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A privação de sono pode aumentar a sonolência e prejudicar a concentração durante o Enem 2026. A médica Cristina Salles explica que o sono também participa dos processos relacionados à memória e à aprendizagem

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Enem 2026: dormir pouco pode prejudicar a memória e causar o temido ‘branco’ na hora da prova

ENEM E QUALIDADE DO SONO

Com mais de 437 mil inscritos na Bahia, Enem começa neste domingo (8). Médica do sono explica os riscos de sacrificar o descanso, enquanto estudante relata a pressão por uma boa nota.

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A privação de sono pode aumentar a sonolência e prejudicar a concentração durante o Enem 2026. A médica Cristina Salles explica que o sono também participa dos processos relacionados à memória e à aprendizagem
Tempo de Leitura: 5 minutos

Na reta final para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, a tentativa de aproveitar cada minuto para estudar pode acabar prejudicando o desempenho dos candidatos. Dormir pouco, especialmente na véspera da avaliação, pode comprometer a concentração e dificultar o acesso aos conteúdos aprendidos. O alerta é da médica do sono Prof.ª Dra. Cristina Salles, que destaca a importância do descanso para a memória e a aprendizagem.

As provas serão realizadas nos dias 8 e 15 de novembro, com 5.051.345 inscrições confirmadas em todo o Brasil, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Na Bahia, são 437.243 inscrições confirmadas, entre participantes isentos e pagantes.

A pressão por bons resultados leva muitos estudantes a sacrificar o descanso para ampliar o tempo de preparação. É o caso de Maria Luiza, de 18 anos, que conta dormir poucas horas para conseguir revisar os conteúdos e aproveitar ao máximo o tempo disponível antes do exame.

“Eu sei que preciso dormir mais, mas fico pensando que poderia estar aproveitando esse tempo para estudar. Quero muito passar, então sinto que preciso me dedicar o máximo possível. A cobrança é muito grande, principalmente a que faço comigo mesma, mas também existe a expectativa da minha família. Às vezes, mesmo estando cansada, prefiro continuar estudando porque tenho medo de chegar na prova e sentir que não fiz tudo o que poderia”, relata a estudante.

Embora seja uma estratégia adotada diante da ansiedade pela aprovação, reduzir as horas de sono pode produzir o efeito contrário ao desejado.

A médica do sono e otorrinolaringologista Dra. Cristina Salles, professora adjunta da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e coordenadora da Unidade de Medicina do Sono do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes-UFBA/ HU Brasil), explica que o descanso noturno participa de processos fundamentais para consolidar informações e preservar funções cognitivas necessárias durante uma prova.

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A preocupação encontra respaldo científico. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 na revista Sleep Medicine Reviews, que reuniu 44 estudos, identificou que uma única noite de sono restrito pode aumentar a sonolência e prejudicar a atenção sustentada. Em um exame extenso como o Enem, manter a concentração por várias horas é essencial para interpretar textos, resolver questões e elaborar a redação.

Por que dormir pouco pode prejudicar a memória?

Durante a noite, o cérebro passa por diferentes estágios do sono, responsáveis por funções complementares no processamento das informações e na recuperação do organismo.

Entre eles estão o sono profundo, conhecido como N3, mais concentrado na primeira parte da noite, e o sono REM, cujos períodos tendem a ficar mais prolongados na segunda metade do descanso. Ambos participam de mecanismos relacionados à aprendizagem e à memória.

Segundo Cristina Salles, acordar mais cedo para estudar pode reduzir o tempo destinado a essas etapas, especialmente ao sono REM.

“Quando você toma essa decisão, diminui o percentual de sono REM e, consequentemente, pode comprometer a memória, a cognição e a capacidade de decisão na hora da prova“, alerta a especialista.

A médica, que também coordena o Ambulatório de Medicina do Sono da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, reforça que a aprendizagem não depende apenas do tempo dedicado aos livros. O descanso adequado contribui para que o cérebro processe e consolide parte das informações adquiridas durante os estudos.

O ‘branco’ na hora da prova pode ter relação com a falta de sono?

Esquecer uma fórmula, não conseguir desenvolver um raciocínio ou ter dificuldade para recordar um conteúdo estudado são situações que preocupam os candidatos. O chamado “branco” pode estar relacionado a diferentes fatores, incluindo ansiedade e estresse, mas a privação de sono também pode contribuir para dificuldades de atenção e recuperação de informações.

No Enem, essas alterações merecem atenção porque a avaliação exige resistência mental e diferentes habilidades cognitivas, desde a interpretação de textos até a resolução de problemas e a produção de uma redação.

Cristina Salles destaca que o sono profundo está relacionado à memória semântica, responsável pelo armazenamento de conceitos, conhecimentos gerais e significados.

“Outro ponto importante é que o sono N3 também está relacionado à memória semântica. E, quando vamos fazer uma prova, principalmente uma redação, precisamos dessa memória“, explica.

A memória semântica permite compreender assuntos, relacionar informações e utilizar conhecimentos acumulados. Na redação do Enem, por exemplo, essa capacidade contribui para a construção de argumentos e a mobilização do repertório adquirido durante a preparação.

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Quantas horas o estudante deve dormir antes do Enem?

A quantidade de sono recomendada varia conforme a idade. De acordo com a Academia Americana de Medicina do Sono, adolescentes de 13 a 18 anos devem dormir entre oito e dez horas por dia. Para adultos, a recomendação geral é de pelo menos sete horas por noite.

A orientação, entretanto, não é tentar compensar todo o descanso perdido apenas na véspera da prova. Manter uma rotina regular de sono ao longo da preparação também é importante.

Entre os cuidados recomendados estão evitar mudanças bruscas nos horários de dormir e acordar, reduzir o consumo de cafeína no fim do dia, diminuir o uso prolongado de telas à noite e reservar um período de tranquilidade antes de se deitar.

Para os candidatos que pretendem aproveitar a madrugada ou antecipar o despertador para uma última revisão, a especialista chama atenção para o risco de chegar ao local da prova com sonolência e maior dificuldade de manter o foco.

Na véspera do Enem, descansar também faz parte da preparação

Com a primeira etapa do exame marcada para este domingo (8), a recomendação é organizar os últimos momentos de revisão sem comprometer o descanso.

Para estudantes como Maria Luiza, que convivem com a cobrança pessoal e familiar por uma boa nota, equilibrar a dedicação aos estudos e a necessidade de dormir pode ser um desafio. No entanto, a orientação médica é que o sono seja considerado parte da preparação, e não um obstáculo ao aprendizado.

“Por isso, precisamos dormir bem, garantindo quantidade, qualidade e regularidade do sono, para que consigam ter um bom desempenho nas provas“, conclui Cristina Salles.

A mensagem para os candidatos é que estudar mais horas nem sempre significa aprender melhor. Na reta final do Enem, preservar o descanso pode ajudar a manter a atenção e favorecer o aproveitamento dos conhecimentos adquiridos ao longo da preparação.

Foto: Arquivo pessoal Dra. Cristina Salles

 

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