhecer as diferentes experiências emocionais que atravessam a maternidade.
“A maternidade ainda é muito romantizada. Acreditamos que a mulher, ao se tornar mãe, está plena, feliz e realizada. Quando partimos desse pressuposto ao conversar com mães, deixamos de perguntar e de ouvir o que ela está sentindo de fato”, afirma.
Saúde mental precisa fazer parte do pré-natal
A identificação de sinais de sofrimento psíquico durante a gestação permite que as equipes de saúde reconheçam vulnerabilidades e avaliem a necessidade de acompanhamento. Nesse sentido, o pré-natal representa uma oportunidade para estabelecer uma relação de confiança com a gestante e abrir espaço para que ela fale sobre seus sentimentos.
A importância desse cuidado também aparece nas orientações do Ministério da Saúde. A Caderneta Brasileira da Gestante, atualizada em 2026, inclui aspectos emocionais e de saúde mental no acompanhamento da gravidez. Além disso, as diretrizes nacionais para a atenção no puerpério reforçam a necessidade de um cuidado integral, que considere as dimensões física, emocional e social da mulher.
Para Patrícia, os profissionais precisam estar preparados para reconhecer que cada gestante vivencia esse período de maneira particular. A avaliação não deve considerar apenas aspectos físicos ou a saúde do bebê, mas também as necessidades emocionais da mulher.
“Os profissionais de saúde ainda estão muito voltados aos cuidados com o bebê e com o corpo físico da mãe, esquecendo que um bebê também nasce no psiquismo materno. Essa mulher também é sujeito de desejos, ambivalências, medos e dores que não anulam o amor pelo bebê”, destaca.
A médica também ressalta que a capacitação das equipes precisa ir além da aplicação de instrumentos de triagem. O atendimento deve incluir uma escuta qualificada, capaz de considerar a realidade e o contexto de cada paciente.
“O pré-natal é uma oportunidade privilegiada para construir vínculos de confiança, identificar vulnerabilidades, reconhecer sinais precoces de sofrimento psíquico e oferecer intervenções antes que esse sofrimento se agrave”, ressalta.
Puerpério também exige atenção emocional
O cuidado com a saúde mental não termina com o nascimento do bebê. Durante o puerpério, a mulher passa por mudanças físicas, emocionais e familiares que podem afetar sua rotina e suas relações. Ao mesmo tempo, mãe e bebê começam a construir vínculos e a desenvolver uma nova dinâmica de convivência.
Segundo Patrícia, esse processo pode se tornar ainda mais complexo quando há sofrimento psíquico. Por isso, o acompanhamento precisa considerar as necessidades da mulher para além dos cuidados imediatos com o recém-nascido.
“O puerpério é o período em que a mãe e o bebê estão desenvolvendo vínculos, aprendendo a se comunicar e estabelecendo uma nova dinâmica entre as relações. Quando tudo isso é atravessado pelo adoecimento mental, toda a dimensão é afetada”, explica.
A presença de sentimentos como medo, insegurança e ambivalência, isoladamente, não significa necessariamente a existência de um transtorno mental. No entanto, quando há sofrimento persistente ou prejuízo à vida cotidiana, a avaliação de profissionais de saúde pode ajudar a identificar a necessidade de acompanhamento.
Capacitação de profissionais em Salvador
A formação de profissionais para reconhecer sinais de sofrimento emocional durante a gravidez também integra a programação do SIAPARTO 2026. Nesta sexta-feira (30), primeiro dia das atividades do evento, Patrícia Piper e Ana Brandino ministraram o minicurso “Capacitação prática para triagem pré-natal em saúde mental”, realizado das 8h às 12h, na Faculdade Unime Anhanguera, no terceiro andar do Shopping Paralela, em Salvador.
Com duração de quatro horas, a atividade foi direcionada à capacitação de profissionais para identificar vulnerabilidades emocionais durante a gestação. O minicurso foi exclusivo para participantes inscritos no congresso.
A participação de Patrícia também inclui uma abordagem sobre ansiedade perinatal, tema relacionado às experiências emocionais que podem surgir durante a gestação e no período após o parto.
Saúde mental materna como parte essencial da assistência
Patrícia Piper é fundadora da Campanha Maio Furta-cor e diretora da Associação Maio Furta-cor, iniciativas voltadas à promoção da saúde mental materna e à defesa de políticas públicas destinadas às mães e às famílias brasileiras.
Sua trajetória profissional reúne atividades de ensino, pesquisa e capacitação em temas como saúde mental perinatal, trauma, neurociência, maternidade, direitos reprodutivos e violência de gênero.
A participação da médica no SIAPARTO reforça a discussão sobre a necessidade de incorporar a saúde mental à assistência materna desde a gravidez. A proposta é ampliar o olhar das equipes de saúde para as transformações vividas pela mulher durante a maternidade, reconhecendo que o cuidado precisa contemplar tanto a mãe quanto o bebê.
“Cuidar da saúde mental materna não é apenas prevenir doenças. É reconhecer que, enquanto um bebê nasce, uma mulher também atravessa uma profunda transformação, e que ela merece ser cuidada, não apenas porque é mãe, mas porque é uma pessoa”, conclui Patrícia.



