Pesquisas realizadas no Brasil identificaram prevalências de transtornos mentais entre 10,8% e 19,9% de crianças e adolescentes, segundo uma revisão sistemática publicada em 10 de julho de 2026 na revista científica BMJ Global Health. Os percentuais variam conforme a população estudada e correspondem a pesquisas realizadas em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e em Porto Alegre e São Paulo. O levantamento não oferece uma estimativa nacional definitiva, pois o país ainda não conta com um estudo nacionalmente representativo que utilize entrevistas clínicas para medir a prevalência desses transtornos.
Intitulada The science of child and adolescent mental health in Brazil: a nationwide systematic review and compendium of evidence-based resources (A ciência da saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil: uma revisão sistemática de abrangência nacional e um compêndio de recursos baseados em evidências), a pesquisa reuniu 734 estudos sobre saúde mental de crianças e adolescentes, com 2.576 estimativas de prevalência, 912 instrumentos de avaliação distintos e 192 estudos de intervenção, que incluíram 173 ensaios. O artigo completo está disponível na revista BMJ Global Health, por meio do PubMed Central.

O que a revisão revela sobre a saúde mental infantil
O trabalho mapeou evidências científicas sobre a saúde mental de crianças e adolescentes em um país com cerca de 50 milhões de pessoas nessa faixa etária. Entre os estudos analisados, os pesquisadores encontraram prevalências de pelo menos um transtorno mental que variaram de 10,8%, entre crianças de 12 anos em Pelotas (RS), a 19,9%, entre participantes de 7 a 14 anos em Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP).
No entanto, esses números não representam a realidade de todas as crianças e adolescentes brasileiros. Os autores destacam que a produção científica nacional ainda apresenta lacunas para compreender as necessidades de saúde mental dessa população em diferentes contextos sociais e regionais. Além disso, a ausência de um estudo nacionalmente representativo baseado em entrevistas clínicas limita a possibilidade de estabelecer uma estimativa para todo o país.
A revisão também reúne informações sobre instrumentos de avaliação e intervenções utilizadas nessa área. Dessa forma, o estudo organiza evidências que podem contribuir para novas pesquisas e para o planejamento de ações de cuidado em saúde mental infantojuvenil.
Para Tatiane Chagas, especialista em Neurodesenvolvimento Infantil e Neurociência da Aprendizagem e CEO da Clínica Estímulos, os dados reforçam a importância de reconhecer o sofrimento emocional durante a infância.
“O percentual mostra que o sofrimento psíquico na infância é frequente e não pode ser tratado como ‘fase’ ou ‘frescura’. Quanto mais cedo é identificado, melhores são as chances de cuidado e de desenvolvimento saudável”, pontua.
Violência, bullying e uso de substâncias entre os fatores de risco
Além dos transtornos mentais, a revisão reúne dados sobre a exposição de crianças e adolescentes a situações que podem comprometer a saúde física e emocional. Entre os adolescentes de 13 a 17 anos, 65,2% já consumiram álcool na vida, enquanto 14,3% usaram drogas ilícitas e 17,1% experimentaram cigarro eletrônico.
Esses indicadores descrevem experiências ao longo da vida e o contato com diferentes substâncias. Por isso, é importante considerar o período em que cada pesquisa ocorreu e a população avaliada. Os percentuais não representam uma medição atual do consumo entre todos os adolescentes brasileiros.
A violência também aparece entre os pontos de atenção. Segundo os dados reunidos na divulgação do estudo, 40% dos adolescentes relataram ter sofrido bullying no mês anterior à pesquisa. No mesmo conjunto de indicadores, 21% sofreram violência física doméstica no último ano e 14,6% relataram abuso sexual ao longo da vida.
Cada percentual considera um período de referência diferente: o bullying corresponde ao mês anterior à pesquisa; a violência física doméstica, ao último ano; e o abuso sexual, a toda a vida. Essas diferenças precisam ser consideradas na interpretação dos números, que não descrevem necessariamente experiências ocorridas no mesmo intervalo.
Mortes por arma de fogo e discriminação racial
A revisão também aborda mortes por arma de fogo entre crianças e adolescentes. O estudo apresenta uma taxa de 10,04 mortes por 100 mil pessoas de 1 a 19 anos, conforme a faixa etária identificada na publicação científica. Além disso, o trabalho destaca a predominância de homicídios entre jovens negros do sexo masculino nesse contexto.
Outro aspecto analisado pelos pesquisadores é a relação entre discriminação racial e saúde mental. A revisão aponta que a discriminação racial, e não a raça em si, está associada a maiores índices de depressão, autolesão e uso de substâncias.
Para Tatiane Chagas, compreender esse cenário exige considerar as experiências vividas pelos jovens nos ambientes em que convivem.
“Crianças e adolescentes que convivem com violência, preconceito ou negligência carregam isso no corpo e no comportamento. O cuidado com a saúde mental precisa considerar o contexto em que esse jovem vive, na família, na escola e na comunidade”, explica.
Crianças neurodivergentes e a atenção ao bullying
O bullying também exige atenção no ambiente escolar, especialmente quando envolve crianças e adolescentes neurodivergentes. Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia e outras condições do neurodesenvolvimento podem enfrentar dificuldades quando a comunidade escolar não compreende suas diferenças de comunicação, interação social e comportamento.
O Ministério da Saúde explica como funciona o atendimento especializado a pessoas com TEA e destaca o papel da rede de saúde no acompanhamento dessas pessoas.
Embora a revisão reúna evidências sobre a saúde mental infantojuvenil e fatores sociais relacionados ao sofrimento psíquico, os percentuais gerais de bullying apresentados no material não permitem calcular, por si só, a frequência desse tipo de violência entre crianças neurodivergentes. Essa distinção evita atribuir ao estudo uma conclusão específica que os dados apresentados não demonstram.
Ainda assim, a exposição à violência e à exclusão merece atenção, sobretudo quando a criança enfrenta desafios no cotidiano. Ansiedade, depressão e isolamento são questões que exigem cuidado quando há sofrimento emocional. No entanto, a presença de uma condição do neurodesenvolvimento não determina, por si só, o desenvolvimento desses problemas.
Tatiane Chagas destaca que o cuidado também precisa considerar a maneira como o ambiente responde às necessidades de cada criança.
“A criança neurodivergente não sofre apenas pelas dificuldades que tem, mas pela forma como o entorno reage a elas. Quando a escola e a família entendem o funcionamento dela e oferecem as adaptações necessárias, o risco de adoecimento emocional diminui de forma significativa”.
Nesse contexto, identificar situações de exclusão, manter o diálogo entre responsáveis e escola e oferecer adaptações adequadas pode ajudar a atender às necessidades individuais. O acompanhamento deve considerar as características da criança e as condições em que ela vive, sem reduzir suas experiências a um diagnóstico.
Sinais de alerta para a saúde mental infantil
Mudanças bruscas de comportamento podem indicar que uma criança ou adolescente precisa de atenção. Entre os sinais citados pela especialista estão isolamento, queda no rendimento escolar, alterações no sono e no apetite, irritabilidade intensa, falas de desesperança e marcas de autolesão.
Essas manifestações não confirmam isoladamente um transtorno mental. Ainda assim, merecem atenção, principalmente quando persistem ou interferem na rotina. Observar mudanças de comportamento e ouvir a criança sem julgamentos pode ajudar a identificar situações em que ela precisa de apoio.
Segundo Tatiane Chagas, o primeiro passo é acolher a criança ou o adolescente, sem minimizar o que ele sente.
“O primeiro movimento deve ser escutar sem julgar e sem minimizar. Depois, buscar ajuda profissional, seja em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), com um pediatra ou um psicólogo, e envolver a escola, que é um espaço-chave de observação. Em situação de risco à vida, não espere: procure um serviço de urgência”, orienta a profissional.
Portanto, quando houver preocupação com a saúde mental da criança ou do adolescente, a família deve procurar orientação profissional. Em situações de risco imediato à vida, não deve esperar por uma consulta de rotina: é necessário buscar atendimento de urgência.

Onde buscar atendimento em saúde mental infantil pelo SUS
Na rede pública, as famílias podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber orientação e buscar uma avaliação inicial. Conforme a necessidade, a equipe pode encaminhar a criança ou o adolescente para um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), serviço voltado ao atendimento de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico intenso.
O Ministério da Saúde disponibiliza informações sobre os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), suas modalidades e formas de acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento é gratuito, e a família pode procurar orientação na UBS da região para saber qual serviço atende às necessidades da criança ou do adolescente.
Em situações de risco imediato à vida, a orientação é procurar um serviço de urgência, como uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), um pronto-socorro ou um hospital. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado gratuitamente pelo número 192, durante 24 horas por dia.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, com atendimento 24 horas por dia. O serviço oferece escuta a pessoas que precisam conversar, mas não substitui o atendimento de emergência em situações de risco imediato.


