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Foto: Magnific

Você saberia como cuidar de alguém no fim da vida?

ÚLTIMOS SOCORROS

Últimos socorros ajudam familiares a enfrentar o fim da vida com mais informação, acolhimento e segurança.

Tempo de Leitura: 4 minutos

Quase todo mundo já ouviu falar em primeiros socorros. No entanto, poucas pessoas sabem como agir quando um familiar entra na fase final de uma doença e a cura deixa de ser possível. Nesse cenário, os chamados últimos socorros propõem preparar familiares, amigos e cuidadores para acolher pacientes, aliviar o sofrimento e enfrentar esse momento com mais segurança e dignidade.

Embora a morte faça parte da vida, o assunto ainda é cercado por tabus. Como consequência, muitas famílias enfrentam esse período sem orientação e precisam tomar decisões importantes em meio à dor. Para especialistas, conversar sobre o fim da vida antes de uma situação crítica garante mais autonomia ao paciente e oferece mais tranquilidade aos familiares.

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Imagem: Divulgação\ Site Últimos socorros

O que são os últimos socorros?

Criado na Alemanha, em 2008, pelo médico intensivista Georg Bollig, o curso Últimos Socorros nasceu durante uma pesquisa em cuidados paliativos. Desde então, já formou mais de 20 mil pessoas em cerca de 20 países. O projeto chegou ao Brasil em 2020 e, neste ano, passou a integrar a programação da Florence, hospital de transição especializado em reabilitação e cuidados paliativos, em Salvador.

A iniciativa parte de uma ideia simples. Assim como qualquer pessoa pode aprender primeiros socorros, também é possível aprender a cuidar de alguém durante o processo final da vida. Por isso, o curso apresenta orientações práticas para aliviar o desconforto do paciente, compreender suas necessidades e oferecer apoio aos familiares.

Segundo a médica paliativista Yanne Amorim, da Florence, esse preparo pode transformar a forma como as famílias vivenciam esse período.

“O curso dá ferramentas concretas para que as pessoas saibam o que fazer nesta situação: como conversar sobre desejos de fim de vida antes que seja tarde, como aliviar o desconforto de quem está partindo, como lidar com o silêncio e com as despedidas. São coisas que geralmente a gente só aprende na prática, no meio da dor, mas pode aprender antes, com calma.”

Os encontros acontecem em formato de roda de conversa. Durante a atividade, facilitadores abordam quatro temas principais: morrer é parte da vida, planejamento e tomada de decisões, alívio do sofrimento e despedidas. Além disso, qualquer pessoa pode participar, pois não é necessário ter formação na área da saúde.

Falar sobre a morte também é uma forma de cuidado

Apesar de inevitável, a morte ainda desperta desconforto em muitas famílias. Por isso, conversas sobre desejos, limites do tratamento e formas de cuidado costumam acontecer apenas quando a doença já está avançada.

Esse silêncio pode gerar insegurança. Muitas vezes, familiares precisam decidir sobre tratamentos e cuidados sem conhecer a vontade do paciente. Além disso, o sentimento de culpa costuma acompanhar essas escolhas.

Para Yanne Amorim, falar sobre o assunto antes de uma situação crítica reduz esse peso emocional.

“Enquanto a morte for um tabu, as famílias vão continuar decidindo no escuro, muitas vezes sem saber o que a pessoa gostaria, ou se sentindo culpadas por escolhas que nem eram delas para fazer. Falar sobre isso com antecedência é um ato de cuidado: dá autonomia para o paciente expressar o que quer e dá segurança para a família.”

Cuidados paliativos vão além do fim da vida

Muitas pessoas ainda acreditam que os cuidados paliativos significam interromper o tratamento. Entretanto, essa ideia está equivocada.

Na prática, essa abordagem busca aliviar sintomas físicos, emocionais, sociais e espirituais de pessoas com doenças graves. O objetivo principal é preservar a qualidade de vida do paciente e oferecer suporte à família durante todo o tratamento.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos podem começar logo após o diagnóstico de uma doença ameaçadora à vida. Dessa forma, eles podem acompanhar outros tratamentos, sem substituir terapias voltadas ao controle da doença.

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Imagem: Magnific

Debate ganha espaço na sociedade

Nos últimos dias, o tema voltou ao centro das discussões com a estreia do documentário Preta – Eu Não Ando Só. A produção reúne registros feitos pela cantora Preta Gil durante o tratamento contra o câncer até sua morte, em julho de 2025.

A repercussão da obra ampliou o debate sobre dignidade, acolhimento e qualidade de vida quando a cura deixa de ser possível. Além disso, especialistas avaliam que esse tipo de produção ajuda a reduzir preconceitos e incentiva famílias a conversarem sobre um tema que ainda costuma ser evitado.

Quanto mais cedo essas conversas acontecem, maiores são as chances de que os desejos do paciente sejam respeitados. Da mesma forma, familiares enfrentam esse período com mais segurança e menos sofrimento.

Como participar

Os interessados podem se inscrever no curso Últimos Socorros por meio do site oficial do projeto. A plataforma reúne o calendário das próximas turmas e outras informações sobre a formação.

Embora ninguém queira pensar na despedida de quem ama, aprender sobre esse momento também representa uma forma de cuidado. Afinal, os primeiros socorros ajudam a salvar vidas. Já os últimos socorros ensinam como oferecer conforto, respeito e acolhimento quando a cura deixa de ser o principal objetivo.

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